LGBT
30/12/2018 08:13 -02 | Atualizado 30/12/2018 08:13 -02

Somos gays e tudo bem: A sexualidade amplamente aceita em filmes de 2018

"A Favorita", "Poderia me Perdoar?" e "Green Book – O Guia" não recorrem a artifícios convencionais para contar histórias de personagens LGBT.

Photo illustation by Damon Scheleur / HuffPost; Photos courtesy of Fox Searchlight and Universal Pictures
Melissa McCarthy em

Leva meia hora para alguma coisa homossexual acontecer no filme A Favorita. E então, com um simples beijo inesperado, o filme passa de uma farsa sobre a corte da Rainha Ana da Grã-Bretanha para uma versão lésbica de A Malvada, de 1950.

Mais ou menos o mesmo tempo passa até Lee Israel (Melissa McCarthy), a protagonista de Poderia Me Perdoar?, revelar sua sexualidade casualmente – usando pronomes femininos quando fala de um relacionamento que terminou.

E em Green Book – O Guia, a atração que o pianista de jazz Don Shirley (Mahershala Ali) sente por homens quase não passa de uma nota de rodapé – mas uma nota que, mesmo assim, nos oferece um insight agudo sobre a vida solitária que ele levava no início dos anos 1960.

Nenhum desses filmes agita bandeiras de arco-íris como um dos destaques de sua narrativa. Títulos importantes na corrida para premiações que está em curso, os filmes tratam de figuras gays e lésbicas que não são caracterizadas em primeiríssimo lugar por sua sexualidade: uma rainha britânica, uma autora de best-sellers, um artista renomado. Você talvez só descubra que eles são gays muito depois dos créditos iniciais dos filmes, e isso torna suas histórias ainda mais persuasivas.

Tradicionalmente, quando Hollywood faz um filme LGBT, é uma história sobre alguém que sai do armário ou que enfrenta os preconceitos da sociedade; esses são os elementos mais obviamente característicos da experiência queer. Os outros filmes deste ano sobre homossexuais todos satisfazem esse pré requisito: Com Amor, Simon (um adolescente aceita sua sexualidade), Desobediência (uma judia ex-ortodoxa retorna à comunidade que condena sua sexualidade), O Mau Exemplo de Cameron Post (os pais de uma adolescente a mandam fazer terapia de "cura gay"), Boy Erased: Uma Verdade Anulada (os pais de um adolescente o mandam fazer terapia de cura gay).

Essas ideias são mais ou menos fáceis de ser concebidas, ou, pelo menos, são ideias com as quais já nos sentimos à vontade. Esses filmes deixam claro quando precisamos nos chocar e quanto devemos chorar, e todos que os assistem podem se parabenizar por sentirem as emoções corretas.

Além disso, a sexualidade dos personagens define as campanhas de marketing dos filmes, justificando sua importante descrição como Filme Gay, algo que leva a slogans um pouco banais tipo "todo o mundo merece uma grande história de amor" ou "a verdade não se cura". Quando a pessoa compra o ingresso para o cinema ou clica no botão "alugar", ela essencialmente já assinalou que concorda com a mensagem do filme.

Mas A Favorita, Poderia me Perdoar e – em menor grau – Green Book não se prestam a tais manipulações. Esses filmes apresentam seus protagonistas não como outsiders gays ou formadores de tendências em Hollywood, mas como seres humanos comuns que vivem suas vidas com misturas idiossincráticas de vitórias e lutas. É claro que, como os materiais promocionais desses filmes omitem quase qualquer alusão ao tema homossexual, eles correm o risco de empurrar os filmes para dentro do armário, como opinou o autor de um texto recente. Mas acho que há algo menos insidioso em ação aqui. No caso destes títulos, a condição queer é um ecossistema complexo, e não um distintivo indicando que os protagonistas são progressistas.

O filme mais surpreendente desses três é A Favorita. Sátira mais recente do diretor cômico grego Yorgos Lanthimos, que ironizou a estrutura da família nuclear em Dentes Caninos e a vida de casal em A Lagosta, A Favorita introduz uma estrutura sáfica exatamente quando estamos começando a curtir o retrato irônico de uma monarca mal preparada para seu papel e seus súditos envolvidos em eternas disputas. Ou seja, exatamente quando menos o estamos esperando.

Mergulhada numa guerra controversa com a França, a rainha Ana da Grã-Bretanha (Olivia Colman) tem uma amizade estreita com Sarah Churchill (Rachel Weisz), esposa de um oficial militar de alto escalão; Sarah é sua conselheira para questões de aparência, comportamento e assuntos relativos ao Parlamento. Sarah conduz Ana a tomar uma decisão sobre aumentar ou não os impostos para poder continuar a guerra, e nós, os espectadores, questionamos qual das duas, Sarah ou Ana, está exercendo o poder de fato. Sabemos que as duas são muito amigas, já que o filme começa com Ana dando um castelo de presente a Sarah, mas não fazemos ideia de como essa amizade é íntima.

