ENTRETENIMENTO
08/12/2018 17:00 -02 | Atualizado 09/12/2018 12:46 -02

'Tinta Bruta': Diretores analisam filme que ganhou o principal prêmio LGBT do mundo

Filipe Matzembacher e Marcio Reolon conversam com o HuffPost sobre seu premiado longa, que estreou nos cinemas nesta semana.

"O momento sócio político do Brasil nos afetou muito. Boa parte de processo de escrita do roteiro se deu sobre sentimentos como raiva e desespero", disse Marcio Reolon.
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"O momento sócio político do Brasil nos afetou muito. Boa parte de processo de escrita do roteiro se deu sobre sentimentos como raiva e desespero", disse Marcio Reolon.

Logo em seu segundo longa de ficção, Tinta Bruta, que estreou nos cinemas na quinta-feira (6), a dupla Filipe Matzembacher e Marcio Reolon conquistou o principal prêmio do cinema LGBT no mundo, o alemão Teddy. Além disso, o filme dos cineastas gaúchos também ganhou os prêmios de Melhor Filme, Roteiro, Ator e Ator Coadjuvante do Festival do Rio, que aconteceu em novembro.

Na trama, Pedro (Shico Menegat) é um jovem homossexual que vive acuado em um apartamento no centro de Porto Alegre que divide com sua irmã mais velha. Enquanto ele espera o veredito de um processo em que é réu em um caso de agressão, ele ganha dinheiro fazendo performances sensuais na internet. Apenas nesse ambiente online, ele pode ser ele mesmo, usando tintas neon como forma de expressão. Porém, quando ele descobre que outra pessoa está fazendo um show parecido com o seu e "roubando" sua clientela, seu mundo pode mudar radicalmente.

Matzembacher e Reolon conversaram com o HuffPostsobre o filme, a repercussão dos prêmios, suas influências e o quanto a conturbada realidade política do Brasil nos últimos anos afetou seu trabalho.

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: Por que vocês quiseram fazer um filme sobre pessoas indo embora, sobre abandono?

Marcio Reolon: A vontade inicial começou muitos anos atrás. Nós somos de Porto Alegre e faz tempo que sentimos que a cidade tem se tornado um lugar mais hostil para os jovens. Principalmente quando entra na fase adulta, a maioria desses jovens tende a ir embora da cidade. Enquanto estávamos escrevendo o roteiro do filme, percebemos que dos nossos 10 amigos mais próximos, 6 ou 7 deles já não moravam mais em Porto Alegre.

Filipe Matzembacher: Acho que isso é muito reflexo de um olhar que não privilegia o convívio social, a rua, a comunidade. Isso vai fazendo que a cidade vá se enclausurando, vá se fechando. Acaba se tornando uma cidade muito fria no convívio social, como uma cidade fantasma. É exatamente esse quadro que queríamos retratar no filme. Para nós era muito interessante criar um personagem que sofria de uma síndrome de abandono. Ele vai tendo essas diversas partidas ao redor dele.

Para quem não é de Porto Alegre, a visão que se tem da cidade não é esse lugar tão desolador e até opressor que é mostrado no filme...

FM: Se você conversar, especialmente com a juventude de lá, as pessoas vão se identificar com essa visão passada no filme. Porto Alegre já foi uma cidade muito progressista e interessante. Ainda temos essa memória viva da Porto Alegre com pessoas na rua, dos bares, da vida cultural efervescente, do Fórum Social Mundial [que aconteceu em 2001]. Mas essa cidade já não existe mais. Pelo menos daquela maneira. Eu acho que o esquecimento do espaço público enquanto um espaço de todos fez que a cidade fosse perdendo um pouco dessa cor. E nós quisemos esteticamente passar essa sensação no filme. Aquele centro em que o Pedro vive é um centro sem cor, meio em ruínas. As pessoas que vivem lá são quase fantasmas.

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Shico Menegat e Bruno Fernandes em uma das performances de Pedro e Leo em "Tinta Bruta".

Como o clima político do País nos últimos anos afetou a construção do filme?

MR: Afetou muita coisa. A gente escrevia esse filme entre 2015 e, principalmente, 2016, que foi um momento bem complicado. Isso nos afetou muito. A partir do momento em que você vê a democracia do País ruindo e você começa a perder a fé nas instituições, isso afeta sua visão de futuro. Sabemos que as primeiras pessoas a sofrer os efeitos disso são os grupos que historicamente são marginalizados. E isso foi muito violento para nós. Boa parte do processo de escrita do roteiro se deu sobre sentimentos como raiva e desespero.

FM: Já tínhamos a ideia dessa cidade "porto" e de um personagem que passa por uma situação de perseguição, mas também de resistência. De como é importante ele encontrar espaços mesmo em uma cidade que não te quer na rua. A importância de criar um grupo de afeto que vai fazer que você passe por esses tempos mais difíceis com menos sofrimento. A situação política e social é essencial para nossa história. Sempre pensamos no nosso filme dentro desse contexto.

O final mais esperançoso foi até uma surpresa considerando todo o clima opressivo do resto do filme...

