16/12/2018 02:00 -02 | Atualizado 16/12/2018 19:57 -02

Marta D’Oyá, a voz feminina das rodas de samba do Rio de Janeiro

Influenciada pela mãe, sambista de 51 anos se tornou referência entre as frequentadoras mais jovens do circuito do samba na cidade.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Marta D’Oyá é a 284ª entrevistada o

Bezerra da Silva cantou em 'Saudações às Favelas' que sabia que era considerado em qualquer bocada, um fato. Mas alguns anos depois, outra figura mais jovem, mais charmosa, com tanto amor pelo samba quanto ele apropriou-se dos versos e da música para começar a escrever seu nome na história do samba do Rio de Janeiro, mesmo sem ser uma cantora. Marta D'Oyá, de 51 anos, pavimentou a estrada para um movimento que hoje conta com mulheres na produção, direção, instrumentos, voz e tudo o que mais envolver a execução de uma boa roda de samba na cidade. Tia Marta, Martinha ou apenas Marta, ela não faz distinção entre os jovens que a admiram e veem nela uma referência de resistência do ritmo na Cidade Maravilhosa.

Eu escrevia o samba sete vezes, então não tinha como não aprender a letra.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Marta não tem Oyá só no nome. Tem também na pele.

A trajetória de Marta no samba começou bem cedo. As primeiras lembranças dela com o ritmo são das idas junto com sua mãe e irmã ao ensaio da Caprichosos de Pilares, na zona norte carioca. A mãe, moça bonita e que chamava a atenção nos eventos, sempre foi a referência musical de Marta. Impedida pelo pai de participar de um concurso de cantoras de rádio, fugiu de casa e o fez sozinha. Apanhou depois, claro, mas hoje a mãe de Martinha conta o feito com imenso orgulho: foi vencida por Angela Maria.

Por conta disso tudo, a casa de Marta sempre foi muito musical, contava com os últimos lançamentos do vinil e com as vozes de Jamelão e Elza Soares pelos quatro cantos. Marta conta que, depois que cresceu, percebeu ainda mais semelhanças com a mãe, não só física.

A festa da mãe incomodava o pai, que não era do ritmo. Os conflitos entre os dois, relata Marta, fez com que ela e a irmã crescessem em um ambiente de violência doméstica — que a preparou para não aceitar nada parecido de um parceiro seu. Aos 18 anos, registrou ocorrência contra o próprio pai na delegacia. Dias depois, ele saiu de casa e foi proibido pela mãe de voltar: "Nós íamos até ele, mas ele não podia entrar na casa porque ela não deixava. Ela pegou força na gente, e assim vivemos as três".

Todo mundo ficou se questionando quem era a menina que cantava ali, mas nunca me intimidaram.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
E a fé está também em outros elementos.

Mais "saidinha" que a irmã, Marta começou a trabalhar cedo e conhecer mais os cantões do Rio de Janeiro. O primeiro contato sozinha com uma roda de samba foi em Duque de Caxias, mas a paixão firmou mesmo em Magé, e de forma improvável.

"Um grupo de homens da bateria da escola do Canal, em Magé, formou um grupo de samba. Era tudo muito bem planejado só que eles tinham dificuldade para aprender as letras, porque trabalhavam muito. Então pediram para eu escrever as letras pra eles, só que naquela época não tinha cópia. Eu gravava a fita, escutava a música e escrevia uma parte, escutava e escrevia outra parte. Eu fazia isso sete vezes, então não tinha como não aprender o samba", relembra.

Com isso, não teve jeito, toda vez que o grupo se apresentava, lá estava Marta cantando todos os refrões e sambas onde não havia mulheres fazendo o mesmo. Certa vez, em uma das sextas-feiras em que faltava aula para frequentar uma roda de samba, cantou junto com os músicos justamente as 'Saudações às Favelas', que entoava nomes de várias comunidades. Um samba difícil, define Marta, mas que ela sabia cantar — e isso chamou a atenção dos homens.

