28/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 28/12/2018 00:00 -02

Andréa Bak, o nome que dá força à nova geração do rap feminino

Aos 18 anos, Bak já recitou para a ativista Malala Yousafzai e desponta como uma das novas referências no gênero.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Andréa Bak é a 296ª entrevistada do

Quem conhece Andréa, ou Déa, não imagina que a menina de sorriso tímido, voz baixa e poucas palavras vira um furacão quando é Andréa Bak. A expressão facial enrijece e os versos saem em disparada, em alto e bom som, para contar histórias e recitar suas poesias. Aos 18 anos, a poeta já ganhou notoriedade por recitar nas ruas e espaços culturais do Rio de Janeiro versos que contam a história do povo negro sob uma perspectiva de fortalecimento, de exaltação e de empoderamento. Integrante do Slam das Minas e do grupo de rap Nefertaris Vandal, a pouca idade nunca foi empecilho para ela seguir a carreira artística, e muito menos para se tornar destaque na cena.

Quando a gente conhece a nossa história, a gente sabe traçar nosso futuro.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Neste ano, a poeta recitou para a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, conhecida mundialmente por apoiar projetos relacionados ao empoderamento de meninas.

Como diz seu poema de slam que mais viralizou nas redes sociais: Andréa é estudante, aprovada em segundo lugar no Instituto Federal do Rio de Janeiro. Cursando o ensino técnico em química, além de poeta ela também pretende, futuramente, ser médica. E foram nos corredores dos colégios pelos quais passou que ela descobriu a si mesma como artista. "Eu sempre escrevi, desde criança, mas há cerca de dois anos conheci a militância do movimento negro e do movimento estudantil, e comecei a me engajar em atos, participar de muitos eventos nesse sentido. Em 2017, fui encorajada pelas aulas de literatura a conhecer poetas novos, e a fazer poesia também", relembra.

E foi caminho sem volta. Um dia, na sala de casa, prestou atenção em um documentário que relatava o período escravocrata, mas numa perspectiva diferente. O desejo de voltar a escrever poesia e de relatar com suas próprias palavras a história do povo negro resultou na sua primeira poesia, que destaca o empoderamento. O poema passeia pelas críticas ao sistema de cotas raciais, pela "cidade partida" entre pobres e ricos e termina contando a história de André Rebouças, o xará engenheiro e abolicionista do século 19.

Exaltar a história de figuras como Rebouças, explica Andréa, é fundamental para a construção de identidades de crianças e jovens negros. "Todo mundo já passou pela escola, e a história é sempre a mesma. Se você não se reconhecer em nenhuma história ensinada ali, somente como descendente de escravizados, terá qual perspectiva? Para uma criança, é importante ver que descende também de uma cultura, de um povo. Faz a gente crescer de outra forma", analisa.

Se você aprender que é somente descendente de escravizado, terá qual perspectiva?

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A visão de mundo de Andréa, que transparece em seus escritos, faz com que ela alcance patamares cada vez mais alto.

A riqueza do vocabulário, comum entre bons poetas e MCs, é explicada pelo hábito de leitura que Andréa mantém desde muito nova. Um dos seus próximos passos é passar "para o lado de lá", e escrever ela mesmo um livro, contando principalmente a história de sua família. A cabeça que não para de pensar por um minuto também pretende criar um projeto relacionado a literatura e música para as crianças da Praça Onze, região em que nasceu e foi criada.

"É para eles crescerem sabendo quem, porque se perder aqui é muito fácil. Eu já perdi dois amigos este ano para questões relacionadas ao tráfico. Por isso eu quero trazer cultura para eles, sabe? Já que tem essa ausência do governo aqui na área", contextualiza a poeta. E completa: "Quando a gente conhece a nossa história, a gente sabe traçar nosso futuro. E se a gente não conhece a nossa história, a gente vai ser silenciado ainda mais facilmente".

A visão de mundo de Andréa, que transparece em seus escritos, faz com que ela alcance patamares cada vez mais alto. Neste ano, a poeta recitou para a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, conhecida mundialmente por apoiar projetos relacionados ao empoderamento de meninas, mas não define o momento como o ápice de sua carreira. "Foi maneiro, ela é importante, é um símbolo. Parece meio estranho, mas tudo que eu faço, acho gigante", explica.

É legal ver que só com palavras a gente consegue fazer pessoas se libertarem de coisas ruins.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Um dos seus próximos é passar "para o lado de lá", e escrever ela mesmo um livro, contando principalmente a história de sua família.

E é: seus vídeos e poemas alcançam pessoas de diferentes cantos do País. Professores pedem autorização para usá-los em sala de aula, e quando as colegas do Slam das Minas viajam sem Andréa, voltam com o recado de que ela se fez presente quando um admirador a procurou. Tanto reconhecimento pelo seu trabalho ainda não ajuda Andréa a ter dimensão do poder de suas palavras. "Ao mesmo tempo em que eu reconheço que alcancei várias pessoas, eu não sei direito ainda como é isso de ser uma referência. Não sei se me vejo como referência", pondera com cautela.

Referências ela acumula várias, como a também poeta Gênesis. E é ao falar de um verso da colega de rima que Andréa, tão serena, se emociona. Ela relembra dos momentos em que ao ver Gênesis recitar sobre violência doméstica viu mulheres sendo libertas, chorando e reconhecendo suas dores. Questionada pelo motivo das lágrimas, explica: "É legal ver que só com palavras a gente consegue fazer pessoas se libertarem de coisas ruins".

Mulheres como Andréa, Gênesis e outras que vêm mostrando a força dos escritos femininos são parte importante da construção de identidade de outras mulheres. Bak reconhece isto, e enxerga as intervenções poéticas, nas ruas e praças da cidade, como fundamentais nesse processo. "Se as ações artísticas alternativas não começassem, eu nunca me descobriria como artista. Muitas mulheres não teriam se conhecido, se empoderado de diversas formas, não teriam um espaço para poder falar, para poder gritar", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.