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09/12/2018 09:04 -02 | Atualizado 09/12/2018 09:22 -02

Novo ensino médio deve melhorar índices do Brasil, diz coordenador do MEC

Base Nacional Comum Curricular dará mais protagonismo ao jovem, defende coordenador-geral do ministério, Bruno Alves de Jesus.

Brazil Photos via Getty Images
De acordo com secretário do MEC, a educação no Brasil não foi colocada como prioridade por anos e o abandono da escola pelo jovem é estrutural.

A nova Base Nacional Comum Curricular do ensino médio (BNCC), aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) na última semana, deve servir como um motor para melhorar a colocação do Brasil nos principais índices internacionais de educação. A opinião é do coordenador-geral de Política Educacional para a Juventude do MEC, Bruno Alves de Jesus, para quem o novo modelo dará "mais protagonismo ao jovem".

Em entrevista ao HuffPost Brasil durante o 1º Encontro de Jovens do Mercosul, em Montevidéu, o coordenador-geral disse que a preocupação ao formular a nova base curricular era de que ela permitisse ao estudante sinalizar "o percurso formativo e profissional que ele deseja ter no futuro".

"Acredito que a educação brasileira vai caminhar na direção correta", disse.

Um dos índices em que o Brasil pode melhorar, segundo Alves de Jesus, é o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Na última edição, realizada em 2015 e divulgada no ano seguinte, o País ficou entre os dez últimos do ranking em ciências (63º) e matemática (65º). Em leitura, ficou na 59ª posição - o que mostra que o Brasil está muito aquém de potências educacionais, como Cingapura e Finlândia.

De acordo com Bruno Alves de Jesus, a educação no Brasil não foi colocada como prioridade por anos e o abandono da escola pelo jovem é estrutural. "A partir do momento que este jovem está fora da escola, ele fica invisível. A partir do momento que não conhece seus direitos, não sabe como cobrá-los", explica.

A nova base curricular servirá como orientação para os currículos de escolas públicas e privadas, definindo o conteúdo mínimo que os estudantes do ensino médio de todo o País devem aprender em sala de aula. De acordo com o texto aprovado pelo CNE, apenas matemática e português serão disciplinas obrigatórias nos 3 anos do ensino médio. Outras, como geografia, física e química, poderão ser lecionadas em 1 ou 2 anos. As mudanças devem entrar em vigor em 2020.

Alguns especialistas na área de educação, no entanto, dizem que o documento é "vago" e pode acarretar em uma formação precária, sem fomentar o pensamento crítico do aluno. A BNCC começou a ser discutida no governo de Dilma Rousseff e, após o impeachment, em 2016, o documento foi modificado pelo governo de Michel Temer, o que gerou uma série de protestos de professores e sindicatos.

"A proposta do MEC pode levar à formação de uma geração de jovens pouco qualificados, acríticos, manipuláveis, incapazes de criar e condenados aos trabalhos mais simples e entediantes", escreveu o sociólogo César Callegari, que deixou a presidência do CNE, em uma carta ao Conselho em julho deste ano.

No encontro em Montevidéu, realizado pela Nestlé, foi lançado o Acordo pela Empregabilidade dos Jovens do Mercosul, no qual mais de 29 empresas se comprometeram a oferecer mais de 40 mil oportunidades de desenvolvimento profissional aos jovens da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, até 2020.

Nestlé Iniciativa pelos Jovens
O secretário do MEC, Bruno Alves de Jesus (segundo da esq. para a dir.), participou do painel "Jóvenes, Empresas y Gobierno" no evento da Nestlé Iniciativa pelos Jovens.

Veja abaixo a entrevista completa com o coordenador do MEC:

Uma pesquisa recente revelou que 23% dos jovens brasileiros são os conhecidos "nem-nem"(não estuda, nem trabalha), e este é o maior índice da América Latina. Como o MEC olha para esses jovens?

Bruno Alves de Jesus: O Ministério da Educação tem preocupação sistemática com a juventude brasileira, vem investindo de todas as formas para fazer com que esse resultado se modifique. Esses números são frutos de anos onde a educação no Brasil, principalmente no ensino básico, não foi levada como prioridade como deveria ser.

Então, logo no início da gestão do presidente Temer, na época então ministro Mendonça Filho, se resolveu fazer a principal mudança na educação brasileira, que é o novo ensino médio, que busca dar mais protagonismo ao jovem, fazendo com que ele sinalize qual é o percurso formativo e profissional ao que ele deseja ter no futuro. No novo ensino médio, 50% da carga horária será voltada para base nacional curricular e a outra metade vai ser definido com base no itinerário do percurso formativo que ele decidir, seja na área de linguagem, na área de matemática, ciências da natureza, e curso técnico profissionalizante. E além disso, com essa preocupação, vem também o MedioTec, que é o ensino técnico, que tem esse objetivo mais especifico e objetivo para preparar esse jovem para o mercado de trabalho.

