MULHERES
20/12/2018 14:01 -02 | Atualizado 20/12/2018 14:07 -02

Em depoimento, João de Deus diz não ter 'responsabilidade' por atendimentos espirituais

Médium acusado de abuso sexual por mais de 500 mulheres afirma que "Deus que faz" cirurgias com corte.

EVARISTO SA via Getty Images
O Ministério Público recebeu 506 relatos de abusos sexuais e investiga as denúncias junto com a Polícia Civil de Goiás.

Em depoimento à polícia, João de Deus afirmou que não tem responsabilidade pelo que faz nos atendimentos espirituais ao ser questionado sobre cirurgias com corte e distribuição de receitas médicas. O médium é investigado por estupro, estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude.

De acordo com reportagem do jornal O Globo, em depoimento em 16 de dezembro, João Teixeira de Faria afirmou que "as orientações são repassadas pelo espírito". Ele negou entregar receitas ao fiéis que vão à Casa de Dom Inácio de Loyola, na cidade de Abadiânia (GO), no entorno do Distrito Federal.

Questionado se faz tratamento com cirurgias com corte, João de Deus negou e disse que "Deus que faz". "No atendimento não é repassada receita, as orientações são repassadas pelo espírito, ou seja, não é de maneira escrita. Esclarece que apenas atende e orienta. Informa ainda que alguns frequentadores já adquirem os produtos, mesmo sem o encaminhamento do espírito, pois são frequentadores do local há muitos anos e acreditam na eficiência do produto", dizem as notas do depoimento, de acordo com a reportagem.

Por 42 anos, o médium realizou cirurgias espirituais sem alvará sanitário, documento emitido pela Vigilância Sanitária que atesta as condições e é obrigatório em locais que mantenham atividades relacionadas à saúde.

Apesar de negar ter usado instrumentos de corte nos procedimentos, a reportagem do Globo esteve em Abadiânia em julho e presenciou a atuação do médium. Segundo o jornal, ele entregou um papel com sua rubrica à repórter e voluntários do centro de atendimento explicaram que o papel deveria ser entregue na farmácia para comprar remédios.

João de Deus também negou ter chamado "qualquer pessoa para se submeter a um atendimento individualizado". "São as pessoas que o procuram em busca de um atendimento individualizado, vez que são os frequentadores quem solicitam tal atendimento e não o interrogado", disse no depoimento.

De acordo com relatos das vítimas, o próprio médium, em sessão coletiva, deu a orientação para que encontrassem com ele isoladamente, após o atendimento geral, momento em que teriam sido violentadas.

João de Deus teve a prisão decretada na sexta-feira (14) a pedido da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual de Goiás (MP-GO). Dois dias depois, ele se entregou aos policiais.

O Ministério Público recebeu 506 relatos de abusos sexuais e investiga as denúncias junto com a Polícia Civil de Goiás. Na última terça-feira (18), policiais apreenderam, recibos de faculdades, uma caixa com mais de R$ 400 mil e seis armas na casa de João de Deus.