22/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 05/02/2019 13:31 -02

De dona de casa a delegada da mulher: A trajetória de Debora Mafra

“Era aquela mãe certinha da casa. Dei a volta por cima e me tornei a mulher forte que sempre quis ser."

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Debora Mafra é a 290ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

O atendimento adequado em delegacias ainda é um desafio no Brasil quando o tema é violência contra a mulher. Mas se depender de Débora Mafra, 48, que há quatro anos ocupa o cargo de delegada titular da Delegacia Especializada em Crimes contra Mulher (DECM), em Manaus (AM), as mulheres sempre terão atendimento imediato e, se necessário, a medida protetiva (que obriga a saída do agressor de casa e a proibição de qualquer contato em casos de agressão física, psicológica, moral e patrimonial) será concedida na hora. “Só aqui [na delegacia] solicito cerca de 50 medidas protetivas por dia. A vítima de violência não pode esperar. É preciso uma ação rápida para evitarmos o pior”, garante em entrevista ao HuffPost Brasil.

Em Manaus, elas estão denunciando mais e saindo do ciclo de violência que é tão difícil.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
O que poucos sabem é que a delegada já esteve do outro lado.

O "pior", citado por Débora, são os casos de feminicídio. Desde 2015, matar uma mulher por motivações de gênero, passou a ser um agravante do crime de homicídio. A mudança aumenta a pena de um terço até a metade. Para definir a motivação, considera-se que o crime deve envolver violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

A delegada informou à reportagem que, de setembro de 2017 à janeiro de 2018, chegou a protocolar mais de 3 mil pedidos de medidas protetivas na capital que, de acordo com levantamento mais recente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pertence ao terceiro estado brasileiro com maior proporção de casos de feminicídio a cada grupo de 100 mil mulheres. Segundo o estudo, as maiores proporções de casos de feminicídio foram registradas pelo Rio Grande do Norte, Paraná, Amazonas e Mato Grosso.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil é o quinto país que mais mata mulheres. São 4,8 homicídios para cada 100 mil brasileiras. O Mapa da Violência de 2015 aponta que, entre 1980 e 2013, 106.093 pessoas morreram por sua condição de ser mulher. Do total de feminicídios registrados em 2013, 33,2% dos homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.

A violência atinge mais mulheres negras. De 2003 a 2013, foi registrado um aumento de 190,9% na vitimização de negras, índice que resulta da relação entre as taxas de mortalidade branca e negra. Para o mesmo período, a quantidade anual de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%, saindo de 1.747 em 2003 para 1.576 em 2013.

Ela conta que o pronto atendimento garantido na unidade especializada sob seu comando foi responsável por eliminar uma lista de processos que chegava a 6 meses de espera. A iniciativa também fez diferença nas estatísticas de ocorrências na cidade. Nos 10 primeiros meses de 2018, a delegada aponta que o registro de casos de feminicídios diminuiu de 14 para 4. De janeiro a outubro, a delegada afirma que foram registrados 16,2 mil ocorrências contra 17,7 mil de 2017. Uma redução de 8.56% que ela comemora: "As mulheres estão confiando no trabalho polícia, na justiça e na Lei Maria da Penha."

Era aquela mãe certinha da casa. Dei a volta por cima e me tornei a mulher que sempre quis ser.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil

O que poucos sabem é que, para chegar até aqui, a delegada já esteve do outro lado não como vítima de violência doméstica, mas sim, de uma sociedade machista que defende que lugar de mulher não é no comando de uma delegacia, e sim dentro de casa cuidando dos filhos e do marido. "Cresci com essa mentalidade", aponta. "Na minha cabeça, não podia esperar nada diferente da vida". Débora nasceu em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, em uma família humilde. As dificuldades financeiras e as circunstâncias da época fizeram com que ela decidisse casar cedo, logo aos 17 anos. "Vivi para cuidar da casa, dos filhos, do marido. Não tinha perspectiva de nada."

A vida dela permaneceu sem muitas perspectivas, até se mudar para a capital amazonense com o ex-marido. À época, ele tinha arranjado um emprego na cidade. Em Manaus, Débora continuou com a mesma vida que tinha em São Paulo: "Cozinhava, passava, era uma dona de casa submissa", afirma. A diferença é que estava longe dos pais e sem apoio algum. Mas já trilhava um primeiro passo rumo à independência. Aos 29 anos, aprendeu a dirigir. "Na minha cabeça toda mulher que dirigia tinha autonomia, liberdade. Prevendo o fim do casamento, foi por onde comecei. Convenci meu ex-marido a me colocar em uma autoescola para levar nossos filhos para colégio", lembra.

Não quis nenhum bem no divórcio. Tinha capacidade e força para recomeçar.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil

Porém, faltava um emprego. Foi então que resolveu estudar. Ingressou na faculdade de Direito em busca também de estabilidade e independência financeira. "Minhas amigas achavam que eu faria gastronomia ou nutrição, porque gostava de cozinhar. Mas eu quis algo que me levasse a um concurso público para ter condições de criar meus filhos". Sem saber muito o que estava por vir, encarou a graduação e começou a estudar para concursos. O primeiro que prestou, depois de um ano de faculdade, passou. "Fui aprovada para escrivão da Polícia Civil. Fiquei tão feliz. Consegui pagar sozinha minha faculdade. Nem precisei da ajuda do meu ex-marido".

Mas ela queria mais. O cargo de delegada se tornou um sonho. E as novas perspectivas chegaram, mesmo que devagar. "Me divorciei e sozinha, criei meus dois filhos, continuei atuando como escrivã e comecei a estudar para delegado. Não parei". Após estudar muito, foi aprovada em segundo lugar no concurso. "Foi uma alegria sem precedentes. Recomecei minha vida do jeito que nunca imaginei, que sequer sonhei", comemora.

Eu sei o que uma mulher sofre quando tem filhos e não tem autonomia financeira para sair das garras de um homem.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu sei o que uma mulher sofre quando tem filhos e não tem autonomia financeira para sair das garras de um homem."

A carreira de Débora na polícia não começou no combate à violência contra a mulher. Ela ficou alguns anos em Distritos Integrados de Polícia (DIPs), até ser chamada para assumir a Delegacia Especializada de Homicídios. "Foi uma experiência única, me apaixonei pela investigação de casos". Ela conta que, até hoje, não sofreu preconceito por ser mulher e ocupar um cargo majoritariamente masculino. Pelo contrário. "Os investigadores sempre me respeitaram e aceitavam minhas ordens. Felizmente, não tive problemas com isso."

Depois da Delegacia de Homicídios, veio a Delegacia da Mulher. Ela encarou o desafio "como missão". À reportagem, ela afirma que considera a crise que teve após 13 anos de casada como "o divisor de águas" em sua vida e que, se não fosse sua inquietação, ela não teria conquistado o lugar em que está hoje e muito menos ajudar outras mulheres. "Eu sei o que é ser dona de casa. Eu sei o que uma mulher sofre quando tem filhos e não tem autonomia financeira para sair das garras de um homem, muitas das vezes, machista. Por isso, aqui na delegacia elas sempre serão prioridade", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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