01/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 05/02/2019 15:01 -02

Quando a força do esporte é o caminho: A determinação da atleta Susana Schnarndorf

Atleta encontrou na prática esportiva o estímulo para lidar com sua condição de saúde: “Acho que foi o esporte que me deu mais tempo."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Susana Schnarndorf é a 300ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

A sua grande preocupação hoje em dia é clara. Toda sua energia está direcionada para os jogos Parapan-Americanos de 2019 e para o campeonato Mundial. São as primeiras etapas para o maior objetivo que tem: competir nas Para-Olimpíadas de Tóquio, em 2020. Atleta desde sempre, Susana Schnarndorf, 51 anos, precisou trocar de esporte, de competição e atualmente muda constantemente de categoria também. Diagnosticada aos 37 anos com MSA (Atrofia de Múltiplos Sistemas), Susana tornou-se nadadora paralímpica em 2010. Por causa da evolução da doença, já mudou de categoria três vezes – e sabe que isso pode continuar acontecendo. Mas não se importa. O foco não é esse. “Hoje eu tenho só 50% da capacidade respiratória, mas a gente se acostuma até com isso. Não fico muito na expectativa do que vai acontecer, quanto tempo de vida eu vou ter, se vou estar andando. Penso que ano que vem tem Parapan, mundial e não fico mais tão preocupada com a doença e tenho outro foco, o que ajuda bastante”.

Não fico muito na expectativa do que vai acontecer, quanto tempo de vida eu vou ter, se vou estar andando. Penso que ano que vem tem Parapan, mundial.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
E em meio a todo esse sofrimento, Susana recebeu a indicação médica de se mexer para tentar frear o desenvolvimento da doença.

Sua rotina de treino é como a de qualquer atleta de alto rendimento – algo que ela conhece muito bem e adora. Atualmente, treina em São Paulo de segunda a sábado além de fazer fisioterapia e musculação. Antes da doença, Susana era triatleta e já estava muito acostumada a essa dedicação ao esporte. Hoje, além de ser a sua profissão é também o seu principal tratamento. "Acho que me dá uma qualidade de vida e me ajuda bastante a não piorar tanto. Tenho certeza de que estou aqui até hoje por causa do esporte. Recebo muito e-mail de gente que tem a minha doença, que é bem rara, e perguntam o que eu tomo e meu remédio é treinar". Quando descobriu a MSA, os médicos chegaram a dar dois anos de vida para Susana. Ela já vive com a doença há 14.

Demorou um pouco para ter o diagnóstico preciso. Sua terceira filha tinha acabado de nascer e ela havia se separado e logo começou a ter algumas dificuldades motoras. Foi a diversos médicos até conseguir descobrir o que tinha. "Foi um monte de baque. Chegaram a achar que era depressão, síndrome do pânico, depois que era um tumor no cérebro, esclerose, fiz muitos exames e piorei bem rápido no início, achei que ia deixar meus filhos sem mãe, foi um pavor. Eu fazia triatlo e de repente não conseguia nem escovar meus dentes, não conseguia cuidar direito dos meus filhos".

Nessa época, tomou a decisão mais difícil de sua vida. Deixou as suas três crianças irem morar com o pai delas. "Isso foi bem complicado. Uma parte da minha vida muito sofrida, mas eu não tinha condição nenhuma de cuidar deles. Sou o mais presente que eu posso e foi bem difícil. Mas são crianças que eu consegui privar de várias coisas ruins que eles iam ter que ver. Foi uma decisão por amor deixar eles irem, mas foi bem sofrido. Ainda me culpo, mas acho que eles estão bem e que foi a melhor coisa". Na época, a caçula tinha três meses, o do meio três anos e o mais velho sete anos.

Foi uma decisão por amor deixar meus filhos irem, mas foi bem sofrido. Eu não tinha condição nenhuma de cuidar deles. São crianças que eu consegui privar de várias coisas ruins.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Sua rotina de treino é como a de qualquer atleta de alto rendimento - algo que ela conhece muito bem e adora.

E em meio a todo esse sofrimento, Susana recebeu a indicação médica de se mexer para tentar frear o desenvolvimento da doença e praticar hidroginástica. Pouco estimulado com a modalidade, acredita que teve sorte. Descobriu que uma parte da seleção paraolímpica treinava na mesma piscina e as coisas começaram a mudar. "O técnico falou que eu podia nadar com eles. Eu estava com 37 anos, achei que era maluquice e daí comecei a vida paraolímpica e me salvou, eu estava muito abatida e o esporte me deu uma luz no fim do túnel, algo que eu podia fazer mesmo doente porque é uma doença bem agressiva e acho que foi o esporte que me deu mais tempo".

