ENTRETENIMENTO
27/12/2018 00:00 -02

Os 10 melhores filmes brasileiros de 2018

Documentário com linguagem híbrida, drama sobre linchamento virtual, documentário sobre o impeachment... 2018 foi um ano incrível no cinema brasileiro.

Montagem/Divulgação
'Ex-Pajé', 'Aos Teus Olhos' e 'Tinta Bruta' estão na nossa seleção dos 10 melhores filmes brasileiros de 2018.

Listas são sempre polêmicas. Mas não deixam de ser interessantes, já que criam parâmetros de comparação, ressaltam pontos de vista até então desconhecidos e promovem discussões em torno do tema sobre o qual estão debruçadas. Por causa desses pontos positivos que o HuffPost Brasil apresentou a lista de 10 melhores filmes internacionais de 2018 e traz agora o ranking com os 10 melhores filmes brasileiros de 2018.

Devido a um cenário de distribuição restrito e desfavorável para filmes nacionais, os títulos que listamos a seguir não foram campões de bilheterias. No entanto, são obras dramáticas e documentários, diversas com reconhecimento internacional, que mostram o alto nível técnico e de linguagem alcançado pelo cinema brasileiro nos últimos anos — e que segue em constante em constante evolução.

Acompanhe abaixo a nossa lista e nossos argumentos. Na caixa dos comentários, aponte seus preferidos — e diga se achou nosso ranking justo. Ah, não deixe de prestigiar o cinema brasileiro.

10. Tinta Bruta

Sinopse: Pedro (Shico Menegat) é um jovem gay que vive seus dias dentro de um apartamento que divide com a irmã na região central de Porto Alegre. Ele responde a um processo criminal e ganha dinheiro fazendo performances eróticas - marcadas por tintas fluorescentes - transmitidas via webcam. Enquanto tem que lidar com a mudança da irmã para Salvador e a espera do veredito da Justiça, ele encontra Leo (Bruno Fernandes), que está fazendo sucesso com um show parecido com o seu - e que vai mudar o rumo de sua vida.

Por que assistir:Tinta Bruta saiu do Festival do Rio deste ano com os troféus de Melhor Filme, Roteiro, Ator e Ator Coadjuvante. Antes disso, o longa dirigido pelos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio — mesma dupla responsável pelo também premiado Beira-Mar (2016) — conquistou o Teddy, hoje o principal prêmio do cinema LGBT no mundo. Com visual hipnotizante, o filme bota o espectador para refletir sobre LGBTfobia, solidão nas grandes metrópoles e tabus ligados a fetiches sexuais como voyeurismo e exibicionismo.

9. Todas as Canções de Amor

Sinopse: Na década de 1990, Daniel (Julio Andrade) e Clarice (Luiza Mariani) enfrentam o término de um relacionamento de 6 anos. A fim de colocar a história deles em pratos limpos, Clarice decide gravar uma fita cassete com canções. Nos anos 2000, Ana (Marina Ruy Barbosa) e Chico (Bruno Gagliasso), recém-casados, se mudam para o mesmo apartamento e acabam encontrando por acaso a tal fita. A partir daí, as duas histórias de amor se cruzam, mostrando muitas diferenças, mas também sensíveis semelhanças.

Por que assistir: O filme tem trilha sonora organizada por Maria Gadú, que é puro ouro nacional e envolve o espectador desde o primeiro minuto. Se Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa não entregam interpretações inspiradas, a atriz Luiza Mariani rouba a cena no papel de Clarice, uma mulher em constante ponto de ebulição. A cereja do bolo do primeiro longa-metragem da diretora Joana Mariani fica por conta da participação especial de Gilberto Gil cantando Drão. Coisa linda de se ver e rever.

8. O Processo

Sinopse: O filme mostra os bastidores do julgamento que culminou com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016. Para apresentar seu olhar sobre um dos episódios mais agudos da crise política no Brasil, a documentarista Maria Augusta Ramos lançou mão de cerca de 450 horas de material filmado.

