ENTRETENIMENTO
21/12/2018 20:10 -02 | Atualizado 21/12/2018 20:11 -02

Natalie Portman finalmente dá um basta para a menina boazinha

Durante muito tempo, o público não permitiu que Portman crescesse. Mas desde “Cisne Negro” ela se recusa a ouvir. O resultado é “Vox Lux”.

Existe a Natalie Portman antes de “Cisne Negro” e a Natalie Portman depois de “Cisne Negro”.

No curioso e pouco visto filme Planetarium, de 2016, Natalie Portman faz o papel de uma médium que viaja pelo mundo e vira estrela de cinema por causa do seu carisma. Estudando a gravação de uma das sessões mediúnicas, um diretor em busca de uma médium para seu próximo filme tenta descobrir que apelo a mulher teria na tela. "Presença, tom de pele, espírito, caráter", diz ele, antes de fazer seu pronunciamento. "Foi nela que prestei atenção durante a cena toda."

Soa verdadeira a dificuldade do diretor de explicar por que se sente tão atraído por essa Portman fictícia. Aos 37 anos, ela é uma das atrizes mais polarizantes dos dias de hoje. Mencione seu nome entre críticos de cinema ou fãs dedicados e as opiniões serão sempre muito convictas. Alguns a consideram uma atriz natural e encantadora; outros, uma estrela sem sal e mundana – e as opiniões são divididas praticamente desde que Portman ficou famosa, ou seja, desde sua estreia no cinema, em "O Profissional", de 1994, aos 13 anos.

Eu, de minha parte, adoro Natalie Portman. Sempre adorei. Mas às vezes é difícil encontrar uma explicação mais detalhada que a do filme Planetarium, que descrevi acima. Ela caminha sobre uma linha tênue que divide a menina ingênua da provocadora. Ela representa um complexo de madonna-prostituta da cultura popular, por assim dizer. O paradoxo faz com que os críticos e os diretores de elenco não saibam muito bem como enquadrá-la. Mas esse mesmo paradoxo também é responsável por algumas das performances mais ferozes da atriz.

Quando ela aparece na metade do audacioso novo filme de Brady Corbet, Vox Lux, no papel de uma estrela pop confusa com uma conexão bizarra com o terrorismo, sua chegada poderia ter sido anunciada por um raio. De delineador exagerado e roupa punk-glam, Celeste reclama e grita com todo mundo que aparece na sua frente, suscitando a pergunta que fazemos sobre a bailarina que definiu sua carreira em Cisne Negro: "O que aconteceu com minha menininha?" Ela poderia responder com um "Ela morreu!" abrasivo. A Portman inocente – associada a Star Wars, Onde Está o Coração e Hora de Voltar – é uma lembrança distante.

Mas esse é o lance. A persona de Portman nunca foi construída à base de doçura, por mais que críticos profissionais queiram fazer colar essa descrição à identidade dela. Desde o começo de sua carreira, ela é uma das atrizes mais ousadas de Hollywood, se recusando a associar sua imagem a climas, momentos ou mantras.

Com a chegada de Vox Lux aos cinemas, depois de reações apaixonadas nos grandes festivais, revisitei a filmografia de Portman para tentar entender o que faz da atriz uma estrela de primeira linha e também uma personalidade tão polêmica. Para traçar essa evolução, começamos no mesmo ponto de tantas outras jornadas polêmicas: o meio dos anos 1990.

Precocidade: a origem

Temos a tendência de lembrar de atores crianças que tiveram performances além de sua maturidade: Jodie Foster (Taxi Driver), Christian Bale (Império do Sol), Jacob Tremblay (O Quarto de Jack). Com certeza é o caso de Natalie Portman, que nasceu em Jerusalém, mudou para os Estados Unidos aos 3 anos de idade e aos 10 recusou um convite para ser modelo de uma campanha da Revlon para se concentrar na carreira de atriz. Depois de ser substituta (com Britney Spears) no musical off-Broadway Ruthless!, Portman conseguiu o papel no filme que marcaria o começo de sua carreira no cinema: O Profissional, de Luc Besson.

Foi uma entrada audaciosa. Quando vemos Portman pela primeira vez, no papel de uma menina de 12 anos vítima de abuso doméstico, ela está fumando um cigarro, sendo mais esperta que os adultos e usando um sofisticado corte Chanel. Esse seria o modelo dos primeiros papeis de Portman, até mesmo os intocados pela violência: hiperarticulada, inabalável, ansiosa por crescer. A voz era mais rouca, mas o sorriso já era grande, ao mesmo tempo convidativo e meio amargo. Os diretores que a escalaram – todos homens, é claro – aproveitaram essa dicotomia da menina mais inteligente que aparenta sua idade.

