18/12/2018 15:15 -02 | Atualizado 18/12/2018 15:18 -02

Seca no Nordeste: um fenômeno causado pela natureza

Apesar de ser sentida principalmente no semiárido nordestino, a seca tem origens muito mais distantes.

Agência Brasil
Sobradinho - A Usina Hidrelétrica de Sobradinho tem capacidade total de 1050 megawatts, mas com a falta de água não tem sido possível gerar cerca de 160 megawatts.

A tão sonhada integração do Rio São Francisco se tornou realidade 171 anos depois da primeira vez em que foi cogitada. O presidente Michel Temer inaugurou o eixo leste do projeto, em março de 2017 - finalmente concretizando o projeto. Centenas de cidades que não tinham acesso à água passarão a ter. Isso vai gerar desenvolvimento econômico e ajudará milhões de brasileiros que sofriam na pele os efeitos terríveis da tradicional seca.

A obra é essencial principalmente porque a seca no Nordeste é um fenômeno natural. As caraterísticas geográficas e climáticas da região criam uma situação que, se não for administrada, faz as populações locais sofrer. Por isso era tão importante que a integração do Rio São Francisco saísse do papel e se tornasse realidade. Só assim a água poderia chegar a quem mais precisa.

Apesar de ser sentida principalmente no semiárido nordestino, a seca tem origens muito mais distantes. Por exemplo, o sudeste da Ásia e o círculo polar ártico, locais onde dois fenômenos acontecem. Muito da estiagem pode ser explicada pela circulação dos ventos pelo planeta, um padrão que se repete segundo os cientistas, há mais de 20.000 anos

Ventos vindos da Ásia impedem chuva

Em primeiro lugar, temos a chamada Célula de Walker, que se forma no Pacífico Equatorial. O primeiro a observar esse fenômeno foi Gilbert Walker (1868-1958), climatologista inglês. Sua descoberta foi a de que existe uma zona de baixa pressão atmosférica sobre a Indonésia e o norte da Austrália e uma área de alta pressão na costa da América do Sul.

Isso quer dizer que quando as águas do Oceano Índico e do Mar da China esquentam (no período entre maio e setembro), um vento quente e úmido é formado. Dessa maneira, temos a formação de uma área de baixa pressão atmosférica, de acordo com os termos usados pela metereologia. Esse vento causa as chuvas das monções, muito comuns no sudeste da Ásia.

Depois de despejar água no continente asiático, esses ventos continuam a se deslocar e viajam até a costa brasileira e chegam ao Nordeste. Na chegada, os ventos estão mais frios e diminuem de altitude, ficando mais próximos do mar. Forma-se assim, a chamada área de alta pressão atmosférica. Ela impede que chuvas se formem na região. E não afeta apenas o Brasil: áreas desérticas no Peru e no Chile se formaram por conta desse fenômeno.

El Niño e zona de convergência intertropical

Outro fenômeno conhecido, o El Niño, tem influência sobre o regime de chuvas da região. Ele acontece a cada três ou sete anos e também impede que água caia sobre o Nordeste. Uma massa de água quente que vem da Austrália pelo Oceano Pacífico também ajuda a causar seca. Essa água tem o poder de empurrar chuvas que estão no Pacifico para a outra costa da América do Sul, no lado oeste. As chuvas, portanto, ficam longe do Nordeste, causando estiagem.

Há ainda uma terceira causa para esse problema milenar, a zona de convergência intertropical. Ela é uma faixa de ar úmido que dá uma volta pelo planeta pelo equador. Outro nome para a ZCIT é Célula de Hadley. George Hadley (1685-1768) foi um metereologista nativo da Inglaterra que descobriu o fenômeno. Ele acontece assim: há sistema de baixa pressão atmosférica que se forma no Canadá e que fornece ar úmido para a ZCIT. Ela acaba se movendo em direção ao sul, onde as águas são mais quentes.

No mês de março, essa zona chega ao Ceará, próximo da cidade de Quixadá. A ZCIT, então, provoca chuvas na região. Mas isso nem sempre acontece. A movimentação desse sistema depende das temperaturas entre as águas do Oceano Atlântico em suas porções norte e sul. Se o Atlântico Norte estiver mais frio que o Sul, as chuvas se deslocam mais, chegando ao Nordeste. Caso a temperatura da água seja menor no Sul, a ZCIT não chega tão longe, derramando a água na Amazônia sem passar pelo sertão.

Ministério da Integração Nacional
O que causa a seca no Nordeste?

O que causa a seca no Nordeste?

Fatores naturais contribuem para a estiagem nos estados nordestinos

Célula de Walker

As águas do Oceano Índico e do Mar da China esquentam entre maio e setembro, formando um vento quente e úmido.

Ele passa pela Ásia e causa chuvas, conhecidas como monções. Quando chega na costa brasileira, perto do Nordeste, o vento já está frio e diminui de altitude.

Forma-se uma zona de alta pressão atmosférica, que impede que chuvas se formem no Nordeste e em outros países da América do Sul (Chile e Peru).

El Niño

O fenômeno também influencia se vai chover ou não na região. A massa de água que normalmente viaja da Austrália pelo Pacífico pode causar secas.

Dependendo da força do El Niño, chuvas podem chegar ao Nordeste em março. Mas, muitas vezes isso não ocorre.

Quando ele é forte, tem o poder de desacelerar ventos que vêm do oeste, fazendo com que as chuvas caiam sobre a costa oeste da América do Sul.

Zona de convergência intertropical

Trata-se de uma faixa de ar úmido em forma de anel. Ela surge a partir do Canadá e se movimento em direção ao Equador.

Quando ela tem força suficiente, consegue chegar até o Ceará, onde provoca chuvas. Mas, muitas vezes a ZCIT não consegue se mover e as precipitações atingem o Amazonas.