Como eu falei no evento, o Brasil tem um grande desafio, mais do que gestão, de lei de regulamento, ele tem um desafio cultural, de fazer com que a sociedade principalmente o jovem não enxergue apenas a universidade como um caminho para o sucesso, invista também nos cursos profissionalizantes, tecnológicos, que o Brasil também precisa, e o Ministério da Educação vem trabalhando no fomento de outras áreas, não apenas o ensino superior e a vida acadêmica.

Qual é hoje o principal desafio do jovem brasileiro para conseguir o primeiro emprego?

Tudo começa e passa pela educação. Infelizmente nós temos um número elevado de brasileiros que deixam a escola: 83% de jovens que concluem o ensino médio não conseguem entrar no mercado de trabalho e nem seguem para o ensino superior. Na verdade, a gente precisa, de todas as formas, trabalhar para oferecer a toda criança e jovem uma educação pública de qualidade, respeitando as suas diferenças para que, assim, ela possa ser universal.

Sabemos que isso também é um problema de geração. Temos pesquisas que apontam que, quanto maior for o nível educacional dos pais, maior será o dos seus filhos. Então é um trabalho que já foi iniciado. Com o novo ensino médio, com a política que já foi implementada no ministério da educação, agora também com o ministro Rossieli [Soares, da Educação], acredito que a educação brasileira vai caminhar na direção correta e que vai melhorar todos esses índices.

Como você avalia a educação brasileira neste momento?

Nós estamos trabalhando para cumprir as metas do PNE [Plano Nacional de Educação]. Em algumas metas, estamos bem atrasados, mas existe todo o esforço do MEC para que isso possa ocorrer. Além do mais, principalmente motivado pela evasão escolar, que tem vários fatores - sejam eles sociais-econômicos ou de segurança pública -, nós temos uma preocupação sistemática com a educação de jovens e adultos, porque se existe uma evasão tão grande [temos mais de 1,8 milhão de jovens "nem-nem"], significa que para eles concluírem a educação básica, vão ter que passar pela educação de jovens e adultos. E o MEC tem essa preocupação, que é investir nesse segmento, para fazer com que essa distância entre educação na idade própria e a que não ocorre na idade própria seja reduzida ao máximo - para que esse jovem recupere esse direito a cidadania e possa ser um adulto economicamente ativo.

Na palestra, você comentou que as politicas públicas não chegam aos jovens periféricos, ele não sabe que pode ter voz ativa. O MEC tem algum plano para se aproximar desse jovem?

Naquele momento estava falando das políticas públicas no geral, CNJ (Conselho Nacional de Justiça), nos demais ministérios. O MEC utiliza da própria rede para divulgar as suas políticas, temos apoio do Ministério do Desenvolvimento Social, que trabalha com o programa Bolsa Família, isso nos ajuda a fazer uma busca ativa, a saber onde estão esses jovens, saber em que situação eles se encontram. Em suma, a juventude, de fato, precisa ter conhecimento dos seus direitos. A partir do momento que este jovem está fora da escola, ele fica invisível. A partir do momento que não conhece seus direitos, não sabe como cobrá-los. E a gente observa que eles não têm conhecimento de muitas das políticas públicas oferecidas pelo MEC e pelo governo federal, que existe essa porta de entrada para que possam recuperar um tempo que foi perdido de alguma forma.

Um exemplo que eu posso lhe dar é o da educação de jovens e adultos: ela tem uma particularidade muito grande, porque através das redes de ensino, nós não conseguimos falar com esse jovem. O jovem da EJA [Educação de Jovens e Adultos] não bate à porta da Secretaria da Educação, não bate à porta da escola pedindo aula. Temos que fazer todo um movimento para chegar até esse jovem e fazer despertar nele o interesse pela educação e mostrar que, através da educação, ele pode transformar a sua vida.

Sobre o novo governo Bolsonaro, como está o clima no Ministério da Educação?

O MEC está totalmente de portas abertas para a equipe de transição. Esse encontro já vem ocorrendo desde a semana passada, a transição já está ocorrendo a todo o vapor e tudo o que esperamos agora, independentemente de governo e de questões ideológicas e partidárias, é que se cumpra aquilo que é dever do Estado: oferecer a todo jovem uma educação pública de qualidade, respeitando sua diversidade, para que ela seja universal. Esse é o objetivo do MEC, independentemente do governo.

*A jornalista viajou para Montevidéu a convite da Nestlé.