Em O Profissional, ela se apaixona por um assassino profissional algumas décadas mais velho (Jean Reno), cantandoLike a Virgin e o Parabéns a Você resfolegante de Marilyn Monroe e insistindo que ele a treine como matadora. Em seu segundo filme, Fogo Contra Fogo (1995), de Michael Mann, ela faz o papel da filha adotiva suicida de um policial desatento (Al Pacino). Na comédia dramática Brincando de Seduzir (1996), de Ted Demme, Portman faz uma personagem à la Rory Gilmore, que cita Romeu e Julieta enquanto flerta com um vizinho adulto (Timothy Hutton). Na comédia Marte Ataca! (1996), de Tim Burton, ela é a filha do presidente americano, mais interessada em ler Siddarta que sucumbir ao pânico causado pelos extraterrestres. Naquele mesmo ano, Portman, então com 16 anos, estreou na Broadway, no drama O Diário de Anne Frank.

Junto com Todos Dizem Eu Te Amo (1996), de Woody Allen, esses filmes cristalizaram a persona de Portman. Pode-se argumentar que ela é a melhor coisa de cada um desses filmes, a novata brilhante que nos conquista. Ela inclina a cabeça e tem um olhar magnetizante, que desnuda sua alma. Os críticos notaram. Janet Maslin, do New York Times, a chamou de "fotogênica"; Lisa Schwarzbaum, da Entertainment Weekly, a chamou de "maravilhosa".

Reforçando essa precocidade, Portman nunca fez um papel de típico de criança. Segundo Demme, isso seria intencional: "Ela não quer fazer The Baby-Sitters Club", teria dito o diretor, em referência a uma série de livros extremamente popular nos Estados Unidos que trata de adolescentes típicos do subúrbio americano.

Fora das telas, a sabedoria de Portman estava à altura de suas personagens. Ela falava de projetos e do desejo de fazer faculdade, dando a impressão de que estava no controle da sua vida tanto quanto seus pais e seus agentes. Na época, a cultura dos tabloides ainda não tinha virado o turbilhão que conhecemos hoje, e Portman já demonstrava uma compreensão aguçada da fama e da construção de imagem. Sem querer ser sexualizada, ela pediu que Besson tirasse algumas cenas de O Profissional, porque achou que a nudez a violência tinham ido "longe demais". Por motivos semelhantes, recusou o papel principal no remake de Lolita de 1997 e a personagem inquietante de Christina Ricci em A Tempestade de Gelo.

"Me reuni com o diretor, mas imediatamente disse que de jeito nenhum faria aquele filme", disse Portman sobre o diretor de Lolita, Adrian Lyne. "A versão de Kubrick para o livro é ótima porque não mostra nada, mas esse [filme] será explícito. Ele me disse que usaria dublês de corpo, mas eu disse que as pessoas continuariam achando que era eu. Então, não, obrigada."

Apesar desses esforços, os papeis de adolescentes urbanas ainda conferiam a Portman uma sensualidade tácita, o que, como ela revelaria mais tarde, resultou em cartas terríveis de fãs que a tratavam como uma "fantasia de estupro". (Também é importante notar que Besson está sendo investigado por suposto assédio sexual, mas sem relação com Portman). Personagens mais velhos parecem excitados pela presença de Portman, algo que hoje parece errado – o que significa que os futuros diretores (homens) que trabalhariam com a atriz tinham a licença para levar adiante a narrativa da dualidade madonna-prostituta. Quando Star Wars acelerou de vez sua carreira, em 1999, a dicotomia de Natalie Portman virou um patrimônio de primeiríssima linha.

Baixando o volume: os anos da inocência

Depois começar a carreira interpretando esse tipo personagem, as coisas mudaram quando Portman fez 20 anos. Sua voz ficou mais fina, e seu rosto, mais angular. De repente, ela estava fazendo papeis de adultas surpresas ao se ver em circunstâncias infelizes.

Acima de tudo, ela foi a cara da mania de Star Wars, fazendo o papel de Padmé Amidala, rainha idealista cuja beleza hollywoodiana era contrabalançada por uma energia tépida e uma maquiagem kabuki. Foi a primeira vez que os críticos se viraram contra a atriz. Maslin, a crítica do The New York Times que a havia elogiado, disse que ela estava "dura"; Richard Corliss escreveu na revista Time que ela era "rasa". De repente, Portman estava na capa de revistas como Vanity Fair, Entertainment Weekly, Seventeen e Premiere – e, ao mesmo tempo, recebendo as piores críticas de sua carreira.

