23/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 05/02/2019 13:51 -02

Ana Flávia Cavalcanti, a performer que não abre mão da possibilidade de sonhar

"A gente não fala muito de sonho. Sonhar é meio mal visto, aquela coisa de 'está sonhando demais', mas tudo começa no sonho."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Flávia Cavalcanti é a 291ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Foi durante um sonho que apareceu. Flutuando, um carrinho de bebê rosa claro, enorme, vazio. Acordou com aquilo na cabeça e ficou intrigada. Passou um tempo pensando sobre a situação de trabalho das babás e buscou esse sentimento dentro dela. Teve uma ideia. Contou por telefone para um cenotécnico o que tinha imaginado e ficou na expectativa. Tinha que ser grande suficiente para ela caber dentro, forte o bastante para sustentá-la, mas leve para que fosse empurrado. Virou realidade. “Apareceu o carrinho igual ao do sonho, mas não era um rosinha, era um pink chiclete que eu não gostei na hora, mas depois achei muito melhor do que no sonho”. Assim Ana Flávia Cavalcanti, 36 anos, criou, em julho de 2017, a performance a Babá quer Passear. “Queria que fosse bem no lugar da diversão, do deleite, a pessoa que sempre leva o outro passear e quem leva ela para passear? Quem cuida da babá?”.

Entendi que só quando começarmos a escrever, nós mulheres, mulheres negras, mulheres trans, a gente vai conseguir contar outro tipo de história.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Atriz, roteirista, diretora e performer busca falar de suas experiências e promover, sempre que possível, uma reflexão.

Assim começou na rua Oscar Freire, endereço nobre de São Paulo. Colocou seu carrinho rosa, entrou e ficou ali. E o local não foi escolhido ao acaso. Foi algo pensado. "Queria começar lá porque acho que é um lugar em que temos atrito e temos que abrir a discussão e a percepção. No começo eu tinha expectativa de ser levada para passear e não sou muito levada. E ficava triste, achava que a performance não acontecia quando o passeio não acontecia, só que na verdade não. A performance começa quando eu coloco o carrinho na rua. Um carrinho gigante, eu dentro. Levando ou não levando eu estou ali dizendo que a babá quer passear. Na verdade é uma provocação mesmo".

Ana Flávia sabe da importância de seu papel como artista nesse quesito. Atriz, roteirista, diretora e performer busca falar de suas experiências e vivências e promover, sempre que possível, uma reflexão. "Quero tentar fazer com que a população de modo geral, meus amigos, gente que contrata, pensar que em geral são salários muito baixos e condições de trabalho muito precárias e eu não suporto isso. Me questionam se então não podem contratar e eu não sei, também estou descobrindo e experimentando".

Para Ana Flávia essa é uma questão já antiga em sua vida. Filha de empregada doméstica, sua mãe trabalha com a mesma família há muitos anos. Começou como babá, depois foi empregada e hoje e cuidadora da matriarca da família que está doente. "Minha mãe é praticamente a única pessoa que ela reconhece e é complicado de mexer nessa relação porque os envolvimentos de laços e afetos são muito profundos e acho que mais da parte da minha mãe. Então penso nessas coisas... a questão da quantidade de horas trabalhadas, o jeito que você deixa sua casa para a pessoa que vai lá uma vez por semana ou a cada 15 dias. Geralmente quem faz esse trabalho é uma mulher preta que vem de longe, ganha mal, não está cuidando do filho dela e essas coisa não param de passar na minha cabeça".

A pessoa que sempre leva o outro passear e quem leva ela para passear? Quem cuida da babá?

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Antes de entrar no teatro, Ana Flávia estudou enfermagem. A escolha não foi por gosto, mas por necessidade.

Assim, com vontade de falar mais sobre o tema – no carrinho ela acaba não falando muito, escuta mais e cria alguns pontos de interação com as pessoas – resolveu criar uma outra apresentação. "Pensei em falar sobre a experiência que é fazer a babá e sobre ser um trabalhador negro no Brasil e vi que não daria pra fazer sozinha. Gosto de falar sobre trabalho porque tem que ser bem resolvida essa relação. Todo mundo trabalha, acho que não queremos tocar nesse ponto porque as vezes é perder um privilégio".

