27/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 27/12/2018 09:04 -02

De trabalhadora rural a cobradora de ônibus: A independência de Maria Bezerra

“Foi aqui [São Paulo] que consegui minhas coisas. Foi como eu criei meus filhos sozinha, fiz um monte de amizade. Amo o que eu faço."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Maria Bezerra é a 294ª entrevistada do

Já esteve em muitas linhas. Começou com a zona norte: Terminal Cachoeirinha, Largo do Paissandu, Casa Verde, Jardim Pedi, Parque Tietê, Freguesia do Ó. Depois migrou para a zona sul e desbravou os caminhos por lá. Hoje, vai todo dia para o Terminal Penha e retorna para o Terminal Parque Dom Pedro. "É uma linha tranquila", explica. Conhece todos esses caminhos. E adora falar sobre eles. Aliás, é isso que mais gosta em seu trabalho. São quase três décadas como cobradora de ônibus e Maria Bezerra, 55 anos, tem orgulho de todo esse trajeto que construiu e, mais do que isso, tem prazer em compartilhar esse conhecimento. "O que eu gosto e amo de paixão no ônibus é dar informação. Às vezes tem uma pessoa totalmente perdida e dar uma informação faz eu me sentir tão útil, parece que eu dei uma grande ajuda para aquela pessoa. Tem gente que fala que eu devia chamar 156 [número de serviço de informação]. Para mim é um privilégio dar uma informação correta para alguém".

O que eu gosto e amo de paixão no ônibus é dar informação. Para mim é um privilégio dar uma informação correta para alguém.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Muito carismática e sorridente, Maria passa pelo terminal cumprimentando todo mundo.

E não é só isso que ela faz. Nesses anos todos que trabalha em ônibus pela cidade, já precisou interferir em brigas de passageiros, acalmar os ânimos – e ficar ela mesma calma em casos de assaltos. Já chegou a receber pedido de casamento e até a ceder seu lugar para que uma passageira que estava com o pé quebrado pudesse sentar. "Ela pegava todo dia comigo e ninguém quis dar o lugar para ela. Eu fui em pé, mas para mim não foi nada. Fiz de coração, ela me agradeceu muito". Diz apenas que só não gosta muito de ficar conversando durante as viagens porque tira muito sua atenção – admite que fala bastante. Isso está claro. "Sou muito extrovertida, brincalhona, falo besteira. Falo mais do que a boca. Sou assim, nasci assim".

Muito carismática e sorridente, Maria passa pelo terminal cumprimentando todo mundo. Recebe umas buzinadas, faz piada, dá risada. Sente-se em casa. E recebe muita coisa em troca desse jeito. "Já ganhei [de passageiro] flores, coisa da Natura, perfume, maquiagem, bolsa, lingerie. A gente faz amizade, às vezes a pessoa não tem dinheiro para pagar a passagem e a gente deixa entrar, tem que ter jogo de cintura para não arrumar encrenca, brigar por nada não compensa".

É claro que nem sempre todo mundo é tão bacana quanto ela. Em todos esses anos há quem não seja muito agradável e depois que o bilhete único passou a ser mais usado, o contato dos passageiros com o cobrador diminui. "Acho que antes as pessoas eram mais respeitosas com a gente do que hoje. Não custa nada dar um bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, obrigada. Isso está sumindo do vocabulário das pessoas. Acho um pouco de desrespeito e quando sobem e não falam nada eu também faço de conta que não vi ninguém. Falam que temos que tratar bem as pessoas e eu acho que a gente tem que tratar com a gente é tratado".

Sou muito extrovertida, brincalhona, falo besteira. Falo mais do que a boca. Sou assim, nasci assim.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela lembra que já chegou a São Paulo com a ideia de ser policial, enfermeira ou cobradora.