Eu poderia escrever uma dissertação inteira sobre Portman vista através das lentes dos filmes Star Wars. (Tente você assistir três filmes intermináveis e mal-escritos.) George Lucas, que nunca foi conhecido por tirar grandes performances dos atores, deu a Portman diálogos ruins, e ela respondeu à altura, cercada por telas verdes e jogadas de marketing. Se alguma emoção passou pelo rosto rebocado de Portman, foi o tédio. Mas ela seguiu em frente, tentando impor algum tipo de autoria ao papel: "É muito importante que as meninas vejam mulheres em posição de liderança, porque você não vê muito isso nas telas", disse ela, aos 17 anos – muito antes de isso virar assunto em Hollywood.

Depois de uma começo de carreira visionário, Portman de repente parecia mais uma engrenagem qualquer da indústria do cinema, que na época estava só começando a se viciar em franquias e propriedade intelectual. Os outros filmes que ela fez nos anos Star Wars – entre 1999 e 2005, quando também se formou em psicologia em Harvard – não ajudaram a reforçar uma imagem que fosse além do que sua velha amiga Britney Spears classificaria de "não mais menina, mas ainda não mulher".

No subestimado Em Qualquer Outro Lugar, lançado em novembro de 1999, ela estava à altura de Susan Sarandon, fazendo o papel de uma adolescente rabugenta cuidando de uma mãe pouco confiável e ao mesmo tempo vivendo seu próprio arco de amadurecimento. (O filme rendeu a Portman uma indicação para o Globo de Ouro, mas ela não teve muito sucesso na temporada de premiações porque o filme não foi um bem na bilheteria. Depois, ela fez uma grávida de 17 anos em Onde Mora o Coração (2000), comédia forçada que mais parece merchandising do Walmart. Em 2001, os críticos de teatro foram implacáveis com a Nina que ela fez ao lado de Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman, sugerindo que ela não teria experiência suficiente para interpretar Tchekov. Mike Nichols, diretor dessa montagem de A Gaivota, recomendou Portman para o diretor Anthony Minghella, que escalou a atriz para uma ponta feroz e pungente em Cold Mountain. Mesmo assim, parecia uma variação sobre o mesmo tema: a viúva desesperada era uma inocente perturbada enfrentando dificuldades.

Portman tinha consciência de seu status crescente de celebridade – e da perda do prestígio artístico. ("Star Wars saiu mais ou menos na mesma época da montagem de A Gaivota, e todo mundo achava que eu era uma péssima atriz", diria Portman mais tarde. "Eu estava no filme de maior bilheteria da década, mas nenhum diretor queria trabalhar comigo.") Para o bem ou para o mal, surgiram dois salvadores da pátria: Zach Braff e, novamente, Mike Nichols.

Braff escalou Portman para sua estreia na direção, Hora de Voltar, filme que encantou Sundance na época, mas que hoje é lembrado por representar o hipsterismo dos anos 2000. Era cool gostar de Hora de Voltarquando o filme foi lançado, em julho de 2004; hoje já não é mais o caso. Embora as pessoas coloquem a culpa em Braff, é a imagem de Portman que fica na lembrança. Ela parece uma adulta inconformada com o fato de ter crescido – paradoxo que acompanharia na segunda década de sua carreira.

Nichols veio logo na sequência, confundindo tudo. Quando Closer – Perto Demais – versão de uma peça de Patrick Marber -- estreou em dezembro de 2004 (cinco meses antes do terceiro filme da segunda trilogia Star Wars), fomos apresentados a uma nova Portman. No papel de uma stripper envolvida num complexo retângulo amoroso, ela estava hipersexualizada, como se quisesse mostrar ao mundo que finalmente tinha crescido. Mas uma indicação ao Oscar não livrou a atriz dos problemas do roteiro de Marber: a personagem parecia precisar de salvação, o que a transformou num clichê e numa adulta não-tão-adulta. (O corte Chanel parecido com o de O Profissional não ajudou.)

Os críticos não pareciam enxergar além do rosto jovem de Portman. "Seus traços suaves e trêmulos enfatizam a infantilidade de Alice, fazendo da performance a mais simpática e ao mesmo tempo a mais desconcertante de Closer", escreveu A.O. Scott no The New York Times. Mas ela continuava demonstrando ter consciência disso, afirmando a David Letterman em 2004: "Pareço e às vezes me comporto como uma pessoa muito mais jovem que sou." (Ela tinha 23 anos.)