É uma parceria interessante, se bem que de outras maneiras ordinária – até que a criada Abigail (Emma Stone) observa Ana e Sarah rindo juntas no palácio, tarde da noite. Como se não bastasse isso para jogar por terra suas ideias sobre o comportamento austero que se espera de uma rainha, o que acontece a seguir pega a todos de surpresa completa (especialmente as pessoas que não sabiam das especulações sobre a sexualidade da rainha Ana da vida real). Numa câmara semi-escura onde Abigail se esconde com apenas uma vela para iluminar seu caminho, ela vê Sarah se aproximar de Ana e lhe tascar um beijo. Não é um beijo delicado ou hesitante, com em um namoro ainda em fase inicial, nem é um gesto de algum tipo de estratégia política. Não – é um beijo compartilhado por duas pessoas que adoram beijar e que é seguido pela rainha dando uma ordem à sua amante: "Transe comigo".

O armário não desapareceu deste subtexto, mas, em uma subversão inteligente, A Favorita dispensa qualquer saída do armário à moda convencional. Desse ponto em diante, o filme vira supergay, mas mesmo assim não é um filme sobre ser gay, pelo menos não no sentido típico de Hollywood. Uma vez ciente dos desejos carnais de sua chefe, Abigail identifica a sedução como uma maneira de conquistar um lugar ao lado da rainha. Com isso, ela e Sarah passam a competir pelo primeiro lugar no afeto de Ana. À primeira vista, parece que estão tentando atrair o interesse erótico dela, especialmente Abigail, que está louca para escapar da condição de criada. Dentro dessa luta pelo poder, entretanto, se esconde um retrato comovente de uma mulher cujos envolvimentos românticos a ajudam a superar o tédio da vida na nobreza e as desilusões da vida (incluindo 17 abortos espontâneos, sendo cada bebê perdido representado por um coelhinho de estimação).

Ana é, em primeiro lugar, uma mulher consciente de sua imagem e que não tem certeza de como liderar um reino devastado por guerras, mas que faz questão de curtir os prazeres possibilitados por sua posição privilegiada. O fato de ela ser gay (ou possivelmente bissexual) influi sobre os acontecimentos, mas não dita sua narrativa inteira.

A mesma coisa pode ser dita de Lee Israel, a biógrafa ao centro da linda comédia dramática ambientada nos anos 1990. Poderia me Perdoar?, dirigida por Marielle Heller (O Diário de uma Adolescente), com roteiro de Nicole Holofcener (À Procura do Amor) e Jeff Whitty (Avenue Q) é baseado numa história verídica. Lee nos é apresentada como uma escritora que fez sucesso no passado e cuja agente literária (Jane Curtin) não quer mais retornar suas ligações nem aprovar suas propostas de livros estranhos. Lee está passando por dificuldades econômicas, não está conseguindo pagar seu aluguel nem as contas do veterinário de sua gata. Sendo uma pessoa solitária e de língua afiada, ela nunca contou com uma grande rede de amigos para lhe dar apoio. Essa carência é suprida em certa medida quando um conhecido seu (Richard E. Grant), pequeno criminoso dotado de senso de humor semelhante ao dela, se senta ao lado dela numa happy hour. Apenas então, pela conversa deles, ficamos sabendo que Lee é lésbica.

Sua condição gay nos revela muito sobre como Lee se sustenta. Não é preciso ler um estudo sociológico para saber que os párias tendem a sofrer de solidão; isso pode explicar por que Lee tem dificuldade em se aproximar das pessoas e por que evita namoros. Esse fato forma o pano de fundo de sua vida, mas outros elementos que fazem parte de tudo isso são seu interesse por artistas vintage e sua aversão à elite literária glamorosa. "Poderia me Perdoar?" junta todos os ingredientes em um grande caldeirão e mexe tudo, criando uma pessoa que não pode ser reduzida a um único atributo. A performance fabulosa de Melissa McCarthy também ajuda, é claro.

Quando Lee começa a falsificar cartas entre autores famosos para ganhar dinheiro, nós nos sentimos vitoriosos com seus crimes, porque esses crimes são uma vitória para uma pessoa que precisa disso. Afinal, as pessoas solitárias e que se sustentam com seus próprios meios muitas vezes são injustamente menosprezadas. Ao mesmo tempo, o filme é generoso: ele não conduz o espectador a uma empatia recomendada. Permite que encaremos Lee com ambiguidade; Afinal, não é fácil conviver com ela, com seu temperamento irascível. Em outras palavras, o filme a mostra como uma personagem de verdade, e não um simples símbolo dentro do diálogo cultural acalorado sobre a representação de minorias em Hollywood. Como a rainha Ana e suas pretendentes concorrentes, a sexualidade de Lee colore quem ela é, sem precisar ser proclamada em voz alta. Isso torna ainda mais significativo sua solidariedade com o beberrão representado por Grant, um sujeito gay, sem teto e altamente charmoso.

