29/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 30/12/2018 09:28 -02

Shirley, Sandra e Sheila: As donas da veia empreendedora que vem de berço

Irmãs comandam a "Makeda Cosméticos" após terem aprendido o ofício de cabeleireira com a mãe, Sandra.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Shirley, Sandra e Sheila são as entrevistadas da 297ª história do

Sabem bem como tudo começou. Foi com dona Sandra, 67 anos. Na verdade, foi até antes dela. Receberam uma grande herança. A mãe, a avó e a bisavó, todas com a mesma disposição e cheias de talentos. Shirley, 44 anos e Sheila, 41 anos, puderam observar isso durante anos. Fora o que vem no sangue. Algo que não tem como controlar – e negar. "O empreendedorismo está na família, acho que os negros têm isso de pensar em como vão se virar e você nem percebe e quando vê já está fazendo e são tantas opções de coisas para fazer, são tantos dons. A gente não tem herança financeira, mas a herança do que passaram para as nossas mãos, de dom, não tem preço. Sei que vou me virar em qualquer lugar do mundo e isso não tem como medir", explica Sheila.

Hoje, Sheila e Shirley comandam a Makeda Cosméticos, marca de produtos próprios focada nos cuidados com cabelos crespos e cacheados. E já deixam claro. Tudo tem a ver com a mãe. Foi ela quem criou as duas sozinha, que passou um de seus dons – que virou ofício das filhas –, é ela quem sempre apoia os planos das duas e até hoje ainda é a grande mentora do negócio. Em 2017, conseguiram abrir uma loja em um shopping no centro da capital paulista e em 2019 pretendem expandir os negócios. Estão confiantes – e tem todos os motivos e a coragem para isso.

A gente não tem herança financeira, mas a herança do que passaram para as nossas mãos, de dom, não tem preço. Sei que vou me virar em qualquer lugar e isso não tem como medir.Sheila

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Sheila é uma das sócias da "Makeda Cosméticos".

E, como já foi dito, começou com a dona Sandra. Nascida em Minas Gerais, chegou em São Paulo com 18 anos e foi trabalhar com costura no Bom Retiro. Lá, aprendeu um de seus ofícios. No seu horário de almoço, se dedicava a conhecer melhor a profissão. Mais tarde, quando casou, acabou abandonando o serviço fora de casa. "O ex-marido era o tipo machão, aquela coisa de 'mulher minha não trabalha', mas eu tentava e fiz vários cursos de cozinheira, quituteira, cabeleireira. Sou costureira, cabeleireira, boleira, todos os 'eiras'. Depois que me casei fiz algumas coisas, mas era muito implicância e parei".

Mas as coisas mudaram. Após uma separação conturbada, viu-se sozinha com as duas filhas ainda pré-adolescentes. Nessa época começou a trabalhar como faxineira em uma empresa e apesar do baixo salário ela conseguiu um local para morar na própria empresa. Complementava a renda com tudo que podia. "Vendia bolo, fazia sapatos de crochê, cachorro quente, tudo junto com a faxina. Fazia reforma de roupa, barra, eu não parava, sempre inventava alguma coisa. As duas estudavam e ajudavam". Shirley lembra bem que acompanhavam a mãe durante as vendas. "Foi assim que aprendemos a empreender, de novinha. A gente sempre junto de nossa mãe".

E dona Sandra colocava todos os dons a prova até que teve uma chance de resgatar uma de suas habilidades mais antigas: a de cabeleireira. Viu um anúncio para aprender a fazer permanente afro. "Fiz inscrição. Ia ser um curso de três dias. Ganhei um kit para desenvolver o permanente, mas não tinha onde trabalhar".

Vendia bolo, fazia sapatos de crochê, cachorro quente, tudo junto com a faxina. Fazia reforma de roupa, barra, eu não parava, sempre inventava alguma coisa. As duas estudavam e ajudavam.Sandra

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, Sheila e Shirley, filhas de Sandra (foto acima) comandam a Makeda Cosméticos, marca de produtos focada nos cuidados com cabelos crespos e cacheados.

No bairro em que moravam, de maioria branca, não havia interesse dos salões de beleza em ter esse serviço e foi quando dona Sandra começou a encarar longas viagens e ia para qualquer bairro que tivesse demanda para atender clientes até que foi chamada para trabalhar na empresa que ofereceu o curso de técnica que havia feito. O grande diferencial é que as filhas também foram contratadas. "Ela contratou nós duas também, uma como jovem aprendiz e a outra como auxiliar de tudo e depois me tornei cabeleireira lá e minha mãe era técnica capilar", lembra Shirley.

Com a saída dessa empresa do Brasil, as três se uniram e conseguiram abrir um espaço próprio, na zona leste. Era o primeiro salão de beleza da família que funcionou por mais de dez anos. Após diversas dificuldades, elas tiveram que fechar e cada uma acabou seguindo seu próprio caminho – por um tempo. "A Sheila foi fazer teatro, eu fui atender em domicílio e minha mãe parou e foi nessa época que minha irmã começou a assumir o cabelo original. Isso foi em 2006". Elas lembram que ainda não era muito comum assumir o cabelo natural e fazer a transição capilar. "O teatro foi o que me levou para esse autoconhecimento e fui buscar estudar minhas raízes e minhas origens e comecei a gostar de mim porque me achava feia e tinha um problema principalmente com o cabelo, fazia qualquer coisa para tirar o cabelo original e cortei. Ainda era pouco aceito e eu continuei ali na resistência e comecei a fazer tratamentos".

