18/12/2018 16:01 -02 | Atualizado 18/12/2018 16:02 -02

Como as águas do São Francisco mudam vidas no Nordeste

A obra garantirá a segurança hídrica para mais de 12 milhões de nordestinos em 390 municípios dos Estados mais vulneráveis às secas.

Agência Brasil
Sobradinho - A Usina Hidrelétrica de Sobradinho tem capacidade total de 1050 megawatts, mas com a falta de água não tem sido possí­vel gerar cerca de 160 megawatts.

Levar as águas do São Francisco ao sertão nordestino é um projeto que existe desde o Brasil Colônia. O imperador Dom Pedro II chegou perto de fazer o "encanamento" do rio - como se dizia à época. "Basta fazer um canal. Não é difícil. Cavar e atirar a terra para os lados pouco custa. As mesmas águas que correm farão o resto", disse o deputado paraibano França Leite, em um discurso no Congresso, em 1846.

A obra provou ser bem mais difícil que as previsões do deputado, e só se tornou realidade 171 anos depois, quando o presidente Michel Temer inaugurou o eixo leste do projeto, em março de 2017 - finalmente concretizando a integração do Rio São Francisco aos estados de Pernambuco e da Paraíba. Centenas de cidades que não tinham acesso à água passarão a ter. Isso vai gerar desenvolvimento econômico e ajudará milhões de brasileiros que sofriam na pele os efeitos terríveis da tradicional seca.

A obra garantirá a segurança hídrica para mais de 12 milhões de nordestinos em 390 municípios dos Estados mais vulneráveis às secas (Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco). Cidades que antes sofriam com o racionamento de água agora têm abastecimento garantido.

Produtores rurais podem usar as águas do Velho Chico - que está também revitalizando seus afluentes - para irrigar plantações, dar às criações de animais, cozinhar.

Quando a água começou a ser bombeada inaugurando a obra, a festa foi completa no Nordeste. Vídeos de moradores mostrando o rio chegando a locais que antes não tinham abastecimento inundaram as redes sociais e os noticiários. Alguns locais viraram pontos turísticos e se tornaram verdadeiras "praias" do sertão.

Uma maré de mudanças no sertão

Klebson Márcio Santos da Silva, operário e morador de Salgueiro (CE), vem trabalhando na obra de integração do Rio São Francisco desde 2009, "graças a Deus", diz. Segundo ele, a obra levou água aos agricultores da região, "que já estão usando a água para molhar as plantas, para dar aos animais". Embora seja a razão de ser da integração, a água não é o único benefício que o Nordeste recebeu. Os operários que vêm participando do projeto, foram se qualificando ao longo do tempo, ganhando mais conhecimentos de construção civil e subindo de cargo. "Muitas pessoas aqui entraram de ajudante, e ganharam qualificação", explica ele.

É o que conta Agnaldo Freitas da Silva, presidente da Associação da Vila Lafaiete, em Monteiro (Paraíba). Antes, o agricultor morava de aluguel em um terreno. Ele, sua família e outras 61 famílias da região foram realocadas para a a vila em que hoje moram. Ele ganhou uma casa, coisa que não tinha antes: "Eu vivia de aluguel e hoje sou dono da minha terra e da minha casa", conta. A comunidade conta com abastecimento de água, fornecimento de eletricidade, e maquinário de irrigação. Tem também um posto de saúde, serviço que não existia antes da integração do Rio São Francisco.

"Hoje temos coleta de lixo", afirma Silva. Antes de serem realocadas, as famílias passaram por um processo de capacitação promovido pelo Ministério da Integração Nacional. Os cidadãos aprenderam noções básicas de bem-estar, e de convivência em comunidade. "Foi muito gratificante, eu aprendi muito", afirma o presidente da associação. "Antes, a gente morava [de maneira] individual. Agora, é em comunidade."

A estudiosa Vila Lafaiete se prepara para dar voos ainda mais altos, de acordo com Silva. Estão se capacitando para criar peixes e aves e produzir doces. Luciano, agricultor familiar e outro morador da comunidade, afirma que, com as águas do São Francisco, também vieram grandes mudanças em sua vida.

"Hoje, nós temos uma moradia boa e temos onde produzir. Antes, eu tinha uma casa de taipa, hoje moramos numa casa de alvenaria. Temos um terreno e mais 4 hectares para plantar. Já conseguimos aulas para plantar, cuidar do solo, muita coisa boa para a gente aqui", relata.

"A gente tem toda a estrutura aqui. É uma vila muito bonita. Temos um posto de saúde, lá a gente não tinha, temos quadras, campo de futebol, uma praça. A gente tem que agradecer as coisas boas que vieram."