ENTRETENIMENTO
26/12/2018 13:47 -02 | Atualizado 26/12/2018 13:57 -02

Há 30 anos, Kevin Spacey interpretava um assediador no filme 'Uma Secretária de Futuro'

No aniversário de 30 anos de 'Uma Secretária de Futuro', vale a pena lembrar dos temas #MeToo do filme – e do abusador que interpretou um abusador antes de ficar famoso.

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Kevin Spacey fez o papel de um cara sinistro na comédia romântica “Uma Secretária de Futuro”.

Décadas antes de Kevin Spacey ser acusado de assédio sexual e ataques sexuais por mais de 15 homens, ele fez o papel de um cara que assediou mulheres no trabalho. Será que chamaríamos isso de... ironia? Chocante? Adequado? Todas as opções anteriores?

A comédia romântica Uma Secretária de Futuro fez 30 anos neste mês de dezembro.

O filme é estrelado por Melanie Griffith, no papel de Tess McGill, uma secretária de Staten Island que tem "cabeça para os negócios" e quer ser levada a sério no mundo das finanças. Com a participação de Harrison Ford (no papel de Jack Trainer, um banqueiro especializado em fusões e aquisições que, é claro, conquista o coração da nossa protagonista) e Sigourney Weaver como Katharine Parker (uma megera de quase 30 anos e a única mulher hiper bem sucedida do filme), Secretária é um filme surpreendentemente à frente do seu tempo quando se trata de assédio sexual e suas consequências para as carreiras das mulheres em setores dominados por homens.

O filme começa com uma tomada do skyline de Nova York: a Estátua da Liberdade em primeiro plano. Tess e seu melhor amigo (John Cusack!) estão na embarcação que liga Staten Island a Manhattan, indo para o trabalho, em Wall Street. Tess está comemorando 30 anos. Do momento em que ela entra no escritório frenético – cheio de homens brancos digitando em computadores de 1988 e gritando no telefone fixo -, fica claro que Tess é muito inteligente e pouco apreciada. Ela faz um ótimo trabalho, mas não consegue ser aceita num programa especial que faria sua carreira deslanchar. Os homens com quem ela trabalha (Oliver Platt e James Lally) a menosprezam, a chamam de "Tessie" e até mesmo tentam juntá-la com um colega, "Bob, da arbitragem", sob o pretexto de uma oportunidade de emprego.

Quem é o Bob, um cara nojento que cheira cocaína? Kevin Spacey.

Bob é o que chamaríamos de Parte do Problema. Uma suposta reunião de networking se transforma num rolê de limusine para um hotel. Quando Bob menciona um quarto que ele reservou com o dinheiro da empresa, usa drogas e derrama champanhe em Tess, ela faz uma dança conhecida de muitas mulheres que passam os dias de trabalho cercadas por homens. Ela finge interesse profissional, mas mantém uma distância segura. Mas aí as coisas começam a piorar: Bob tenta beijá-la no lugar onde derramou o champanhe e a faz assistir um filme pornô na TV da limusine. O golpe está claro: Bob não tinha nenhum interesse na carreira de Tess, só queria comê-la. O cérebro dela não tinha valor nenhum para Bob – nem para os outros colegas, aparentemente.

Griffith fala dessa cena em uma depoimento sobre Uma Secretária de Futuro, publicado no Hollywood Reporter, mencionando o papel de Spacey e afirmando que o fato de ele hoje em dia estar envolvido em escândalos é uma "coincidência estranha". (É de se perguntar se o ator já pensou na ligação daquele papel com os casos ocorridos longe das telas.)

"Em Secretária, eu fujo do carro por causa dos avanços [do personagem dele]", disse Griffith. "Existem milhões de mulheres que passaram por isso, e é por esse motivo que tantas amam esse filme e me dizem até hoje como ele mudou suas vidas."

Trinta anos depois, as cenas ainda parecem novas. É claro que houve progressos, ou talvez o assédio seja mais sutil – mais comentários microagressivos, menos filmes pornôs na limusine. Mas até mesmo as millennials que trabalham no setor financeiro seguem relatando casos de comentários sexuais, objetificação e discriminação.

Como disse Oliver Platt ao Hollywood Reporter: "Eu sabia que estava fazendo o papel de um canalha. Eu e Kevin Spacey éramos os canalhas, meio que os caras culpados do #MeToo. Eis o lance triste: esses canalhas eram muito comuns em Wall Street. Eu achei que meu personagem era um tipo raro, mas descobrimos que, pelo contrário, eles são muito comuns."

Comuns demais.

Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.