Por que assistir: O filme de Maria Augusta Ramos aproxima o espectador de figuras centrais do processo de impeachment de Dilma Rousseff, incluindo os então senadores do PT Lindbergh Farias e Gleisi Hoffman, o advogado de defesa José Eduardo Cardozo e a advogada de acusação, Janaina Paschoal. É um documentário sem uso de entrevistas, marca registrada da documentarista brasiliense, e que ao longo de 130 minutos [acredite, passa rápido] apresenta um novo olhar sobre um episódio extremamente atual, cujas desdobramentos e consequências ainda estamos acompanhando diariamente nos jornais.

7. Ex-Pajé

Sinopse: Perpera é um índio Paiter Suruí que viveu até os 20 anos isolado com sua tribo em uma floresta de Rondônia, no norte do País, local onde se tornou pajé. Após o contato da tribo com os brancos, os conhecimentos e ritos do pajé são tachados de coisas do Diabo. Perpera deixa então e condição de pajé da tribo, mas passa a enfrentar um conflito interno — já que visões dos espíritos da floresta não cessam.

Por que assistir: O documentário mostra de forma singular as consequências do movimento neopentecostal na tribo dos Paiter Suruí. Essa impressão de uma linguagem inédita pode ser creditada à mistura que o diretor fez de registros de flagrantes do dia a dia índios locais com filmagens de cenas protagonizadas pelos próprios índios, baseadas em situações que viveram. O filme também apresenta o índio contemporâneo de forma poética e cheia de simbolismo — bem distante daquela figura segurando o arco e a flecha, que habita o nosso imaginário.

6. Slam: Voz de Levante

Sinopse: A atriz Roberta Estrela D'Alva conduz o espectador por competições de poetry slam – batalhas performáticas de poesias – onde os jogadores rimam poesias de críticas políticas, de injustiças sociais e resistência. Apresentadora de slam experiente e co-diretora do filme, Roberta visita clubes e campeonatos em Nova York e Chicago, nos Estados Unidos, além de Paris, na França, e nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.

Por que assistir: O documentário cumpre seu papel de explicar a origem e a estrutura dos poetry slams ao espectador e mostrar com registros de impacto a evolução desse tipo de performance criativa em diferentes cantos do mundo. O melhor é que o filme vai além. Roberta Estrela D'Alva, responsável pela primeira companhia de teatro hip-hop do Brasil, o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, traz à tona também experiências e histórias que mostram o potencial dos poetry slams como ferramenta de transformação na vida de jovens periféricos.

5. O Animal Cordial

Sinopse: No fim do expediente, um restaurante de classe média em São Paulo é invadido por 2 ladrões armados: Magno (Humberto Carrão) e Nunco (Ariclenes Santos). Eles rendem Inácio (Murilo Benício), o chef aparentemente amistoso, o cozinheiro Djair (Irandhir Santos), a garçonete Sara (Luciana Paes), o casal endinheirado Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado) e Amadeu (Ernani Moraes), um sujeito solitário. Uma escalada de violência ocorre quando Inácio decide agir para defender seu estabelecimento e seus clientes dos assaltantes.

Por que assistir: A estreia de Gabriela Amaral Almeida na direção de um longa-metragem é um poderoso slasher (subgênero de filmes de horror) brasileiro. Prepare-se para ver muito sangue, mas também ótimas atuações do elenco, em especial de Irandhir Santos na figura fluida do cozinheiro Djair. O ritmo crescente e a escalada de violência visualmente impactante também são capazes de surpreender o mais fervoroso amante de filmes de horror. Uma obra peculiar, de quem tem muito potencial para levar o cinema brasileiro ainda mais longe.

4. Aos Teus Olhos

Sinopse: Baseada na peça O Príncipe de Arquimedes (2011), do espanhol Josep Maria Miró, a narrativa é focada em Rubens (Daniel de Oliveira), um professor de natação para crianças, que é acusado de beijar um dos alunos. Querido por todos, Rubens vê o cenário mudar repentinamente assim que a acusação viraliza nas redes sociais.