FM: Não nos interessava explicar o que a instituição judiciária [durante o filme, Pedro espera pela resultado de um julgamento] tinha a dizer sobre o Pedro. O que nos interessava era a jornada psicológica dele, as relações que ele acabava desenvolvendo e como ele reagiria a elas. Para nós era muito importante criar um personagem homossexual que fosse reativo. Um ponto que sempre discutíamos era: como vamos conseguir criar um personagem que sofre essas opressões? Porque há um vício na retratação do homossexual na tela como um personagem que é só vítima. Para nós, era muito importante que ele fosse um personagem que nunca deixasse de reagir. Esse é um elemento que para nós sempre foi muito importante. Eu vejo aquele final e sei que o Pedro nunca vai deixar de reagir. Por isso achamos importante terminar daquele modo.

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O ator Shico Menegat (esq.) e os diretores Marcio Reolon (centro) e Filipe Matzembacher (dir.) recebendo o prêmio Teddy, no Festival de Berlim.

Como foi para vocês ganhar o Teddy e o Festival do Rio, premiações de caráter bem distinto entre elas?

FM: Foram experiências muito legais. Ambos são prêmios vencidos por vários realizadores que amamos e nos inspiramos. Mas mais legal ainda é ver um retorno tão positivo de olhares diferentes, de plateias diferentes. O Teddy é mais focado em filmes queer/LGBT+ e o Festival do Rio tem um júri muito diverso. Ver dois prêmios tão diferentes tendo esse carinho com o filme foi incrível. É muito motivador.

Como surgiu a ideia das tintas?

MR: Quando definimos a profissão do personagem, que ele seria performer de webcam, queríamos muito que ele tivesse alguma marca registrada. Algo que fosse principalmente visual. Queríamos muito trabalhar essas questões visuais, como a textura de imagem da webcam. Pensamos em elementos que poderiam corresponder bem a isso, e a ideia que mais nos agradou foi a das tintas neon, que para nós fazia total sentido, porque há uma relação das tintas com a própria existência queer. Algo que é performático e que obrigatoriamente te destaca de uma multidão cinza, heteronormativa. Isso é muito o que o Pedro vai viver no dia a dia dele quando ele está na rua, por mais que ele tente passar desapercebido, ele usa roupas que são até bastante pequenas para ele, como se ele já tivesse crescido para usar aquelas roupas. E uma vez que ele está em seu quarto ele consegue se expor e se expressar por meio de suas tintas. Por isso eu acho que o final é muito representativo para contar a jornada dele. Sem a ajuda de tinta nenhuma, ele consegue estar no meio de uma multidão – de que antes ele tinha fobia – dançando e mostrando um brilho próprio.

Vocês falaram de influências. É claro que cada um vê elementos que fazem parte de suas próprias referências, por isso mesmo vi muito de o Wong Kar-wai [cineasta de Hong-Kong] no filme. Ele é um influência para o filme? Quais vocês poderiam ressaltar?

MR: Interessante você falar isso. O Wong Kar-wai é um cineasta que a gente gosta bastante, mas não pensei na obra dele como uma influência direta no filme.

FM: Acho que ele é um cara que tem uma preocupação grande de fazer filmes com afeto, e isso combina muito com o que nós queremos.

MR: Dentro dos que vejo como uma influência mais direta ao Tinta Bruta tem o Fassbinder [Rainer Werner Fassbinder, cineasta alemão], Derek Jarman, Claire Denis...

FM: Acho que o Paul Morrissey também. Ele lida com questões relacionadas à atuação que nos interessa muito.

MR: Essa naturalização do corpo nos interessa muito. Falando nisso, também acrescento a Chantal Akerman a essa lista. E Nelson Pereira dos Santos.

FM: Buscar a humanidade é uma questão que a gente vê como essencial para exemplificar aquelas pessoas/personagens na tela. Acho que esses são aqueles que nós sempre acabamos revisitando de uma maneira ou de outra dentro do processo de construção do filme.

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"Pedro certamente estará pronto para reagir nessa 'era Bolsonaro'", afirma Filipe Matzembacher.

Como vocês acham que seria a vida do Pedro no governo Bolsonaro?

FM: Não sei. Ele surgiu na pré "era Bolsonaro", mas com todos os indícios de que isso poderia acontecer. E como comentamos antes, ele certamente estará pronto para reagir. Ele percebeu a importância de estar rodeado de pessoas, e esse misto de afeto e de luta nunca vai deixar de existir para ele.

MR: Acho que cada vez mais o grupo se mostra importante. De estarmos juntos e nos ajudar. Isso é fundamental.

FM: Acho que o Pedro demonstra que aprendeu isso. Ele vai resistir.

Quais os filmes brasileiros te marcaram neste ano?

FM: Dos que estrearam já, tem o Histórias que nosso Cinema (não) Contava, que é um filme que olha para o nosso cinema entendendo a importância de ter uma arte mais plural para que consigamos compreender melhor nosso próprio País.

MR: Deixa eu ver aqui no meu Letterboxd [rede social de preferências de filmes].

FM: Ah, tem o Benzinho também! Eu acho que é um filme muito legal porque ele faz um exercício desse olhar do afeto. Isso é algo essencial para nós. É um filme que transborda afeto nas relações humanas e isso é um ponto bem interessante. Eu acho que o Benzinho é um filme que me marcou bastante. Outro é o Arábia. Ele consegue trazer uma outra perspectiva, dá voz a uma parcela muitas vezes esquecida no cinema nacional e também traz essa questão do afeto.

MR: Tem o Baronesa também.

FM: Sim! É um olhar super interessante da Juliana [Antunes, diretora do documentário]. É um filme muito especial.