31/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 05/02/2019 14:59 -02

Quando a ancestralidade está ao redor: A arte de Monique Santos

Artista visual criou empresa em 2018 para levar estética africana para dentro de casa.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Monique Santos é a 299ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Quem entra no ateliê de Monique Santos, 31, não tem como deixar de se encantar pelas cores e formas que tomam o local. Uma profusão de peças, madeiras e retalhos também compõem o coração da Ayò Moda Casa e Design, empresa que firmou o pé em 2018 e se tornou referência em artigos de decoração com capulanas (os chamados os tecidos africanos). Fotógrafa, designer e artista visual, Monique reconhece a sorte da prosperidade em curto espaço de tempo, mas detalha o processo de descobrir-se empreendedora enquanto mulher negra no Brasil de 2018.

Ela conta em entrevista ao HuffPost Brasil que percebeu que o empreendedorismo era o caminho quando viu que o mercado formal de empregos para a sua área não era justo. “Você tem uma concentração de grana pros idealizadores e chefes e pouca grana para a galera que faz acontecer. É sempre muito desnivelado, então me vi num mercado que o retorno financeiro era escasso e a responsabilidade era enorme”, explica. E acrescenta que o desnível se torna mais explícito quando se é mulher e negra.

Você tem uma concentração de grana pros idealizadores e chefes e pouca grana para a galera que faz acontecer.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Me vi num mercado que o retorno financeiro era escasso e a responsabilidade era enorme."

Diante desta realidade, ela decidiu que seria sua própria patroa. Abandonou os empregos formais, mas ainda sem saber qual seria a área, mas tendo a certeza de que trabalharia com as capulanas. Os caminhos dela e do tecido se encontraram em uma viagem à França, país de seu marido, há cerca de quatro anos. Os tecidos foram usados na decoração da festa de casamento, que celebrou a união das duas culturas. O que restou, inspirou a empresária a fazer seu primeiro objeto de decoração: uma cortina. Em dois meses, Monique fez cursos, estudou, planejou a marca e lançou-se na primeira feira de empreendedorismo. Com 25 almofadas e três luminárias, ela terminou o evento somente com seis peças. "Cheguei lá com medo de não vender nada, porque era um produto novo. Quando vendi quase tudo, eu percebi que era isso que eu tinha que fazer", afirma Monique.

A partir disso, a Ayo não parou. Monique faz questão de manter cores vívidas e estampas bonitas no seu arsenal de produtos. Com firmeza e muita determinação, explica porque a sua marca é como é. "A gente bebe de muitas culturas, mas esquece que o Brasil é cercado de cores, formas e coloridos. Acho que agora começamos a ver um retorno da cor, mas a gente havia absorvido uma cultura da decoração do monocromático, do não-cor, mas a gente não é isso. A gente tem sol, mar, montanha, que já é uma grande cartela de cores. Isso faz parte da nossa essência", analisa a empresária.

Quando vendi quase tudo, eu percebi que era isso que eu tinha que fazer.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Quem entra no ateliê não tem como deixar de se encantar pelas cores.

A capulana é um tecido exportado do continente africano. Roupas e acessórios são os principais itens, mas decoração é um nicho novo. Uma das primeiras clientes de Monique deu a dimensão da importância da Ayo. "Uma mulher falou comigo que era uma coisa nova, porque ninguém havia feito isso. E ela falou que a gente precisava retomar a cor ancestral para dentro da nossa casa, e eu vejo que meu trabalho tem essa força", relembra.

A força e a importância de seus produtos, complementa, têm poder na educação das pessoas sobre entendimento de conforto e auto-cuidado. "É uma construção educativa, você levar as cores e ver que a sua casa precisa ser bonita para você. Fazer o exercício de entender que sua casa pode ser elegante e colorida. A gente quebra essa ideia com educação, entender que ter uma casa bonita não é ter muito dinheiro. Meu produto instiga isso, porque está perto da estética ancestral, da força e da representatividade da capulana, mas também próximo da elegância, do chique", avalia Monique.

É uma construção educativa, você levar as cores e ver que a sua casa precisa ser bonita para você.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Roupas e acessórios são os principais itens feitos com a capulana, mas decoração é um nicho novo.

O sucesso da Ayo se deve muito ao trabalho extensivo de Monique e sua equipe, mas as estratégias de marketing da empresária não foram aprendidas em uma universidade. "Eu não fiz curso de marketing, nada disso, mas eu acho que a gente [mulher negra] herdou uma sabedoria. Eu sinto que tenho uma sabedoria ancestral para lidar com o público, com marketing e se adaptar aos novos conceitos de marketing. Uma amiga perguntou como eu sei tudo isso, e a minha resposta é: ancestralidade. Isso vem das escravizadas de ganho, que ganhavam sua vida vendendo coisas para terem alforria. Elas eram especialistas em vendas."

Mãe de um pequeno menino de dois anos, Monique também afirma a importância da maternidade no seu projeto de construção como empreendedora. "A maternidade me mudou, e eu acho que tive coragem de ser empreendedora por isso. Sem a maternidade eu não teria coragem. Acho que depois de me tornar mãe, me tornei também mais corajosa. Se eu não tivesse ele, talvez eu ficaria mais acomodada", conta Monique, com amor que transborda na voz e no brilho dos olhos.

Acho que depois de me tornar mãe, me tornei também mais corajosa.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil

O caminho da Ayo mudou de endereço no próximo ano. Com mudança marcada para a França, Monique e a família vão estabelecer a Ayo em solo europeu, ciente dos desafios. "Os resultados das eleições me assustaram muito. A vida também está cara, e acho que se a gente tem a oportunidade, vai para ver qual é. Não sou a pessoa que acha que vai ser lindo, maravilhoso. Lá também tem racismo, e eu estou carregada de vários estereótipos, sei que não vai ser fácil", analisa a artista.

De qualquer forma, o que importa é o trabalho da Ayo não parar. No Brasil ou na França, a dedicação de Monique não vai diminuir nem um pouco. A avaliação até agora? Positiva, principalmente ao ver que é possível decorar ambientes com contexto e preço acessível. "Eu fico feliz de atender não só quem tem grana, mas também quem não tem, e perceber que é uma elegância para todos", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.