A chegada do bilhete único, aliás, não mudou apenas isso. Maria chegou a ficar preocupada com o seu cargo. Com cada vez menos passageiro comprando passagem no ônibus, ela viu o número de cobradores diminuir. Com os filhos mais novos e ainda dependendo muito dela, ficou com medo de perder o emprego. "Na época não tinha casa e com pouco estudo o que eu podia fazer? Porque não tenho medo de trabalhar, limpar banheiro, limpar rua, mas ia ser um salário bem menor. Mas graças a Deus não tiraram os cobradores e estou aqui até hoje".

E trabalhar como cobradora era uma vontade que Maria tinha. Nascida em Jurema, Pernambuco, chegou a São Paulo em 1987. Em sua cidade, trabalhava na roça. Trabalho pesado. Levantava 5h para levar o gado no pasto, ia até o rio buscar água para levar para casa, cortava capim para o gado e a tarde ia para a escola. Conclui o Ensino Fundamental I. Mais para frente, conta que deixou sua cidade para se separar do marido. Na capital paulista, trabalhou em casa de família, depois em um supermercado até que conseguiu, na terceira tentativa, fazer a inscrição para concorrer à vaga de cobradora.

Graças a Deus não tiraram os cobradores e estou aqui até hoje. Com pouco estudo o que eu podia fazer? Não tenho medo de trabalhar, limpar banheiro, limpar rua, mas ia ser um salário bem menor.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Graças a deus não tiraram os cobradores e estou aqui até hoje. Com pouco estudo o que eu podia fazer?"

Ela lembra que já chegou a São Paulo com a ideia de ser policial, enfermeira ou cobradora. Investiu na terceira e após conseguir fazer a inscrição foi informada que havia milhares de pessoas na frente. Esperou sete meses até ser chamada. Valeu a pena. Maria criou os dois filhos – um de 32 e uma de 29 – e deu apoio para os três netos. "Foi aqui que consegui minhas coisas. Foi como eu criei meus dois filhos sozinha, comprei minha casa, fiz um monte de amizade, arrumei dois maridos [risos]. E gosto de trabalhar onde eu trabalho, amo o que eu faço".

Maior do que o amor por sua profissão só o que tem por sua família. Maria fala dos filhos, netos e de sua mãe o tempo inteiro e deixa claro que nesses 27 anos de São Paulo nunca ficou um ano sequer sem ir para a sua cidade visitar os parentes. "Tenho um amor enorme pela minha família. Minha mãezinha está lá em Pernambuco, preciso ir puxar a orelha dela porque ela está fumando. Fui lá em julho e pra mim o mundo só é mundo com família. Quando você tem família, tem tudo".

Acho que antes as pessoas eram mais respeitosas com a gente do que hoje. Não custa nada dar um bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, obrigada. Isso está sumindo do vocabulário das pessoas.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Quando sair a sua aposentadoria - já deu entrada no pedido - é para Pernambuco que ela pretende ir.

Por isso faz questão de sempre guardar um dinheiro para suas viagens. Foram 24 de ônibus e cerca de cinco de avião. Há três anos, inclusive, limpou a poupança e pagou para a família toda. Levou os filhos e os netos para lá. Mas muitas vezes vai sozinha mesmo, porque não abre mão de pisar em sua terra sempre que tem oportunidade. "Se não desse eu ia de jegue, a pé, com dinheiro ou sem dinheiro, mas eu vou. Não tem essa. Faço tudo que eu quero e não vou guardar dinheiro, porque quando eu morrer não vou levar. A casa eu já tenho, então como o que quero comer, compro a roupa que eu quiser, vou para onde eu quero".

E está claro o que Maria quer para os próximos anos. Quando sair a sua aposentadoria – já deu entrada no pedido – é para Pernambuco que ela pretende ir. "Aqui é muito agitado. Eu amo São Paulo porque saio para trabalhar todo dia, estou sempre em movimento, mas quando eu parar acho que São Paulo não vai ser útil mais para mim. Acho que vou querer um pouco de tranquilidade, quero só ouvir o barulho do mar, por isso pretendo ir para lá, meus pais moram lá. Quero ter mais sossego, mais paz".

Quer voltar para sua terra. Vai ser fácil. Maria conhece bem o caminho. Essa é a sua especialidade.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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