Quando comparado a Poderia me Perdoar? e A Favorita, Green Book – O Guia é um pouco mais complexo. Também baseado numa história verídica, o filme de Peter Farrelly, que agradou às plateias, acompanha o segurança machão de uma boate de Nova York (Viggo Mortensen) que aceita um trabalho de dois meses como motorista do elegante pianista de jazz negro Don Shirley, conduzindo-o em sua turnê de 1962 pelo Sul profundo dos EUA, onde impera a segregação racial. Ficamos sabendo imediatamente que Don está acostumado a tocar para plateias formadas por pessoas brancas ricas que não lhe deixam usar seus banheiros. Mas é apenas bem mais para frente no filme que descobrimos que ele também costuma frequentar saunas gays. Tirando seu cafetã com bordas douradas, não há nenhum indício das preferências sexuais de Don – até que a polícia o flagra com outro homem numa sauna na Geórgia.

O filme não mergulha muito mais fundo no íntimo gay de Don, fato que não chega a surpreender: seu retrato do racismo da metade do século passado parte de uma visão branca simples, de modo que é claro que as pessoas héteros que fizeram o filme tampouco sabem muito o que dizer sobre homossexualidade. Mas pelo menos não reduzem a vida privada de Don a chavões sobre tolerância. Uma versão diferente do filme poderia ter convertido o encontro sexual na sauna em um incidente mais chamativo; Em vez disso, o caso não passa de um detalhe secundário.

Não discordarei de quem acusar Farrelly, conhecido por comédias escrachadas como Debi & Lóide e Quem vai ficar com Mary?, de pecar por excesso de discrição. Mesmo assim, há algo de honroso no modo como Green Book trata esse incidente como mero capítulo na vida de um homem membro de uma minoria que está mais que acostumada a enfrentar adversidades. Sim, o filme exige nossa compaixão, quando um salvador branco, na figura do segurança-chofer, é chamado para tirar Don da sauna. Mas o que acontece a seguir é tão pragmático quanto o próprio Don, recusando-se a fazer grande alarde do fato de ele ter trepado com um homem. Por mais que seu retrato de problemas raciais possa ser caracterizado por clichês, Green Book lida com a sexualidade de Don com mão leve.

Esta década nos trouxe filmes gays exemplares – Toda Forma de Amor, O Amor é Estranho, Weekend, Pariah, Carol, Moonlight – Sob a Luz do Luar, 120 Batimentos por Minuto, Me Chame Pelo Seu Nome, Reino de Deus, Spa Night. Mas a maioria desses filmes trata da saída do armário (ou da impossibilidade de sair do armário) e como o mundo reage a isso. Alguns dos filmes têm final feliz, outros, não. De uma maneira ou outra, os protagonistas se posicionam contra a cultura mainstream que lutam para desafiar, e sua saga muitas vezes começa e termina nisso.

É fácil entender por quê. As pessoas gays passam a vida inteira saindo do armário, inúmeras vezes, de modos grandes ou pequenos, e torcendo para ninguém se chocar. E, sem muitos precursores na história do cinema, é claro que os diretores se interessam em explorar esse tema. Quando um grande estúdio proporciona aos teens de hoje sua versão própria de uma comédia romântica de John Hugues, na forma de Com Amor, Simon, isso é sob muitos aspectos uma dádiva. Mas essas histórias têm suas limitações. Mesmo quando são altamente cheia de nuances, muitas vezes tratam exclusivamente das dificuldades da auto-aceitação.

Mesmo quando esses filmes terminam em clima esperançoso, como é o caso de Carol e Moonlight, questionamos até que ponto os personagens se sentem bem na própria pele, se conseguirão aceitar-se plenamente. Há algo de muito comovente nesse conflito íntimo, mas é agradável, até certo ponto, assistir a histórias que encaram a condição gay como mais do que uma longa trajetória em busca do contentamento. Ou seja, é bom que possamos ver narrativas gays que envolvem algo mais que o primeiro amor ou uma aula para héteros sobre o que é ser gay – mesmo que esse algo não seja exposto em cartazes e trailers.

Os finais de A Favorita, Poderia me Perdoar? e Green Book não fogem da melancolia. Mas, assim como os filmes não anunciaram a sexualidade de seus personagens desde o início, não fazem dela sua preocupação final. Os filmes tratam de lutas pelo poder, reveses profissionais e ambições pessoais. Por acaso, também são lindamente e declaradamente gays. É um passo no sentido de contar histórias que não sejam arraigadas na política de identidade.

A troica de filmes queers deste final de ano – caso você não tenha percebido, estou excluindo por completo o equivocado Bohemian Rhapsody – são reveladores sem precisarem carregar a marca registrada de um "filme gay importante". E é exatamente por isso que são importantes.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.