Em 2010, estreou como nadadora na categoria S8 (S1 é a categoria com mais deficiência e S10 com menos) e representou o Brasil em dois jogos Para-Panamericanos – em Londres e no Rio de Janeiro. Conta emocionada da lembrança que tem de entrar no estádio olímpico em 2012, em Londres. Estava com o celular no bolso e falou com o filho. "Ele disse que estava me vendo na TV e comecei a ter uma crise de choro e pensava: 'olha onde eu estou'. A gente nunca sabe o que vai acontecer e tive que me acostumar a viver com a doença. Tenho meus dias bons, mas tenho meus dias ruins também. É difícil sim, mas tento olhar o lado bom. É muito ruim conviver com a doença, mas ela me trouxe muita coisa boa também".

O esporte me deu uma luz no fim do túnel, algo que eu podia fazer mesmo doente porque é uma doença bem agressiva e acho que foi o esporte que me deu mais tempo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
E nesses mais de 8 anos de carreira paralímpica, Susana já passou por quatro categorias e hoje compete na S4.

E traria muito mais ainda. Triatleta profissional na década de 80, participou de 13 Ironmans e foi penta campeã brasileira de triatlhlon olímpico e tinha o sonho de ganhar uma medalha em Jogos Olímpicos. Isso se realizou, de uma forma que não esperava, em seu país, nos jogos do Rio de Janeiro, em 2016. "Fico até arrepiada de falar. Nem em sonho eu esperava aquilo e subir no pódio foi a realização de um sonho que era olímpico e virou paraolímpico". Susana ganhou a medalha de prata.

Além da realização de um sonho, Susana acredita que os jogos do Rio foram importantes para a categoria como um todo. Ela vê significativas melhoras na área e acredita que a valorização dos profissionais está crescendo também. "O atleta paralímpico deixou de ser coitadinho, viram que somos atletas de alto nível, de rendimento, deu outra visão para o esporte". E acompanha o crescimento de todos nessa área. "Acho que vem mudando e vejo um trabalho importante de base, o esporte sendo apresentado para crianças e assim como mudou a minha vida pode mudar a delas também, mostrar desde cedo que tem um caminho bacana, ver que ela pode praticar esporte, isso ajuda muito a autoestima delas".

Vivemos a profissão 24 horas por dia. A gente não tem pizza e chopp depois do expediente, o seu corpo que vai te levar, mas isso nunca foi um sofrimento porque eu adoro treinar.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Triatleta profissional na década de 80, participou de 13 Ironmans e foi penta campeã brasileira de triatlhlon olímpico.

E nesses mais de 8 anos de carreira paralímpica, Susana já passou por quatro categorias e hoje compete na S4. Conta que é um desafio ter que se adequar às limitações do corpo que vão aparecendo, mas está preparada para lidar com isso. "Estava brincando com as de classe baixa: 'se liga que estou chegando' [risos]. Conforme minha doença progride vou mudando de classe e me adequando, mas até hoje eu sinto agonia, eu não nado como eu nadava antes então tem que trocar um mode e saber o que eu consigo fazer agora e tentar nadar de outro jeito. Preciso fazer isso quase que diariamente".

E é o que ela faz. Tem suas próprias motivações, mas encontra força também nos outros. Os filhos são a parte principal do seu combustível, mesmo a distância. "Fico feliz que estão bem. Tento mostrar para eles que pode ser difícil, mas a gente pode conseguir. Eles são minha maior força. Teve uma vez que eu não estava muito bem e meu mais velho disse que eu não podia desistir não, que meu sonho era o sonho dele também, não era mais só meu. E aquilo mexeu muito comigo". Fez com que Susana fosse ainda mais dedicada.

Tenho meus dias bons, mas tenho meus dias ruins também. É difícil sim, mas tento olhar o lado bom. É muito ruim conviver com a doença, mas ela me trouxe tanta coisa boa também.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Adoro sentir aquele friozinho na barriga, querer melhorar um tempo, isso me motiva para caramba."

Algo que sempre teve, aliás. Dedicação e apoio, o que é uma grande satisfação para ela. "Eu tenho bastante apoio, consigo só treinar, não tenho outra fonte de renda, vivo disso e vivemos a profissão 24 horas por dia. A gente não tem pizza e chopp depois do expediente, o seu corpo que vai te levar, mas isso nunca foi um sofrimento para mim porque eu adoro treinar". Treinar e competir. Desde pequena. Ela brinca que quando criança já competia em sua casa, em Porto Alegre, qual dos irmãos matava mais mosquito.

Algo que nunca mudou. Como atleta, o foco é nos tempos que quer reduzir e marcas que deseja bater. "Adoro sentir aquele friozinho na barriga, querer melhorar um tempo, isso me motiva para caramba. Mas levo para o lado bom, natação é a gente com a gente mesmo, contra o cronômetro, tenho que ganhar de mim mesma. Gosto muito de treinar e competir, me faz muito bem".

E é por isso que pensa apenas nas próximas provas. E no seu objetivo maior: chegar a Tóquio em 2020. Se tudo sair como espera, serão 16 anos de convivência com a doença. Essa, aliás, talvez seja a única briga com o cronômetro que Susana sente prazer em aumentar o tempo. Assim ela continua ganhando.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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