12/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 12/12/2018 15:17 -02

Karina Fukumitsu: Quando a prevenção do suicídio promove esperança

A “educadora dos pés descalços” lidou por anos com o tema em sua família e quer tratar do assunto com respeito: “Quero mostrar que sempre tem vida e se tem vida, tem jeito.”

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Karina Fukumitsu é a 280ª entrevistada do

Calcula que já fez mais de 14.500. Chega a esse número baseada na quantidade de pacotinhos de papel para origami que já comprou. Cada um vem com mil quadradinhos. Entre suas atividades, leituras, durante uma conversa mesmo, ela deixa os dedos passearem sobre o delicado papel e dá forma ao tsuru, tradicional pássaro japonês. A lenda diz que a cada mil tsurus feitos o seu desejo pode ser realizado. "Falam que é o pássaro da felicidade, da esperança, da longevidade. Gosto de apresentar como o pássaro da esperança", conta Karina Fukumitsu, 47 anos, psicóloga especializada em prevenção do suicídio. A contagem começou em 2006 quando sua mãe ficou doente e passou por 18 internações. Nesse período, fez os mil e distribuía para médicos e enfermeiros enquanto ficava com a mãe. Alguns anos depois, foi Karina quem passou uma temporada no hospital e retomou a produção.

Um jeito de trabalhar com prevenção ao suicídio é levar esperança para as pessoas.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Às vezes me pergunto por que deus não me tirou a vida naquele momento e talvez seja para isso: mostrar que sempre tem vida e se tem vida, tem jeito".

Hoje, virou mais uma de suas marcas registradas. Em toda palestra que vai leva seus tsurus para distribuir. Fora isso, entra no palco descalça, hábito que se iniciou também após esse período em que adoeceu. "A educadora dos pés descalços começou a ser apresentada depois que eu tive uma inflamação cerebral e para mim foi o que eu chamo de tsunami existencial e fiz uma promessa, uma barganha com deus que se ele me oferecesse mais bônus de tempo e se ele me desse a condição de ficar em pé de novo e lembrando dos conhecimentos que eu tinha estudado até então, eu faria descalça". Assim foi. Há quatro anos é como ela se apresenta. Descalça e sempre com seus tsurus. "Todas as vezes que eu entro em solo sagrado - salas de aula, consultório de psicologia e palestras – eu entro descalça. Sou conhecida assim inclusive para reverenciar a vida, pela vida e é um jeito de eu levar esperança. Um jeito de trabalhar com prevenção ao suicídio é levar esperança para as pessoas".

Esse é o trabalho de Karina há praticamente sua vida inteira. Estudiosa da suicidologia e com foco no trabalho de prevenção, posvenção e acolhimento da vida, como define sua atuação, é autora de livros e pós-doutora no assunto. Mas sua relação com o tema começou muito antes da vida acadêmica. "Desde os meus 10 anos tenho essa experiência pessoal porque minha mãe tentava suicídio. E eu e minha irmã, dois anos mais velha, salvamos minha mãe das várias tentativas". Nessas frequentes idas ao hospital, Karina começou a observar a postura de profissionais e soube que queria fazer algo para mudar isso. "A gente recebia comentários de profissionais que considero que não são da saúde, são da doença. Diziam para a minha mãe: 'Da próxima vez tente de um jeito mais efetivo para que a gente não perca tempo com a senhora que insiste em tentar se matar'. Nesse momento eu jurei para mim que ia ser uma profissional da saúde e resolvi estudar psicologia com esse objetivo".

Resolvo escrever um livro em 2005 porque foi essa a última vez que minha mãe falou de suicídio.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A fênix e a árvore da vida, símbolos tão presentes na vida de Karina que considera que renasceu das cinzas após descobrir doença rara.

Foi o que fez. Na época em que iniciou os estudos o assunto era muito pouco abordado, inclusive na faculdade – hoje ela avalia que isso melhorou, mas ainda há alguns tabus com o tema. Mas, mesmo assim, sabia que queira se especializar nessa área e seguiu em frente. Fez mestrado fora do país, intensificou seus conhecimentos e levantou essa bandeira como militante mesmo. "Resolvo escrever um livro em 2005 porque foi essa a última vez que minha mãe falou de suicídio. Eu estava grávida daquele que seria meu primeiro filho e ela fala que queria se matar e eu falei para ela ter calma, disse que ela já tinha tentado várias vezes e que a hora da morte dela ia chegar, assim como chegará para todos nós. Quando eu falei isso, senti uma pontada e abortei. E esse paradoxo entre vida e morte me fez pensar que eu precisava escrever sobre esse tema". Sua mãe ficou sabendo do que havia ocorrido com a gravidez da filha e abraçou o projeto. "Ela me disse que eu já tinha perdido muito e que ela ia ser militante comigo. Minha mãe virou coautora do livro e no lançamento estava comigo, do meu lado".

