COMIDA
06/01/2019 07:40 -02 | Atualizado 09/01/2019 13:12 -02

Os insetos são a proteína do futuro, mas não queremos comê-los porque sentimos nojo

“O problema não é que eles sejam sujos e asquerosos, por isso não os comemos – é que não os comemos, por isso os encaramos como sujos e asquerosos.”

O Rei Leão é conhecido por muitas cenas icônicas, mas não por uma de suas cenas mais prescientes: quando Simba, carnívoro por natureza, pergunta o que haverá para o jantar e lhe dizem que, em vez de carne, o cardápio terá insetos. "São gosmentos, mas matam a fome", é como eles são descritos.

A Disney certamente não deve ter imaginado que duas décadas mais tarde os mesmos espectadores que curtiam piadinhas sobre comida à base de insetos estariam dizendo hakuna matata para proteína em pó feita de grilos pulverizados ou pedindo gafanhotos assados em partidas de beisebol.

Especialistas concordam que isso é positivo. Muitos afirmam que a entomofagia, ou seja, o consumo de insetos, é nosso destino alimentar. E que já é mais de hora de isso virar realidade.

Apesar da crescente consciência dos benefícios ambientais, nutricionais e éticos da inclusão de insetos em nossa alimentação, os EUA sempre fizeram parte da minoria de culturas que não o fazem. Nos cinco anos passados desde que as Nações Unidas divulgaram um relatório importante destacando como os insetos podem resolver o problema de carência proteica de uma população global crescente, o mercado de insetos comestíveis nos Estados Unidos cresceu mais de 43%.

Não que tenha sido fácil. Vender insetos ao público americano vem sendo um desafio interessante.

À primeira vista, não há nada de especialmente repulsivo na ideia de insetos como alimentos. "O sabor não é tremendamente estranho ou forte – é quase inexistente", comentou a antropóloga cultural Gina Louise Hunter, da Illinois State University. "Comemos muitas coisas que, pensadas conceitualmente, são muito mais asquerosas, além de serem potencialmente patogênicas", ela disse ao HuffPost. "A lagosta, por exemplo, vive no fundo do mar e se alimenta de carniça."

É um problema de percepção. "Simbólica e psicologicamente, classificamos os insetos como não comestíveis", disse Hunter. "O problema não é que eles sejam sujos e asquerosos, por isso não os comemos – é que não os comemos, e por isso os enxergamos como sendo sujos e asquerosos."

Nem sempre foi assim. A literatura da antiguidade grega e romana contém várias mênções a insetos diversos que seriam deliciosos. Nos tempos bíblicos as pessoas comiam gafanhotos. Com o passar do tempo, porém, deixamos de comer insetos, e com a globalização, disse Hunter, "o consumo de insetos passou a ser visto como algo primitivo".

Não é fácil superar esse viés cultural. Os americanos enxergam os insetos como algo que pode ser consumido se alguém estiver morrendo de fome ou para superar um desafio com os do programa de TV "Fear Factor", e não porque alguém possa sentir vontade de comê-los. Ressalvas semelhantes são feitas em relação a determinadas partes dos animais: por exemplo, as pessoas comem presunto com prazer, mas não testículos de porco, que ficam a apenas cerca de sete centímetros de distância do local de origem do presunto, no mesmo animal.

Stewart Stick
Um chef da Entomo Farms prepara um bandeja de grilos para sua próxima receita.