26/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 26/12/2018 00:00 -02

Fernanda Daltro, a jovem que acredita na educação como vetor de justiça social

"Nós não temos o poder de fazer justiça social, isso é maior que nós. A solidariedade é apenas um jeito de amenizar isso."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Fernanda Daltro é a 294ª entrevistada do

Fernanda Daltro cresceu na Fazenda Grande do Retiro, bairro periférico de Salvador, e sempre foi movida pela sede de justiça social. "Nós não temos o poder de fazer justiça social, isso é maior que nós. A solidariedade é apenas um jeito de amenizar isso", ressalva.

Aos 19 anos, ela é estudante de Produção Cultural no Teatro Escola Jorge Amado, um projeto que oferece a adolescentes e jovens negros e moradores de periferia cursos gratuitos de teatro, dança, maquiagem, fotografia e produção cultural.

Ela conta que o projeto foi preponderante para que ela tivesse direcionamento profissional ainda tão jovem. "Tenho certeza que se não fosse isso, eu ainda estaria perdida quanto à minha vida profissional. Hoje eu sei que quero continuar na área cultural, é isso que me move", comenta.

A educação e a cultura são a chave para a igualdade.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Fernanda acredita na cultura e na educação como vetores da justiça social.

Além de aluna, ela é também voluntária do Teatro-escola e do Projeto Amigos da Solidariedade, grupo criado por uma professora de Fernanda, que resolveu conglutinar ex-alunos em torno da solidariedade. Todos os meses, eles saem pelas ruas do centro antigo de Salvador e distribuem comida e cobertores a moradores de rua, além de afeto e diálogo. "É muito importante dar o seu tempo a eles, a sua atenção plena", ressalva.

Ela conta que se sente triste com a sensação de impotência. "A gente não consegue fazer justiça social, é uma estrutura maior do que nós. A gente ajuda ali naquele dia, mas e nos outros dias? Quem ajuda essas pessoas?", questiona.

Ela conta que certa vez participou de uma ação durante o natal, e um morador de rua lhe disse algo que jamais esquecerá. "Ele me disse assim: 'a gente sente fome o ano todo. E depois que vocês forem embora, como a gente vai ficar?'. E ele tava certo."

Os mais pobres não sentem fome e frio só no natal.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Além de aluna, ela é também voluntária do Teatro-escola e do Projeto Amigos da Solidariedade.

Apesar disso, ajudar aos outros continua sendo uma escolha gratificante e que rende a Fernanda e seus companheiros de projeto muito aprendizado. "A gente sai da nossa bolha, aprende a reconhecer nossos privilégios. Eu, mesmo mulher preta e periférica, tenho os meus. Eu tenho uma casa, por exemplo", critica.

Fernanda desabafa que a frustração por não conseguir ajuda de empresários ou do poder público também bate. "Tentamos ajuda de gente grande, que tem muito mais do que nós pra doar, mas ninguém se mexe."

Nem sempre é assim, no entanto: o Teatro Jorge Amado, por exemplo, abriu suas portas para o Teatro-Escola e mudou a vida de Fernanda e de outras centenas de jovens negros. "Somos muito gratos pelo apoio do Teatro Jorge Amado", ela diz, e pede que o agradecimento seja incluído na matéria, dada a importância do Teatro para a existência do projeto.

Fernanda acredita na cultura e na educação como vetores da justiça social, e é isso que busca plantar e colher no Teatro-escola. "A cultura mudou radicalmente a minha vida", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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