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15/12/2018 06:00 -02 | Atualizado 17/12/2018 17:13 -02

Reserva Ecológica de Guapiaçu: Como casal de estrangeiros transformou fazenda no Rio

A REGUA inicia nova etapa de reflorestamento da Mata Atlântica e é pioneira na reintrodução da anta, animal extinto no Rio desde 1914.

Divulgação/André de Moura Granja
Juntos há mais de 30 anos, Raquel e Nicholas Locke fundaram a Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA) no estado do Rio de Janeiro, em 2000.

Raquel Locke estudava Letras em Buenos Aires, na Argentina, quando decidiu passar as férias de fim de ano com as primas no Rio de Janeiro. Lá conheceu o inglês Nicholas e em um ano decidiram passar a vida juntos. Trinta e três anos depois, o casal é responsável por transformar uma fazenda no estado do Rio de Janeiro em uma reserva ecológica.

Localizada no município de Cachoeiras de Macacu e com 6.500 hectares, a Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA) é hoje referência em restauração ambiental da Mata Atlântica, bioma brasileiro mais ameaçado. "A biodiversidade é uma das mais altas do mundo. Em função disso, tem 20 mil plantas e quase um milhão de espécies entre insetos etc. Isso é nosso patrimônio", afirma o britânico e presidente da reserva.

A estimativa de Nicholas é que apenas 30 hectares da propriedade estejam sem cobertura florestal atualmente. "A missão é reflorestar toda área degradada. Estamos chegando mais ou menos no limite", afirmou.

A preservação da vegetação na REGUA é exceção no Brasil. Apesar de 72% da população brasileira viver em um dos 17 estados onde está presente a Mata Atlântica, só restam 12,4% da mata original, segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica.

O processo de colonização brasileiro, a partir da costa atlântica, está intimamente ligado a esses números. A devastação foi agravada ainda pelos ciclos econômicos de produtos como o café, posteriormente pela industrialização e mais recentemente pela expansão das cidades em cima da floresta.

Regeneração da Mata Atlântica

A regeneração do bioma é incipiente. Entre os anos de 1985 e 2015, foi de 219.735 hectares, área corresponde a aproximadamente o tamanho da cidade de São Paulo, segundo dados do Atlas da Mata Atlântica, iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

De acordo com o levantamento mais recente do Atlas, entre 2016 e 2017, 7 estados chegaram próximos ao desmatamento zero, com desflorestamento em torno de 100 hectares. São eles: Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraíba, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte.

Divulgação/André de Moura Granja
Em janeiro, será feito um novo reflorestamento na REGUA. A meta é plantar outras 15 mil árvores em 6 hectares.

De fazenda a reserva ecológica

A área ocupada pela REGUA é propriedade da família de Nicholas desde 1908. Até a década de 1990, funcionava como uma fazenda com criação de gado leiteiro e de corte, além de plantação de mandioca, milho, berinjela e banana.

"A fazenda desde 1908 certamente devastou áreas. Isso não tem por que esconder. Foram seletivamente exploradas madeiras de todo esse entorno, assim como essa área foi drenada. É bom frisar esse histórico porque personaliza", conta Rachel.

Hoje, cerca de 80% dos visitantes são estrangeiros. "Estou muito feliz com o que aprendi sobre meio ambiente e da língua inglesa, por causa dos turistas", conta Raquel. Apesar de ter largado tudo para uma nova vida no Rio, a argentina aconselha sua filha a não tomar o mesmo caminho. "Na minha época, as mulheres eram consideradas donas de casa, nada mais importava. Mas hoje em dia nem se pode pensar em não estudar, não ter seu lugar. Tudo mudou."

Foram 10 anos pensando em como formar a reserva, quem seria o público, quais atividades seriam desenvolvidas antes da escolha pela observação de aves, prática comum fora do Brasil. "Conseguimos o apoio de 2 ambientalistas ingleses especializados em aves. Vieram aqui pagos pelo British Airways, que tinha um programa de conservação, e ao longo de 2 anos, eles elaboraram uma lista de aves [existentes aqui], com umas 400 espécies, o que nos indica que a floresta estava em ótimo estado de conservação. Hoje em dia temos uma lista de 467 aves", afirma a vice-presidente da REGUA.

Nas etapas de início de criação da reserva, após o pontapé inicial britânico, o passo seguinte foi contratar um biólogo veterinário, um profissional de educação ambiental e ex-caçadores que se tornaram guardas florestais. Aos 48 anos, Adilei Carvalho da Cunha é um dos moradores da região que teve a vida transformada. "É uma coisa difícil explicar. A gente aqui nunca teve um emprego fixo, vivia de biscate [bico], fazendo umas coisinhas e essa experiência que eu tinha na mata, conhecendo tudo aqui, foi mudando. Fui gostando do trabalho lá", conta o ex-caçador que hoje é guia.

André de Moura Granja
Adilei Carvalho da Cunha era caçador e se tornou guia turístico da reserva.

Nicholas conta que a meta de Adilei era decorar um nome de uma ave por dia. "Em um ano aprendeu todas. Ele não escreve muito, mas persistiu e, como tinha esse ouvido e vista espetacular, já mostrou muito talento em campo."

O ex-caçador aprendeu o nome de cada espécie em português, inglês — por causa dos visitantes estrangeiros — e em latim, idioma dos nomes científicos. "Fui conhecendo mais sobre os pássaros e me animando mais", conta o ex-caçador, que trabalha na reserva desde 2001. O conhecimento de pássaros foi a porta de entrada para aprender também inglês e melhorar sua comunicação com os turistas.