Mas era hora de dar um basta. Portman finalmente virou a página de Star Wars e voltou numa nova fase, intencional ou involuntariamente. Começando com V de Vingança, no começo de 2006, ela plantaria as sementes do que seria seu tour de force: Cisne Negro, o filme que mudaria para sempre as opiniões sobre ela. Antes disso, entretanto, teria de raspar o cabelo.

A ascensão: a aceitação pública da vida adulta

É difícil achar o lugar certo para V de Vingança na carreira de Portman. Com exceção do drama pouco conhecido Free Zone, foi seu primeiro filme depois de Star Wars: Episódio III – A Vingança do Sith. Como Closer, ele não decide se Portman é uma guerreira ou uma moça delicada. Mas, diferentemente de Closer, sua iconografia e léxico viraram um fenômeno da cultura pop.

Por um lado, o filme de James McTeigue – escrito pelos irmãos Wachowski e baseado nos quadrinhos dos anos 1980 – apresenta Portman (no papel de Evey) como uma guerreira da liberdade na ascendente, que raspa a cabeça e luta contra o autoritarismo num futuro próximo e distópico. Por outro, o filme exige que ela vista roupa de colegial, incluindo meia-calça e laços, para seduzir um padre predador – o que parece o sonho lascivo de qualquer hétero.

Mas, na esteira de V de Vingança, Portman dobrou sua aposta, com algo que não tinha aparecido muito até então: senso de humor. Em um curta exibido no Saturday Night Live em março de 2006, ela brincou com a imagem de boa menina fazendo um rap sobre dirigir bêbada, fumar maconha, rejeitar o papel de exemplo e colar nas provas de Harvard. A autoparódia é a demonstração definitiva de poder de uma estrela de Hollywood, e neste caso ajudou Portman a se aproximar dos papeis mais maduros.

Entre 2006 e 2009, Portman apareceu em Sombras de Goya, Paris, Te Amo, um episódio de Os Simpsons, Um Beijo Roubado (do diretor high-brow Wong Kar-wai), Viagem a Darjeeling, A Outra, Mulheres ao Ataque, Entre Irmãos e Nova York, Eu Te Amo (no qual ela dirigiu um dos segmentos) – projetos decepcionantes, mas que ao menos a colocaram diante de dilemas adultos como maternidade, dificuldades financeiras, perda de rumo e tolerância religiosa. (A Loja Mágica de Brinquedos é a exceção, e Portman não parece muito envolvida.) Nesse período, se Portman não retomou a autoridade que reivindicara no passado, pelo menos refinou seu brilho. Muitos dos filmes pediam sotaques e uma disposição mais dura, exatamente o que legitimaria o ativismo humanitário no qual ela estava envolvida fora das telas.

Talvez porque os filmes não tivessem nada de especial, os críticos ainda estavam divididos a respeito das habilidades de Portman. Na resenha de Entre Irmãos, Dana Stevens, do site Slate, escreve: "Não aguento Natalie Portman. Nunca consegui acreditar em nenhum papel dela. Ela não desperta nenhuma reação emocional em mim além de: 'Oh, eis Natalie Portman'. Ela não exagera nem fica devendo nas suas atuações; só fica lá com a expressão adequada para a cena, com aquela cara doce, bonita e infantil. Se tem alguma coisa acontecendo por trás, não sei o que é, tampouco me importa."

Portman estava presa num miasma de filmes com grandes elencos, quando na verdade ela deveria estar liderando o ataque. Ela roubava a cena, mas agora era apenas mais uma atriz – o que lhe forneceu a narrativa de "virada" necessária para vender Cisne Negro. E Cisne Negro reconfirmou a impudência, o descaramento que se perdeu no complicado período da atriz-mirim-que-cresceu.

Uma nova sofisticação: experiente e vitoriosa

A carreira de Portman pode ser dividida em dois: pré e pós-Cisne Negro. Darren Aronofsky, diretor de Réquiem para um Sonho e O Lutador, tinha conversado com Portman a respeito de um filme de balé em 2000. Mas, no fim de 2009, quando começaram as filmagens de Cisne Negro, a experiência tinha ganhado um significado completamente novo.