Era muito difícil e minha irmã ouviu vários nãos. Ela era muito jovem, negra e muita gente não botava fé, mas insistimos.Shirley

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Shirley é uma das sócias da "Makeda Cosméticos".

Com os conhecimentos e experiência que tinham, começaram a fazer produtos naturais e ofereciam para as clientes a domicilio de Shirley - que tinha experiência em desenvolvimento de produtos -, que começaram a gostar da coisa. Foi quando perceberam que tinham ali uma oportunidade. Sempre carentes de produtos específicos para cabelos crespos e cacheados, decidiram elas mesmas irem atrás de sua linha. "Era muito difícil porque nas fábricas achavam a quantidade que queríamos muito pequena e minha irmã ouviu vários nãos. Ela era muito jovem, negra e muita gente não botava fé, mas insistimos. Eu tinha alguns contatos e ela chegou a fábrica em que a diretora era negra e quis dar uma oportunidade", explica Shirley. E assim elas conseguiram lançar os dois primeiros produtos. "A dona da fábrica falou que eu era uma rainha e eu ia poder ajudar outras rainhas a gostar do cabelo. E deu apoio. Foram 100 potes de cada, era absurdo de pouco", lembra Sheila.

Nascia a Makeda. O nome é uma referência a uma deusa africana da Etiópia. Elas acreditam que tem dado sorte nesses anos todos porque as coisas foram dando certo. Em 2012, as duas abriram um pequeno salão em uma salinha só com um espelho e uma cadeira. Atendiam suas clientes e usavam os produtos que haviam criado e cada vez mais mulheres começaram a fazer a transição capilar e a deixar o cabelo natural. Foi ótimo para a autoestima de todas – e também para os negócios. "Foi aumentando o interesse e mesmo quem tinha química queria tratar com a gente e elas davam o retorno sobre os produtos e fomos criando coisas novas. Hoje são 17 produtos", comemora Shirley.

As empresas descobriram que somos 54% da população e que vende, que a gente compra e aí a indústria se interessou. Mas a gente chegou antes. Conseguimos nosso espaço, mas queremos mais.Sheila

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O nome é uma referência a uma deusa africana da Etiópia. Elas acreditam que tem dado sorte nesses anos todos porque as coisas foram dando certo.

Até 2016 as duas continuaram nesse pequeno salão, ainda na zona leste, até que conseguiram incentivos para afroempreendedores e chegaram ao shopping. Negociaram para entrar como uma loja de teste – que duraria por um mês – e estão lá até hoje. Venceram muitos preconceitos e dificuldades. "No começo, nas feiras de cosmetologia que íamos, nunca achavam que tínhamos a nossa própria empresa e não tinha esse conceito do cabelo original. Hoje todas as empresas querem e estão preocupadas com cabelo original e sabem que o mercado está pedindo", diz Shirley.

Sheila concorda que esse crescimento de mercado ajudou a marca a crescer, mas não foi só isso que fortaleceu a marca. "As empresas descobriram que somos 54% da população e que vende, que a gente compra e aí a indústria se interessou. Mas a gente chegou antes. Conseguimos nosso espaço, mas queremos mais. Não temos o recurso da grande indústria, mas a gente percebe que quem usa desde o começo não deixa de usar". Assim, estão animadas para os próximos passos. Shirley pretende fazer faculdade de química e somar isso a sua experiência de anos em desenvolvimento de produto. Fora isso, elas estão com projetos para ter revendedoras Makeda e querem vender para alguns salões de beleza e perfumarias, fazendo o produto chegar mais facilmente a quem tem interesse. Sonham também em começar a exportar, já conscientes da possibilidade de mercado fora do Brasil.

Sempre que elas me perguntam o que eu achava eu dizia: 'vá em frente'. Sobre preconceito eu nunca deixei a bola cair.Sandra

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Em 2017, conseguiram abrir uma loja em um shopping no centro da capital paulista e em 2019 pretendem expandir os negócios.

E assim seguem o caminho que escolheram. Podem não ter os grandes recursos da grande indústria, mas sabem bem o que têm. "Sempre que elas me perguntam o que eu achava eu dizia: 'vá em frente'. Sobre preconceito eu nunca deixei a bola cair, Deus deixou aqui para todo mundo, não importa se é branco, preto, amarelo, azul. Então vamos lá", ensina Sandra.

Sheila reconhece essa força. "A coragem vem da minha mãe e era essa coisa de se não der certo...". Enquanto pensa na melhor palavra para completar a resposta, a matriarca já arremata, com tranquilidade e o elegante sorriso que tem: "Começa de novo, né?"

É isso. Estão sempre prontas para começar.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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