25/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 25/12/2018 00:00 -02

Beatrice Conceição, a jovem que deseja um Natal com significado para todas as crianças

"Essas crianças não são carentes, elas nos dão muito mais do que recebem – afeto, gratidão, carinho..."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Beatrice Conceição é a 293ª entrevistada do

É dia 22 de dezembro e a engenheira Beatrice Conceição está com um sorriso no rosto e com uma grande cesta de balas na mão, que distribui para as crianças moradoras da Comunidade do Solar do Unhão, no centro de Salvador (BA). Aos 25 anos, ela é voluntária no projeto "Papai Noel da Desordem" desde 2012. O projeto, idealizado pelos grafiteiros do MUSAS – Museu Street Arte Salvador – distribui presentes, comida, cultura e afeto em comunidades soteropolitanas há 12 anos no período do Natal.

Ela conheceu os idealizadores – famosos no grafitti soteropolitano como Prisk, Júlio e Bigode – em uma obra de construção civil em que trabalharam juntos. "Eles me contaram que um dos idealizadores, Prisk, teve uma infância pobre e nunca tinha recebido presente de Natal. Então há 12 anos ele decidiu evitar que algumas centenas de crianças não ficassem sem presente, já que é esse o significado que deram para o Natal. Eu achei aquilo tão bonito, porque eu também não tive natal na infância", conta.

Conhecer esse projeto revolucionou a minha vida.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Aos 25 anos, ela é voluntária no projeto "Papai Noel da Desordem" desde 2012.

E Beatrice faz questão de não ser colocada como uma mulher caridosa. "Essas crianças não são carentes, elas nos dão muito mais do que recebem – afeto, gratidão, carinho". Ela chama atenção para o fato de estar junto de um coletivo em que muita gente trabalha nos bastidores. "São as pessoas invisíveis, que não aparecem muito, mas sem as quais seria impossível fazer o que fazemos nesse período do ano."

Ela diz que as comunidades que recebem o coletivo – eles já chegaram a visitar mais de 10 em um só ano – abraçam o projeto e trabalham juntos para que ele aconteça. "Principalmente as mulheres, as mães das crianças. Elas sempre trabalham muito para que a festa aconteça, fazem as comidas, organizam os presentes. Tenho certeza que se qualquer ano por acaso deixássemos de vir, a comunidade faria a festinha das crianças do mesmo jeito. Eles certamente não precisam de nós", conta.

O saco de presentes – que é o mesmo desde o início do projeto – foi apelidado de "saco mágico" porque nunca fica vazio: moradores, visitantes e voluntários fazem doações de presentes no imenso saco vermelho da Papai Noel desordeiro, "Nunca deixamos uma criança sem presente", comemora Beatrice.

Esse ano as doações diminuíram muito, parece que as pessoas estão menos solidárias.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu também não tive natal na infância."

Ela conta que o trabalho é gratificante, mas que não alcançar certos objetivos pode frustrar. "Uma menina, por exemplo, nos pediu uma boneca negra. Só que bonecas negras são raras e caras, e a gente não pôde comprar esse ano", desabafa. "Uma vez, em uma comunidade, as crianças não ligaram pros presentes. Perguntei a uma delas o que queria ganhar, e ela respondeu que só queria cachorro-quente porque na casa dela não tinha nada pra comer naquele dia. Dói."

Ela conta que as doações em 2018 diminuíram bastante em relação aos outros anos, o que dá a impressão de que as pessoas estão menos solidárias. "Não sei o que é, mas certamente o cenário político influencia: as pessoas têm medo do que vem pela frente, e tem muita gente que ainda acha que qualquer trabalho social é coisa de 'comunista', por exemplo", opina.

O Papai Noel da desordem já é uma festa da comunidade.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Além de entregar presentes, o grupo arrecada alimentos, roupas, presentes e quantias em dinheiro.

A cada 2 anos, o "Papai Noel Desordeiro" dá lugar à "Mamãe Noel Dezordeira", como manifestação da busca pela igualdade em cada detalhe no coletivo. "As mulheres trabalham muito, e quase nunca aparecem. Achamos que ter uma Mamãe Noel também é bacana por causa da representatividade. Pelo mesmo motivo, nosso os Papais e Mamães Noel geralmente são negros."

*O grupo arrecada alimentos, roupas, presentes e quantias em dinheiro através do Instagram @ilovemusas – para doar, basta contactá-los via mensagem.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.