POLÍTICA
13/12/2018 04:00 -02

Interventor de Roraima: 'Tem que controlar melhor quem entra no Brasil'

Em meio à crise de migração de venezuelanos, Antônio Denarium, eleito governador, negocia com Bolsonaro rigor na fiscalização das fronteiras.

Nacho Doce / Reuters
Dados do IBGE mostram que nos 6 primeiros meses deste ano mais de 10 mil venezuelanos cruzaram a fronteira.

Para os moradores de Roraima, 2019 chegou 21 dias antes de o ano acabar, com o anúncio de intervenção federal no estado e a gestão antecipada de Antônio Denarium, governador eleito pelo PSL em outubro. "Foi o único jeito que o presidente encontrou para acabar com o caos e a violência generalizada que o estado estava vivendo", disse Denarium, nomeado interventor pelo presidente Michel Temer (MDB), em entrevista ao HuffPost Brasil.

Além da greve generalizada que dominava o estado no início deste mês, a crise de imigração dos venezuelanos ajudava a alimentar o clima de caos. Dados do IBGE mostram que, nos 6 primeiros meses deste ano, mais de 10 mil venezuelanos cruzaram a fronteira. Também neste ano, o índice de desemprego bateu recorde em Roraima, chegou a 13,5%. Embora não seja possível afirmar que foi por causa da imigração, a questão dos venezuelanos se tornou uma batata quente e a população respondeu nas urnas.

Roraima elegeu o empresário Antônio Denarium, do mesmo partido do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Ambos mantêm um discurso afinado de que há imigrantes que eles não querem no Brasil. Há 2 dias no comando do estado, o interventor articula com o presidente eleito uma maneira de controlar melhor quem entra no País.

Vamos dizer que tenha um condenado, um fugitivo. Ele chega e entra pela fronteira e nós não temos controle, a fronteira está aberta. Minha preocupação é essa.Antônio Denarium

Na campanha, uma das promessas de Denarium foi fechar as fronteiras. Eleito governador, entretanto, ele mudou o tom. "O governo não tem autonomia nem poder para fechar fronteira. Isso é uma ação do governo federal, existem tratados internacionais também que não permitem que o país não receba os refugiados." No fim de semana, a ideia, até então defendida por Denarium de fechar as fronteiras, foi rechaçada pelo presidente Michel Temer, a quem hoje o interventor está subordinado.

Marcos Corrêa/PR
Na primeira reunião com Antônio Denarium, Michel Temer prometeu liberar verba para o interventor pagar os salários dos funcionários do estado.

Leia a íntegra da entrevista.

HuffPost Brasil: Uma intervenção 21 dias antes de o ano acabar foi uma medida acertada?

Antônio Denarium: A intervenção foi o único jeito que o presidente encontrou para acabar com o caos e a violência generalizada que o estado estava vivendo. Com a intervenção, o governo vai disponibilizar para o estado o pagamento dos servidores que estão com salários atrasados. Havia uma greve generalizada em todos os setores. Roraima está, inclusive, sob intervenção federal no sistema penitenciário. Há ainda intervenções em políticas para educação e saúde.

O governo estava sem controle e esse foi o único jeito para dar credibilidade e resolver a situação. Com a intervenção, fui nomeado interventor federal. No dia 1º já assumo como governador eleito. A escolha foi uma forma de dar continuidade à intervenção como governador. Com a nossa posse, nomeamos um general como secretário de Fazenda e um interventor federal do departamento penitenciário que está em Roraima, como secretário de Segurança Pública. Fizemos reuniões com lideranças do sindicato dos serviços públicos para suspender o movimento de greve que estava acontecendo.

As greves acabaram?

As de servidores acabaram, mas ainda temos uma parte das mulheres dos policiais que continua acampada em frente ao palácio do governo aguardando o pagamento para que possam desocupar a praça. Fora isso, o trabalho nos serviços públicos já voltou a funcionar normalmente.

O senhor encara sua eleição como uma resposta dos moradores do estado à crise imigratória?

Nunca fui político, é minha primeira eleição, fui eleito agora governador do estado. Sou empresário do setor agropecuário e comercial. Havia necessidade de renovação da política em todo o Brasil, e em Roraima não foi diferente. Lançamos uma candidatura onde a população aprovou, tanto que lideramos no primeiro turno e ganhamos no segundo.

Nossa proposta é fazer uma política diferente da que foi feita até hoje: precisamos acabar com os excessos, com os desperdícios, com os contratos supervalorizados. Vamos valorizar os servidores públicos e pagar os salário em dia também, melhorar a qualidade dos serviços. Outra ação muito importante que temos que fazer é melhorar o desemprego e renda no estado, temos uma das maiores taxas de desemprego do Brasil, temos que valorizar os empresários que estão lá, os agricultores, os pecuaristas, e também atrair novos investidores para o estado. É um desafio muito grande.

Além do mais, estamos vivendo essa crise migratória de venezuelanos e o estado de Roraima não tem infraestrutura suficiente para atender tamanha migração, nem na saúde, nem na segurança nem na educação. Então agora a intervenção federal vai dar um fôlego para o novo governo, com folha de pagamento em dia. Isso vai nos possibilitar fazer um trabalho mais planejado na gestão do estado.

Na campanha, o senhor defendeu o fechamento das fronteiras. É questão de tempo para barrar os imigrantes?

A entrada de migrantes no Brasil é controlada, mas quando esses migrantes entram como refugiados, a legislação não permite que seja barrada a entrada. O que eu sempre falo é que tem que ter um controle melhor das pessoas que estão entrando no Brasil. O estado de Roraima tem 1,8 mil quilômetros de fronteiras, tem que ter também uma parceria com o governo federal para monitorar melhor a nossa fronteira. Roraima, assim como as fronteiras do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, atrai grande parte do tráfico de drogas, armas. Estão entrando no nosso estado agora. Na Venezuela também não há controle do sistema prisional. Grande parte das pessoas que são foragidas naquele país estão migrando para o Brasil, Colômbia e outros países que fazem fronteira.

O que pode ser feito? Há estudos ou políticas em andamento?

O que tem que ser feito é a interiorização dos venezuelanos que estão em Roraima. O governo federal tem que ampliar, levar o pessoal para São Paulo, para Brasília, para Manaus. Em Roraima, não tem emprego para essa quantidade de venezuelanos que estão entrando. Eles acabam ficando em abrigos, sem expectativa de arrumar emprego.

Muitas vezes os que conseguem se regularizar no País acabam tomando emprego dos brasileiros e, com isso, tem aumentado a taxa de desemprego no estado de Roraima e, consequentemente, há um aumento também da criminalidade.

O que o senhor tem conversado com o presidente eleito Jair Bolsonaro?

O governo federal, tanto Temer e o próximo governo, tem conhecimento da real situação que se encontra hoje a imigração dos venezuelanos. É um problema que só se resolve em parceria com o governo federal. Na intervenção federal, o governo não tem autonomia nem poder para fechar fronteira. Isso é uma ação do governo federal. Existem tratados internacionais também que não permitem que o país não receba os refugiados. Eles estão entrando no Brasil como refugiados. Quando uma pessoa entra a turismo, trabalho ou para estudar, ela tem que apresentar uma série de documentação. Como refugiados, não precisa apresentar nenhum documento. Ele simplesmente atravessa a fronteira e entra no Brasil. É por isso que eu defendo e estou conversando para que seja feito um controle para a entrada dos venezuelanos.

Como seria esse controle?

Vamos dizer que tenha um condenado, um fugitivo. Ele chega e entra pela fronteira e nós não temos controle, a fronteira está aberta, minha preocupação é essa.