"Estou envelhecendo, e é cada vez mais difícil ficar acomodada no padrão da menina bonitinha", dissera Portman numa entrevista no começo daquele ano, revelando uma consciência que às vezes fazia falta para astros como Julia Roberts e Johnny Depp. Cisne Negro – como Lago dos Cisnes, que inspirou a história de Aronofsky – juntou as duas metades da persona de Portman. Ela era a menina boazinha que virou má, mas com um detalhe: sua personagem, Nina Sayers, tinha uma psicologia distinta, com uma busca pela perfeição ligada à sua história pessoal, ao hipercompetitivo mundo da dança de Nova York e à gana de deixar para trás a adolescência prescrita por sua mãe (Barbara Hershey). Nina, assim como Portman, não queria mais ser boazinha. Com um arco operístico e uma grandiosidade que lembram "Repulsa ao Sexo", Portman encontrou cálice sagrado de todo ator famoso: um material que se encaixe perfeitamente com seus talentos e sua reputação. O fato de ela ter levado um Oscar pela performance é só um detalhe.

Desde então, Portman reivindica uma jurisdição que se estende até mesmo aos blockbusters que ela faz. A personagem de Sexo Sem Compromisso (2011) é uma bagunça, mas pelo menos ela teve a chance de fazer uma comédia romântica, gênero que faltava em seu currículo. (Mais tarde, o filme serviria de motivo para protestar contra a diferença de salários entre atores e atrizes. Ela ajudou a esculpir Jane Foster em Thor (2011) e Thor: O Mundo Sombrio (2013) – nem de longe seu melhor trabalho, mas marcos importantes de sua ideologia feminista. "Sua Alteza" é terrível, mas pouca gente viu, então Portman transitou com liberdade para o território artístico de Terrence Malick, que a dirigiu em Cavaleiro de Copas (2015) e o superior De Canção em Canção.

A iniciativa demonstrada em Cisne Negro se manifestou por completo com o primeiro longa que ela dirigiu, De Amor e Trevas, um projeto pessoal sem aspirações comerciais que a permitiu explorar suas raízes judaicas e mostrar seu hebraico. Talvez Portman não devesse ter se escalado para fazer o papel de uma mãe em Jerusalém no meio do século passado, mas o filme tem bela estética. Seu próximo papel principal, no western revisionista Em Busca da Justiça, poderia ser um marco, mas o filme sofreu quando a diretora Lynne Ramsay abandonou o projeto. Portman deveria ter saído também, mas decidiu ficar. O filme foi um fracasso de crítica e público.

As poucas qualidades de De Amor e Trevas e Em Busca de Justiça só aumentaram o valor da performance de Portman em Jackie, que rivaliza sua atuação em Cisne Negro.

Portman caminha na corda bamba do psicodrama brilhante de Pablo Larraín, mais uma vez lidando com a dualidade de Cisne. Em suas mãos, Jackie está sempre à beira do colapso, mas ainda assim se mantém composta, segurando o luto e o embalando para consumo público. Em Jackie, ela aparece em muitas tomadas fechadas – o que deixa claro que nenhuma outra atriz mereceria fazer esse papel. Talvez a experiência dela com as críticas profissionais tenham ajudado a interpretar a primeira-dama, ou então ela se tornou uma atriz capaz de tantas nuances que um sorrisinho maroto comunica dezenas de emoções. Qualquer que seja o caso, não é exagero dizer que Jackie é de Portman, e Portman é de Jackie.

Foi esse o caminho que a trouxe a Vox Lux, outro melodrama feroz sobre performances públicas. Se Portman canalizou o superego freudiano em Aniquilação, ela é 100% id em Vox Lux – e isso é uma dicotomia muito mais saliente que a dinâmica madonna-prostituta que a acompanhou no passado. No papel de uma cientista explorando um mundo desconhecido, ela está calma e resoluta em Aniquilação; em Vox Lux, interpretando uma pop star cheia de cicatrizes intelectuais e emocionais, ela está impetuosa e pronta para incomodar.

Assim como Cisne Negro redirecionou sua carreira, a vida de Portman longe das telas também contribui para seu reconhecimento. Ela namorou com os músicos Moby e Devendra Banhart e casou com o coreógrafo de Cisne Negro, Benjamin Millepied, em 2012; eles têm dois filhos. Ela defende causas como igualdade no casamento, veganismo (inspirada pelo amigo Jonathan Safran Foer) e o mundo em desenvolvimento, além de criticar o governo de Israel. Portman às vezes parece sempre em pé de guerra, mas isso vem depois do seu feminismo, que fez dela uma das vozes mais importantes do movimento Time's Up.

Nos dias de hoje, ninguém mais pode olhar para Portman e pensar nela como a menina de O Profissional e Marte Ataca! É claro que a fama vai e vem, e o mundo muda. Mas Portman merece crédito por isso. Ela é inteligente, consciente e soube lidar com as críticas, com o instinto sexualizante dos diretores homens e com um ecossistema que no passado nos incentivava a destruir as mulheres. Hoje, ela é autora de seu próprio legado, uma verdadeira profissional.