Por que assistir: Para além de levantar o debate em torno de um questão atual e preocupante, que é o linchamento virtual, Aos Teus Olhos tem pelo menos outro grande trunfo: a ambiguidade que impera em sua estrutura. Do cartaz de divulgação aos diálogos, o espectador se pega em constante desconfiança sobre a culpa ou inocência do protagonista, vivido por um Daniel de Oliveira em uma excelente fase.

3. As Boas Maneiras

Sinopse: Moradora da periferia de São Paulo, Clara (Isabél Zuaa) é contratada por Ana (Marjorie Estiano) para auxiliá-la durante sua gestação e ser babá do futuro bebê. Ana é de uma família rica de Goiás que não fala sobre o pai de seu bebê. A relação entre as duas se estreita no decorrer da gestação ao mesmo tempo que coisas perturbadores passam a acontecer em madrugadas de lua cheia.

Por que assistir: O mito do Lobisomen é trazido para as ruas de São Paulo. Esse já é um ótimo motivo para você assistir à nova empreitada da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas. Um dos filmes mais inventivos da excelente safra de longas de terror e fantasia, As Boas Maneiras também merece ser visto pelo retrato dos contrastes sociais que apresenta, pelo ótimo entrosamento entre as atrizes Isabél Zuaa e Marjorie Estiano e pela qualidade dos efeitos especiais — que, diga-se de passagem, não fica em débito com qualquer blockbuster hollywoodiano.

2. Arábia

Sinopse: André (Murilo Caliari), um garoto de 18 anos, mora perto de uma fábrica em Ouro Preto (MG). Um dia, quando ele saia de casa, vê o corpo de um homem sendo retirado da fábrica. O homem, Cristiano (Aristides de Sousa), acabou de morrer em um acidente de trabalho. André é mandado à casa do trabalhador morto para recolher seus pertences. Chegando lá, ele encontra o diário de Cristiano, no qual o sujeito narra suas aventuras em meio à pobreza e opressão social.

Por que assistir: De maneira ao mesmo tempo incisiva e poética, a estreia de João Dumans e Affonso Uchoa na direção dá voz a uma população de marginalizados que são ignorados por boa parte da sociedade brasileira: andarilhos que pulam de bico em bico pelos rincões do País. Aristides de Sousa dá tamanha verdade a sua interpretação de Cristiano que parece que estamos assistindo a um documentário. Arábia mostra um Brasil profundo de uma forma emocionante sem cair na armadilha do sentimentalismo.

1. Benzinho

Sinopse:Irene (Karine Teles) mora com o marido Klaus (Otávio Müller) e os 4 filhos no interior do Rio de Janeiro. Lá, ela termina os estudos ao mesmo tempo em que se desdobra para complementar a renda de casa com ajuda de sua irmã Sônia (Adriana Esteves) – que enfrenta problemas em seu casamento. Certo dia, o filho mais velho de Irene, Fernando (Konstantinos Sarris), recebe um convite para jogar handebol na Alemanha. Ela tem então poucos dias para assimilar os sentimentos que vieram juntos com notícia da partida de seu benzinho.

Por que assistir: Benzinho esbanja afeto e calor tipicamente brasileiros. Do elenco à trilha sonora, da fotografia aos diálogos, é difícil que uma pessoa de classe média não se identifique com os dramas vividos pelos personagens propostos pelo diretor Gustavo Pizzi. As atrizes Karine Teles e Adriana Esteves brilham como poucas em seus papéis. E o simpático elenco infanto-juvenil, uma parte formado pelos filhos de Karine com ex-marido e diretor do longa, também dão ao filme uma agradável camada de verniz realista. Um filme para ver e sorrir. Para ver e chorar. Para ver e lembrar. Para ver e se identificar.