ENTRETENIMENTO
14/12/2018 10:26 -02 | Atualizado 14/12/2018 10:37 -02

'Roma', de Alfonso Cuarón, é um épico sobre as pequenas coisas

Diretor mexicano faz lindo tributo à memória das experiências que fazem de nós o que nós somos.

Divulgação/Netflix
A estreante Yalitza Aparicio nos entrega uma interpretação simplesmente espetacular como a empregada doméstica Cleo.

Quando recapitulamos lembranças de infância, temos a tendência a exagerar as proporções do que realmente aconteceu. Tudo é maior, mais espetacular, mais significativo, por menor que seja o acontecimento rememorado. É mais ou menos assim que funciona Roma, 8º longa do premiado diretor mexicano Alfonso Cuarón que estreia nesta sexta-feira (14) na Netflix.

Roma é um exercício de nostalgia que foca na história de uma pessoa que passou despercebida quando o fato de fato ocorreu, mas que ao ser lembrada, ganha a proporção agigantada das memórias de uma criança.

A criança, no caso, é o próprio Cuarón, que aqui relembra a história da empregada de sua família, Cleo (interpretada lindamente pela estreante Yalitza Aparicio), uma jovem de origem indígena que vive mais a vida de seus patrões do que a sua própria, tendo seu destino ligado aos laços de uma família que não é a sua.

Divulgação/Netflix

De pequenas histórias de uma personagem ignorada pela sociedade, Cuarón faz quase um épico. Suas cenas são como quadros em movimento, com cada plano, cada detalhe milimetricamente estudado.

Nada está ali por acaso, absolutamente nada. O que resulta em um poderoso poema visual recheado de sequências marcantes, como a da aula de artes marciais na favela, a de uma festa na casa de uma família americana, a de um salvamento na praia... Se indicasse todas aqui a lista teria umas duas páginas.

É como se Homero resolvesse contar, no meio de um poema épico da Odisseia, a história de um servo de Ulisses com a mesma paixão que reserva a seu herói.

Cleo não é apenas uma jovem indígena que cuidava da casa e das crianças de uma família de classe média alta no bairro de Roma, na Cidade do México, em 1970, mas a representação de um local, uma época, uma cultura que formou quem o diretor é hoje. Tanto que vemos claras referências a outros filmes dele, como E Sua Mãe Também e Gravidade, produção que lhe rendeu o Oscar de Melhor Diretor em 2014.

Roma é um lindo tributo à memória. Tanto dessas pessoas quase invisíveis que são a verdadeira força de um país quanto das experiências que fazem de nós o que nós somos.

Divulgação/Netflix