Hoje são 3 as espécies que chamam atenção dos observadores: pica-parra, arapapá e marreca do bico roxo.

Reflorestamento da Mata Atlântica

A REGUA é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, uma área particular que não pode ser desmatada. Esse status é atribuído após ato voluntário do proprietário. Para as atividades ambientais, a reserva conta com parcerias com a Petrobras e a Fundação SOS Mata Atlântica.

Desde 2010, foram feitos 4 plantios com a ONG. Foram aproximadamente 64 mil mudas de árvores nativas plantadas em 35 hectares. No mínimo 80 espécies são usadas em cada plantio, como Jequitibá, Peroba Ipê-branco, amarelo, Pitanga, Jussara e Jabuticaba.

A escolha depende de de identificar quais espécies estão mais bem adaptadas à quantidade de luz solar e às características do solo. "Temos experiência de 30 anos de observação plantando árvores aqui. Quais espécies crescem bem em áreas desnudas de vegetação e na floresta densa. Quando recupera a área, a ideia é buscar um local que seja completamente de pasto e transformar em uma floresta magnífica", afirma Nicholas.

Ajude a reflorestar a Mata Atlântica

Em janeiro, será feito um novo reflorestamento. A meta é plantar outras 15 mil árvores em 6 hectares a partir de recursos arrecadados em uma campanha em conjunto com a The Body Shop. A cada compra na loja, R$ 1 será destinado ao projeto.

O presidente da reserva ressalta que o bioma está em constante transformação. "A gente está tentando descobrir como a floresta funciona. Florestas tropicais são muito complexas."

A região é ponto de encontro da Mata Atlântica do norte com a do sul, o que aumenta a biodiversidade. "Por isso cabe o esforço de preservar, conservar o que tem, mas a gente não sabe se isso basta. Muitos cientistas alegam que é como uma geladeira descongelando", destaca o inglês.

Um ponto determinante para tornar a REGUA referência é sua localização, em divisa com o Parque dos Três Picos. Criado em 2002 e com 67 mil hectares, o local abriga um Jequitibá-rosa com idade estimada de mil anos. Considerada a maior espécie de árvore da Mata Atlântica, são 30 metros de altura e 19 de circunferência de base. É preciso juntar 12 pessoas para abraçar a árvore.

Divulgação/André de Moura Granja
O Parque dos Três Picos abriga um jequitibá-rosa com idade estimada de mil anos. Considerada a maior espécie de árvore da Mata Atlântica, são 30 metros de altura e 19 de circunferência de base.

Reintrodução da anta

A união dos 2 territórios cria uma área extensa que causa resiliência das espécies. Esse foi um fator determinante para escolher a REGUA para reintrodução da anta, animal extinto do Rio de Janeiro desde 1914. A iniciativa pioneira no Brasil faz parte do Refauna, que começou na Floresta da Tijuca com projetos com bugios e cotias.

"Como a área ainda está mais íntegra, a gente pesquisou as espécies que estavam faltando na fauna local e detectou que a principal que falta era a anta, conhecida como jardineira da floresta e fundamental para dispersão de sementes e, com isso, a regeneração natural das florestas", afirmou o professor do IFRJ (Instituto Federal do Rio de Janeiro) Maron Galliez, responsável pelo projeto.

O planejamento começou em 2012, mas os 3 primeiros animais foram levados para a reserva em dezembro de 2017. Outros 3 se juntaram em junho, mas 1 não sobreviveu por dificuldade de adaptação. A expectativa é que no próximo ano nasçam os primeiros filhotes. A gestação da espécie é de 13 meses.

A meta é que em 10 anos haja 10 animais e reprodução da espécie. "O sucesso de um projeto de reintrodução é quando os animais estão se reproduzindo na natureza", afirma o biólogo com doutorado em ecologia.

A REGUA foi local também de reintrodução do mutum-do-sudeste, tipo de pássaro, e está organizando um projeto com a jacutinga, outra ave.

As parcerias de pesquisas são determinantes para o desenvolvimento da reserva. Atualmente, há 65 teses e dissertações e outros 65 artigos de estudos feitos no local.

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Conhecida como jardineira da floresta e fundamental para dispersão de sementes, a anta foi o animal escolhido para ser reintroduzido na REGUA.

Bem-estar da população

Com nascente na reserva, o rio Guapiaçu, principal da bacia de mesmo nome, abastece 3 milhões de pessoas na região leste da Baía de Guanabara. Há ainda entraves para melhorar a qualidade do meio ambiente na região. No município de Cachoeira do Macacu, por exemplo, não há tratamento sanitário.

Também é preciso avançar na conscientização da população local, especialmente de pequenos agricultores. A estimativa é que ações como o gradeamento feito morro abaixo leve à perda de duas toneladas de terra por ano. Outro desafio é conciliar a preservação da mata com rituais de oferendas de religiões de matriz africana.

Os avanços na preservação da fauna e flora também têm impacto direto na comunidade local, de prevenção de crises hídricas a ganhos de bem-estar pessoal. O convívio com áreas verdes ajuda a reduzir a pressão arterial, além de proporcionar outros benefícios para saúde, como redução da ansiedade. "A floresta é uma experiência sensorial", diz Nicholas.

Foi pensando em incentivar essa conexão com a natureza que a The Body Shop decidiu se engajar com ações ligadas ao meio ambiente pelo mundo. O projeto na REGUA é o primeiro de reflorestamento no Brasil, mas desde 2016, a empresa se empenha na criação de corredores ecológicos para restaurar espaços de mata devastados. Foram mais de 40 milhões de m², em países como Indonésia, Malásia e Vietnã.

*A repórter viajou à reserva a convite da The Body Shop.