MULHERES
19/12/2018 18:17 -02 | Atualizado 11/01/2019 10:41 -02

Lucy de Carvalho, atriz da vanguarda do Cinema Novo, morre aos 77 anos

"Dona Lucy", como era conhecida, vivia em Salvador (BA) e foi entrevistada no "Todo Dia Delas", projeto editorial do HuffPost Brasil.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
“Deixei de fazer cinema porque não me submeti a certas coisas”, afirmou em setembro em entrevista ao HuffPost Brasil.

Lucy de Carvalho, atriz conhecida por protagonizar Janaína em Barravento (1962), primeiro filme de Glauber Rocha, morreu na manhã desta quarta-feira (19), aos 77 anos, em decorrência de um enfisema pulmonar. Há 2 meses ela estava internada no hospital Ernesto Simões Filho, em Salvador (BA).

Em setembro, "Dona Lucy" -- como era conhecida -- falou com o HuffPost Brasil em uma das entrevistas de "Todo Dia Delas", projeto editorial que conta a história de 365 mulheres.

Aposentada, a atriz que fez parte da vanguarda do Cinema Novo no Brasil vivia em um apartamento modesto em Salvador (BA), com uma aposentadoria mínima e contava apenas com a ajuda dos vizinhos e de um amigo para cuidar de si e da própria casa.

Ela deixa dois filhos que, segundo vizinhos, não eram próximos da atriz. Ainda não há informações sobre velório e enterro da atriz.

A historiadora Taís Calasans, vizinha de Lucy, conta ao HuffPost Brasil que além da falta de ar constante, ela também sofria com diabetes e uma cegueira parcial. Segundo ela, no último ano, Lucy passou pelo menos 6 meses no hospital.

"A gente costumava dizer que até se sentia mais confortável quando ela estava no hospital, porque ela se alimentava direito e tinha cuidados constantes", lembra.

Calasans até pouco tempo realizou uma série de entrevistas com Lucy, em parceria com a fotógrafa e cineasta Juh Almeida. Juntas, elas tinham a intenção de fazer um documentário sobre a história da atriz do Cinema Novo que ficou no anonimato.

"Dona Lucy é uma das estrelas do Cinema Novo no Brasil que ficou esquecida. Diferente de Norma Bengel e outras, ninguém se lembrava dela", conta Calasans. "Tenho quatro horas de imagens e entrevistas com ela. Ela tem uma história que não pode ser esquecida".

Quem foi Lucy de Carvalho

Reprodução
Lucy de Carvalho como "Janaína", em "Barravento", primeiro longa-metragem de Glauber Rocha.

A repórter Nathali Macedo conta em reportagem para o HuffPost Brasil que, no momento da entrevista, Dona Lucy estava sentada em uma cadeira de balanço em frente a uma TV de tubo que exibe imagens que ela já não enxerga mais e que pediu um tempo para se arrumar.

"Eu não quero só batom, vou fazer a maquiagem completa", prometeu à época. A reportagem conta que ela voltou com o rosto pintado no tato e que, vaidosa, ainda reclamou de não ter tido tempo de fazer as unhas e pintar os cabelos.

Dona Lucy contou que sonhava com o estrelato desde a infância, mas, na década de 50 e 60, a profissão era socialmente malvista para mulheres. Ser atriz era sinônimo de "ser mulher da vida". "Moça de família não fazia cinema, era coisa de comunista, mulher da vida", lembra.

O primeiro papel de Lucy foi também no primeiro longa-metragem dirigido por Glauber Rocha, o drama "Barravento", filmado na praia do Buraquinho, em Itapuã, Bahia. Em plena ditadura militar, ela foi a primeira mulher a raspar a cabeça no cinema nacional. Mas foi por sua personagem em Os Cafajestes (1962), dirigido por Ruy Guerra, que Lucy ganhou o público.

No filme de Ruy Guerra, a atriz Norma Bengell protagonizou o primeiro nu frontal do cinema brasileiro, o que foi um escândalo à época -- e chegou a ser censurado. A cena de quase 4 minutos em que a atriz fica nua pela areias e brinca com as ondas do mar é tida, ainda hoje, como um marco. No longa, Lucy contracenava com Norma e, assim como ela, ficou completamente nua.

O Cinema Novo foi um movimento cinematográfico que aconteceu entre as décadas de 60 e 70, encabeçado por Glauber Rocha e outros expoentes, como Cacá Diegues, que tensionava questões sociais como nunca antes se fizera no cinema brasileiro. Antes enviesadas em temas superficiais e com total influência do cinema hollywoodiano, as produções nacionais passaram a tratar temas socialmente relevantes.