19/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 19/12/2018 00:00 -02

Quando representatividade é revolução: O caminho de Laíse Neves

“A gente quer que tenha certa representatividade, sem precisar falar o tempo todo que somos pretos."

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Laíse Neves é a 287ª entrevistada do

Na cidade de Nova Iguaçu, bairro conhecido como KM 32, na antiga estrada que ligava o Rio de Janeiro a São Paulo, é quase rural: fica a cerca de uma hora do centro do município, distante cerca de duas horas do centro da capital fluminense, é marcado por um comércio local e familiar e quase não tem atrativos culturais que não envolvam longo deslocamento dos moradores. Ali nasceu, foi criada e mora até hoje a publicitária Laíse Neves, de 22 anos, que pelo senso comum seria só "mais uma" menina negra da Baixada Fluminense, mas que subverteu a ordem e hoje trabalha e estuda para se tornar, cada vez mais, uma referência na produção de moda e na comunicação preta do País. Ela integra o coletivo AUR, um grupo de comunicadores, DJs e produtores que pretendem elevar a barra da comunicação em relação à estética negra.

Venho trabalhando muito para mudar a auto-sabotagem, porque sei que é importante.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Na estrada que teimou em percorrer, por destino ou vocação, ela encontra pessoas citando sua "pouca idade" como um problema.

Laíse sempre esteve envolvida com moda e direcionou seus estudos para isso. Há quase dois anos, foi convidada para integrar a AUR como colunista de moda. Com as reorganizações na plataforma, hoje acumula a função de diretoria de moda. Como definir o que faz ali? "É um pouco de tudo, tudo que tem a ver com moda, produção de moda, passa por mim", explica ao HuffPost Brasil. Em uma área que ainda não é ocupada de forma igualitária por mulheres negras, Laíse com "apenas" 22 anos começa a lidar com o fato de ser referência para outras que virão depois dela, sem entender muito bem como. Para quem cresceu vivenciando experiências racistas em vários ambientes, a "auto-sabotagem" ainda é um fato a ser superado: "É sempre um "por que?". Por que aquela pessoa me admira? Venho trabalhando muito para mudar isso, porque sei que é importante".

Sobre trabalho, ela não para. A publicitária por formação explica que a AUR tem como objetivo se tornar a maior comunicadora preta do Brasil, sem modéstia e com muito trabalho. Qualquer um que se interesse em conhecer um pouco do trabalho produzido pelo coletivo até agora, percebe que negros e negras são referências, mas Laíse explica um pouco de como isso acontece. "A gente quer que tenha certa representatividade, sem precisar falar o tempo todo que somos pretos. Está na cara que somos. Somos pretos e iguais por isso, mas ao mesmo tempo temos nossas diferenças. Por isso a gente quer mostrar nossa pluralidade mesmo dentro da nossa igualdade", explica.

A gente quer mostrar nossa pluralidade mesmo dentro da nossa igualdade.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Laíse sempre esteve envolvida com moda e direcionou seus estudos para isso.

Com isso, o conteúdo produzido pela plataforma tem referências de blues, hip-hop e soul, principalmente. Os DJs da AUR batem ponto nas festas mais descoladas do Rio, e enquanto isso Laíse e os outros 11 integrantes constroem uma identidade que seja plural, mas nunca excludente. "A nossa partida é sempre de um ritmo preto, mas a gente não quer ser limitado. O que der para misturar, a gente mistura. Somos abertos a quem quiser chegar para somar com a gente", define. E completa, sobre os possíveis críticos: "Ninguém é obrigado a gostar de ninguém só porque é preto, então está suave".

Tanta confiança, ela contextualiza, vem de uma família "privilegiada", ainda que negra em uma sociedade racista. Os pais dela são funcionários públicos, e sempre deram a melhor estrutura educacional possível, como o estudo em colégios particulares durante toda a vida. A estabilidade financeira outrora almejada por todas as famílias foi um impeditivo quando a jovem escolheu a carreira, mas não teve jeito. "Eu tive uma base familiar muito forte, meus pais sempre me deram muito apoio. Para a veia artística um pouco menos. Mas depois que eles viram que a minha área era essa, ganhei um pouco mais de espaço", relembra.

A geração de hoje tem mais informação, cabe a ela fazer as mudanças.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Ninguém é obrigado a gostar de ninguém só porque é preto, então está suave".

Dentro de casa, o suporte à sua identidade racial também foi uma pequena batalha, principalmente quando a jovem decidiu assumir seu cabelo natural. A mãe, maior crítica desse processo, hoje seguiu os passos da filha. Orgulhosa, Laíse destaca que a partir desse movimento começou a pensar em formas de aproximar o território da Baixada Fluminense, especialmente do KM 32, ao aprendizado acumulado na universidade e nas rodas de conversa em que comparece como profissional.

"Eu ainda não tenho conexão nenhuma com esse lugar. É a primeira vez que entro nessa quadra, por exemplo. Quando você estuda e não traz nada para onde você mora, você está trabalhando em vão. Então eu quero trazer isso tudo que eu absorvi lá, para cá. Comecei a ter essa noção agora, então quero ver se trago toda consciência racial e cultural para cá", afirma, e dá uma pista que o próximo ano da AUR será um pouco mais direcionada para outros municípios do Rio de Janeiro.

Quando você estuda e não traz nada para onde você mora, você está trabalhando em vão.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"A geração de hoje tem mais informação, cabe a ela fazer as mudanças."

Na estrada que teimou em percorrer, por destino ou vocação, ela encontra pessoas citando sua "pouca idade" como um problema. Em um coletivo formado por jovens, que querem atingir outros jovens, e formarem juntos uma nova realidade de comunicação, ela acredita que este é um dos melhores caminhos. "Acabam menosprezando mesmo sem perceber. Eu acho incrível esse movimento, em várias áreas. Quando mais jovem consciente, melhor. A geração de hoje tem mais informação, cabe a ela fazer as mudanças. Quem puder pegar e fazer algo com essa informação, tem que fazer", define, com força na voz e brilho no olhar. E ela continuará fazendo.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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