Fora esse, Karina publicou outros livros autorais, além de ter participado da organização de muitos outros. Mas nunca foi um trabalho fácil. No meio disso, a mãe de Karina adoeceu e, como em outros momentos de sua vida, o lado pessoal e profissional andaram juntos. "Resolvi mudar de foco de trabalho e comecei a ter um interesse em estudar o luto por suicídio. Entro no doutorado com esse tema e minha mãe morre em fevereiro e a minha defesa era em maio. Eu visceralmente vivi esse processo de luto, não de alguém que se matou, mas foi por causa dela que virei suicidologista".

Considero que ressurgi das cinzas porque eu tenho essa crença de que precisamos valorizar nossa vida.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela prefere distribuir sua dedicação em forma de dobradura, com tsurus.

Depois disso tudo, Karina ainda passou por uma grave doença que também gerou essa vivência visceral. Entrou às pressas no hospital com suspeita de esclerose múltipla. Estava com Aden, uma doença inflamatória rara que afeta o sistema nervoso e causa, entre outras coisas, perda de movimento. "Foi um tsunami na minha vida. Meus filhos estavam com 7 e 9 anos na época e eu fiquei pensando como eles iam me conhecer, saber da minha história. No hospital, tive ideias suicidas, achava que não ia dar conta de tudo, precisei identificar o que eu chamo de processo de morrência em mim. Às vezes quando estamos desesperados a gente pensa na morte com possibilidade, mas estou aqui. Considero que ressurgi das cinzas exatamente porque eu tenho essa crença de que precisamos valorizar nossa vida, nossa existência, cada obstáculo que a gente passa é uma superação".

Com a ideia de passar sua história aos filhos, Karina resolveu fazer uma autobiografia e começou a gravar breves depoimentos em seu celular no hospital mesmo e foi uma atividade que a motivou bastante. Quando teve alta, já em casa, começou a se dedicar a organizar tudo que tinha produzido. "O livro foi minha salvação psíquica. Às vezes me pergunto por que deus não me tirou a vida naquele momento e talvez seja para isso: mostrar que sempre tem vida e se tem vida, tem jeito".

Negar algo que está na sua cara e todo mundo sabe causa mais adoecimento.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela trabalha para levar informação, acolher quem passa por isso e lidar com a situação de forma respeitosa.

Recuperou-se e conseguiu retomar o seu pós-doutorado, finalizado em 2017. Hoje, segue com seu trabalho e vê mudanças na área. Uma de suas atividades, aliás, está ligada a algo novo. Karina trabalha o tema em escolas. "Hoje está escancaradamente aumentado o número de suicídios, principalmente de crianças e adolescentes, algo que é chocante. Sempre existiu uma ideia de que o suicídio era contagioso e não podia falar sobre isso na imprensa tanto é que quanto publiquei o livro em 2005 tive três recusas editoriais. Uma delas me falou que não tinha valor mercadológico. Mas existem suicídios acontecendo, acredito que quanto mais a gente nega o que está acontecendo, pior, porque você cria uma perturbação. Negar algo que está na sua cara e todo mundo sabe causa mais adoecimento".

Assim, ela trabalha há tantos anos para discutir o assunto, levar informação, acolher quem passa por isso e lidar com a situação de forma respeitosa. "Um teórico que eu estudo fala que o suicídio é um ato definitivo para um problema temporário. Meu trabalho é de acolhimento à vida, é para que as pessoas não se autodestruam. Se não soubermos olhar para nossa ferida, que é o que eu chamo de extrair flor de pedra, como você vai tirar uma lição do seu sofrimento?"

A gente que precisa se apropriar da nossa história, a gente é superação.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Com a vivência visceral da doença, Karina encontrou a cura para si -- e quer contar o segredo a outras pessoas.

E Karina tirou muitas lições de suas dores e de suas perdas. "Hoje eu entendo que a partir do meu adoecimento eu tive a compreensão de que a gente não pode fugir da nossa história, a gente tem que reverenciar com os pés descalços, os dois pés no chão, nossa vida que é única e não é o outro que vai fazer por nós, é a gente que precisa se apropriar da nossa história, a gente é superação. É isso que me ajuda. A psicologia me salvou como existência".

Por isso continua tão empenhada. É por ela, também, mas é para ajudar os outros. É o que ela procura fazer em todas as suas atividades porque além dessas linhas profissionais todas, Karina faz trabalho voluntário em hospitais como palhaça. Lá, escolheu um nome japonês. Kibô. "Significa esperança. Levo tsurus para os pacientes e levo essa esperança para as pessoas continuarem a trajetória delas".

Kibô, a palhaça da esperança. Hoje, com os 14.500 tsurus feitos, já pode pedir a realização de alguns desejos. Mas ela prefere distribuir sua dedicação em forma de dobradura. Desse jeito, chega a mais pessoas. Pelo menos, é o ela que espera.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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