ENTRETENIMENTO
20/12/2018 11:34 -02 | Atualizado 20/12/2018 11:39 -02

‘O Retorno de Mary Poppins’ é puro açúcar, tão familiar quanto fresco

Não falta alegria no mais recente remake/continuação do clássico de Hollywood, com Emily Blunt e Lin-Manuel Miranda, mesmo que o filme não seja tão memorável.

Remakes e continuações? Pfffft. É notícia velha em Hollywood. Hoje, o negócio é o "requel", um misto de remake e continuação que se aproveita dos melhores momentos de algum clássico e ao mesmo tempo injeta um novo DNA, para que tudo pareça novo e reluzente.

Jurassic World, Star Wars: O Despertar da Força e Creed: Nascido para Lutar deram origem à tendência em 2015, apresentando personagens que assumiram o manto de seus predecessores e liderando filmes com histórias que meio que já tínhamos visto anos atrás (e em várias reprises na TV). Se o filme é bom (Jurassic World, aqui acaba sua relevância), talvez dê para esquecer que a destruição da Estrela da Morte 2.0 é muito parecida com a destruição da Estrela da Morte original. Ênfase em "talvez".

Este ano contou com seus "requels". O mais óbvio foi Halloween, no qual Michael Myers escapa do hospital psiquiátrico e volta ao subúrbio para caçar Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), que agora está esperando armada. Oito Mulheres e um Segredo também se encaixa nesse modelo, graças às semelhanças com a trilogia Onze Homens e um Segredo, do começo do século. Idem para Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo, que consegue ir ainda mais fundo na história dos três homens que podem ser o pai da protagonista.

O último desses filmes, Deus nos ouça, é O Retorno de Mary Poppins, filme que vai mais longe no passado que qualquer outra "requel". Quando o Mary Poppins original estreou, em 1964, recebeu 13 indicações para o Oscar e marcou o ápice da mistura de animação com filmes tradicionais. Você acha que, mais de cinco décadas depois, uma continuação não se aproveitaria desse legado? Como disse Dick Van Dyke no filme original: "Parece que o que vai acontecer já aconteceu antes".

Felizmente, essa requel é doce o bastante para ajudar o remédio a descer.

Mary Poppins (dirigido por Robert Stevenson) e O Retorno de Mary Poppins (dirigido por Rob Marshall, que tem a experiência dos musicais Chicago e Caminhos da Floresta) dividem uma mesma tese: os adultos deixam que seus espíritos se contaminem por problemas de gente grande; se ao menos eles conseguissem lembrar como era ser criança. A mensagem não é nada original – considere Christopher Robin, lançado alguns meses atrás -, mas O Retorno de Mary Poppins faz bom uso da ideia. A babá encantada volta para a família Banks, que esqueceu todas as lições que ela tinha ensinado.

O filme se passa durante a Grande Depressão, 24 anos depois do original. Jane e Michael, que eram crianças, hoje são dois adultos ocupados, como eram seus pais. Michael (interpretado por Bem Whishaw), recentemente enviuvado, ainda mora na casa elegante na rua das Cerejeiras, onde cria três crianças pequenas com a ajuda de Ellen (Julie Walters). As coisas pioram para Michael e Jane (Emily Mortimer), uma líder trabalhista que o ajuda a cuidar dos filhos, quando advogados chegam para retomar a casa. Michael tem de se virar para encontrar um certificado de empréstimo deixado por seu pai, e as crianças ficam com medo de serem forçadas a se mudar.

É a desculpa para Mary Poppins descer dos céus. Os Bank adultos não parecem muito surpresos ao encontrar a mulher que no passado eles imploraram para ficar, mas talvez seja essa a ideia. Não há tempo a perder se você mede mais de 1 metro. Ademais, ela está ali por causa das crianças, às vezes com a ajuda de Lin-Manuel Miranda, que trabalhava para Bert, um amigo antigo de Mary.

Mary Poppins não mudou muito, com exceção do fato de que agora ela é interpretada por Emily Blunt, é claro. Blunt canaliza a afetação agradável mas pouco sentimental de Julie Andrews. Sendo direto, Blunt está maravilhosa. Ela rouba a cena revirando os olhos e fazendo gestos com as mãos.

As crianças (Pixie Davies, Nathanael Saleh e Joel Dawson) conspiram para ajudar a salvar os pais do desastre, saindo em aventuras que capturam o espírito do filme original, mas ao mesmo tempo levam a trama a lugares diferentes. Em uma sequência particularmente vívida, Mary demonstra seus poderes mágicos transformando uma banheira num portal para um oceano resplandecente, com barcos e baleias enormes. Depois, vemos uma pessoa presa no teto, mas dessa vez é a prima de Mary (Meryl Streep), uma mulher excêntrica cujo mundo às vezes está literalmente de cabeça para baixo. (A presença de Streep não contribui em nada para a trama, mas vê-la pendurada em lustres é muito divertido.)

E assim vai... e continua... até o final, com uma homenagem ao último número do original, Let's Go Fly a Kite. O filme é comprido, e os musicais não são nada memoráveis, infelizmente. Os compositores, Marc Shaiman e Scott Wittman, co-autores de Hairspray, emprestam acordes de Supercalifragilisticexpialidocious, dos irmãos Sherman, mas, se você pedir que eu cante alguma música, não lembro de nenhuma.

Mas o filme oferece vários confortos, além de um cenário político para elucidar o mundo onde se passa a história. Marshall, que tem uma produção inconsistente desde Chicago, usa um toque tão afetuoso, que é difícil desgostar do que se vê na tela. A estética reluz, até mesmo durante as cenas noturnas, como a em que Miranda lidera um grupo de acendedores em meio à névoa.

Em Nine e Caminhos da Floresta, Marshall parecia procurar um musical tão arrojado quanto Chicago, mas na realidade ele precisava de algo mais entusiasmado. Mesmo que o roteiro (de David Magee, autor de As Aventuras de Pi e Em Busca da Terra do Nunca) vá além dos seus temas, Marshall encontra a integridade na construção do filme, optando por tomadas longas, cores simbióticas e odes a Cantando na Chuva e Os Miseráveis. O figurino de Sandy Powell, cheio de vermelho e xadrez e tons pós-Eduardianos vibrantes, se encaixa perfeitamente.

O filme está longe de ser perfeito, mas é uma boa adição ao rol das requels. Marshall se junta a J.J. Abrams (O Despertar da Força), Ryan Coogler (Creed) e David Gordon Green (Halloween) no escalão dos diretores que tiveram sucesso nesse tipo de empreitada. Até mesmo o vilão (Colin Firth) tem a mesma tese: "Você esqueceu o que é ser criança", ouve ele de uma senhora que distribui balões mágicos (Angela Lansbury). Ela se encaixaria perfeitamente na cultura das franquias.

"O Retorno de Mary Poppins" estreia nos cinemas nesta quinta-feira (20).

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.