Com essa idéia, criou Serviçal, o que ela chama de solo debate. Na apresentação, ela convida os negros presentes para sentarem com ela em cena e falarem de suas vivências. "Contam uma experiência de trabalho ou o que elas quiseram dizer, porque entendi que quando temos a fala a gente fala o que a gente quiser. Parece óbvio, mas não é. Se você está falando, fale o que quiser". Além disso, Ana Flavia estará na próxima temporada de Sob Pressão, da TV Globo, está focada em escrever um episódio de uma série que vai falar sobre jovens LGBTs na escola e trabalha na finalização de um curta metragem, escrito e codirigido por ela. "Entendi que só quando começarmos a escrever, nós mulheres, as mulheres negras, as mulheres trans, a gente vai conseguir contar outro tipo de história. Escrever as minhas histórias é uma saída".

Ainda é muito elitista você se tornar um artista. Tem muitas maneiras de ser um artista, não sou radical, mas não é simples, não é dado para todo mundo.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O trabalho de Ana Flávia se baseia em seus sonhos (mas principalmente, em suas experiências enquanto está acordada).

Com o curta metragem Ra, foi exatamente isso que aconteceu. O filme é baseado em uma experiência pessoal da Ana Flávia que ela viveu aos seis anos de idade com sua mãe e sua irmã. A família morava em Eldorado, Diadema, onde Ana Flávia nasceu, e um dia chegou uma carga inusitada no bairro. "Não quero estragar a surpresa do filme, mas a gente tinha uma relação precária com a comida e tinha coisas que não conseguíamos comer e minha comprava em um mercadinho do bairro. O dono tinha uns esquemas com alguns supermercado e quando venciam os produtos, principalmente laticínios, ele recolhia e vendia nesse mercadinho. Não era comida do lixo, mas essa comida gostosa, essa coisa mais cara não tinha como comprar em outra situação". Foi quando um dia chegou uma carga com uma comida diferente.

Essa experiência de sua vida também foi algo que ficou em sua cabeça por muito tempo até se concretizar em roteiro e virar um curta metragem. "É sobre uma mãe solteira que cuida de duas filhas e não acontece muita coisa, aquela coisa bem básica até que uma noite tudo muda quando essa carga chega. E a saída desde aquela época foi partilhar a comida, acho que é uma tradição nas periferias. Parece que é a história de 3 pessoas, mas é sobre um bairro, uma confraternização em torno de uma situação fora do padrão".

E situações assim ela enfrentou muitas em sua vida. Nem sempre com carga inesperada, é verdade. Mas quebrou padrões, lidou com as dificuldades. Antes de entrar no teatro, Ana Flávia estudou enfermagem. A escolha não foi por gosto, mas por necessidade. Conseguiu uma bolsa e se dedicou a isso para ter uma profissão e poder correr atrás do que realmente queria. "Fazer teatro era um desejo antigo. Mas o curso que eu queria em São Paulo era muito caro, não dava para mim". Enquanto isso, acabou conseguindo três trabalhos em publicidade. Após posar para uma amiga fotógrafa, mandou as imagens para uma agência e deu certo. "Os três primeiros testes que fiz eu peguei, fiz uma 'granona' que eu nunca tinha visto na minha vida, fui nessa escola que eu queira e paguei um ano de mensalidade e comecei a fazer. Depois não foi fácil pagar. Ainda é muito elitista você se tornar um artista. Tem muitas maneiras de ser um artista, não sou radical, mas não é simples, não é dado para todo mundo".

A gente não fala muito de sonho. Sonhar é meio mal visto, mas tudo começa no sonho. Precisamos incentivar as crianças a sonharem e batalhar na direção do sonho.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Tem muitas maneiras de ser um artista, não sou radical, mas não é simples, não é dado para todo mundo".

Mas esse era seu sonho. Então fez o que podia para chegar lá. E pensando nisso e no caminho que percorreu para poder viver só de arte, Ana Flávia quer, no futuro, dar aulas para jovens. Hoje já ministra muitas oficinas e pretende tornar isso algo fixo. Está de olho nos desejos dessas garotas e garotos que querem entrar na área e espera contribuir de alguma forma. "A gente não fala muito de sonho. Sonhar é meio mal visto, aquela coisa de 'está sonhando demais', mas tudo começa no sonho. Precisamos incentivar as crianças a sonharem e batalhar na direção do sonho. Vai lá ver como faz, procure saber, veja o que precisa, peça trabalho. Falar que você quer trabalhar é a coisa mais lindo do mundo, ninguém precisa ter vergonha disso. Liga, escreve, fale de si, diz que quer. E se prepare, é importante estudar".

E tudo isso começa com o sonho. Ana Flávia sabe como ninguém que ele pode ganhar forma. E, de repente, até cores novas. Na vida real, parece que tudo fica ainda melhor.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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