"Todo mundo ficou se questionando quem era a menina que cantava ali, mas nunca me intimidaram. Para mim era um ambiente comum, eu estava ali e bastava, mas não estava ali para enfeitar a roda", afirma. E explica: "Homens têm mania de dizer que nós, mulheres, ficamos ali para enfeitar as rodas. Mas não, de jeito nenhum: tem muita mulher cantando samba por aí".

Não posso falar de orixá quando bebo, de jeito nenhum.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Muitas pessoas abordam Marta na roda de samba querendo tomar conselhos religiosos, mas ela avisa que não permite.

De lá para cá, a Martinha que bate ponto junto a todas as rodas que consegue se tornou muito conhecida pelos seus pares. Hoje, ela diz que o samba lhe deu as coisas mais bonitas, inclusive o amor de sua vida, com quem está junto há 28 anos sem nunca ter se separado, e são pais de quatro filhos.

E foi por meio de seu marido que a matriarca aproximou-se também da missão de vida, relacionada ao Candomblé. Marta D'Oyá também é Mãe Marta, e é responsável por uma casa de Candomblé, em Duque de Caxias. A casa já foi de responsabilidade de sua sogra — a quem também chamava de mãe — que, antes de morrer, avisou que havia chegado a hora de Marta se iniciar na religião.

"O acaso não existe. A minha relação com a religião sempre foi normal. Nascemos, minha irmã e eu, em um centro de umbanda, onde minha tia é a mãe de santo até hoje. Crescemos ali. Quando me casei, e vim para Jardim Primavera [em Duque de Caxias], conheci o Candomblé. Eu achei lindo, mas não conhecia esse lado", relembra.

Com o conselho da sogra, começou a buscar um pai de santo, e encontrou aquele com que está há 22 anos. Após três anos de iniciação, a sogra morreu mas ela não assumiu a casa imediatamente. "Enrolou" por dez anos, como ela diz, até falar com seus cunhados, que entendiam que não havia outra pessoa para tomar conta do lugar.

E quando eu não sei cantar, bato na palma da mão, mas de jeito nenhum deixo o samba cair.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O amor pelo samba, explica, é pelo poder transformador que o ritmo tem.

Por ser bastante conhecida, muitas pessoas abordam Marta na roda de samba querendo tomar conselhos religiosos, mas ela avisa que não permite. "Não falo de orixá na roda de samba, porque tem que ter uma preparação. Na roda de samba eu tomo a minha cerveja, e eu tenho que ter limitações. Não posso falar de orixá quando bebo, de jeito nenhum", pondera.

Se a religião e o samba estão ligados? "Com certeza. Desde o tempo de Tia Ciata. Mas mesmo assim tem que ter limitações: a Marta D'Oyá, da roda de samba, não é a mãe Marta da casa de candomblé". Os limites impostos não impedem ela de continuar a ser admirada, principalmente, por mulheres que chegaram depois dela. "Na minha época era só eu. Hoje não, hoje são muitas. Eu me identifico com elas e elas se identificaram comigo. Eles criaram isso, de eu ser a tia Marta, a dona Marta. E quando eu não sei cantar, bato na palma da mão, mas de jeito nenhum deixo o samba cair", conta com felicidade.

Meu poder está na minha fala, na minha voz, não nas minhas pernas.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Mercedes Baptista (que ganhou estátua em sua homenagem) é considerada a precursora do balé e da dança Afro no Brasil.

O amor pelo samba, explica, é pelo poder transformador que o ritmo tem, que afeta "quem gosta e quem não gosta". Os brilhos nos olhos e a força na voz, conta, não tem hora para acabar. Cansaço? Jamais. "No dia que eu não aguentar, quero uma cadeira, porque meu poder está na minha fala, na minha voz, não nas minhas pernas. Eu sei muito bem de onde ele vem e sei muito bem a hora que eu tenho que gritar. Sei a hora que as pessoas precisam me ouvir, então isso independe de idade", diz Marta.

Tanto amor, respeito, devoção e querer bem pelo ritmo faz com que o nome e o charmoso olhar dela sejam conhecidos em todas as regiões do Rio. E quem é o furacão Marta D'Oyá? "É uma mulher comum, mas que quando abre a boca tem um poder. Eu não sou cantora, não sou musicista, mas eu sou uma amante do samba". E isso basta para que seu nome seja marcado na história.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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