MULHERES
08/12/2018 15:05 -02 | Atualizado 08/12/2018 15:43 -02

João de Deus é acusado de abuso sexual por mais de 12 mulheres

Vítimas denunciaram médium ao jornal "O Globo" e ao programa "Conversa com Bial", da TV Globo.

Após denúncias virem a público, médium negou ter cometido qualquer ato de violência sexual.
ASSOCIATED PRESS
Após denúncias virem a público, médium negou ter cometido qualquer ato de violência sexual.
Ele dizia: 'Se você não fizer o que eu estou falando, a sua doença vai voltar'Disse uma das denunciantes ao 'Conversa com Bial'

Em entrevistas ao jornal O Globo e ao programa Conversa com Bial, da TV Globo, mulheres denunciaram o médium João de Deus, de 79 anos, por cometer abusos sexuais contra elas no momento em que procuraram auxílio espiritual na Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO). Em nota, o médium negou e rechaçou "veementemente" as acusações contra ele.

De acordo com informações do jornal O Globo, os casos teriam acontecido entre 2010 e fevereiro de 2018, e 12 mulheres denunciaram à imprensa os casos de violência sexual. Deste número, o jornal ouviu 8 delas. Já o programa do jornalista Pedro Bial afirmou ter ouvido 10 depoimentos, mas apenas 4 deles foram ao ar na noite desta sexta-feira (7).

Reprodução/TV Globo
A coreógrafa Zahira Lieneke Mous fala sobre o abuso sexual sofrido na Casa de João de Deus.

A coreógrafa holandesa Zahira Lieneke Mous foi a única vítima que aceitou ser identificada. Em entrevista ao Conversa com Bial, ela afirmou que procurou a "Casa" com três objetivos, um deles se curar de um abuso sexual sofrido no passado. "É um cenário bem bizarro. Você, de certa forma, se sente especial, acha que vai receber a cura", disse.

Mous contou que foi orientada a ter uma consulta em um ambiente particular com João de Deus. Segundo ela, o cômodo contava com um banheiro grande e que nele tinha um sofá. No local, a coreógrafa ficou sem reação quando o médium a virou de costas e colocou sua mão para trás, na altura de seu pênis. Em um outro momento, ele a virou de joelhos de frente para ele, com a intenção de forçá-la a masturbá-lo.

Enquanto isso, ele continuava falando da minha família e disse que eu deveria sorrir.

Ela contou que, em um segundo momento, ele a levou no mesmo local e teve uma atitude com o mesmo padrão, mas deu um passo adiante penetrando-a por trás e oferecendo joias a ela. "Ele abriu a calça, colocou a minha mão no pênis dele e começou a movimentar a minha mão. Eu estava em choque. Enquanto isso, ele continuava falando da minha família e disse que eu deveria sorrir (...). Depois, ele se limpou, me levou ao escritório, abriu um armário de pedras preciosas e mandou escolher a que eu mais gostasse."

A coreógrafa conta que durante 4 anos entrou em estado de negação do fato e que, na época, acreditava que poderia ser treinada como médium para ajudar outras pessoas. Por esses motivos, ficou em silêncio. Ela afirmou que, após um tempo, entendeu que precisava lidar com esse e outros traumas e decidiu compartilhar a história nas redes sociais.

"Tinha muito medo deles mandarem espíritos ruins, da minha vida se tornar miserável, de não conseguir dormir", afirmou. "Se fosse só eu, eu que engula, porque ele está curando milhares de pessoas, certo? Mas agora eu sei que ele está abusando de centenas de mulheres e meninas. Sei que muitas mulheres foram afetadas e por isso que estou aqui."

Reprodução/TV Globo
Cerca de 12 mulheres denunciaram o médium João de Deus por abuso sexual.

Durante o programa, Bial ouviu ainda 2 brasileiras que também relataram abusos cometidos por João de Deus sob condição de anonimato.

Em depoimento, a primeira entrevistada afirma que procurou a "Casa" em 2009, quando buscava a cura para um problema de visão que seu filho tinha à época. Ela diz ter frequentado o local por anos, até buscar ajuda para superar um divórcio, em 2013. Atendida de forma "particular" pelo médium, ela relatou que também sofreu abusos:

"Ele disse que sabia que eu estava lá pelo divórcio, que ia fazer uma limpeza energética em mim", contou. Disse que eu precisava daquela energia que só viria daquela maneira. Quarenta e cinco dias depois, voltei sozinha e a entidade me pediu para ir vê-lo novamente. Fez tudo de novo".

A segunda entrevistada contou que procurou tratamento espiritual após descobrir um câncer de mama. Na companhia do marido, ela disse que fez uma cirurgia espiritual comunitária no começo de 2018 e precisou voltar um mês depois e também foi atendida de forma privada pelo médium.

"Ele disse que estava quase curada, que eu tinha que prometer a ele que não podia dizer a ninguém sobre o processo de cura. Achei estranho, mas estava muito desesperada. Tinha muita confiança nele", disse. "Senti o membro dele nas minhas nádegas, ele comprimindo meu corpo. Comecei a chorar e pensava: 'Como vou sair daqui?".

Tanto as denúncias ouvidas pelo O Globo quanto pelo Conversa com Bial, revelam um padrão de comportamento em comum. As vítimas tinham entre 30 e 40 anos, foram desacompanhadas à Casa de Dom Inácio e afirmam que o médium -- que estaria incorporado no momento -- indicava que deveriam encontrá-lo em particular e os abusos relatados pelas vítimas eram justificados como "limpeza espiritual".

As respostas de João de Deus às acusações

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Médium João de Deus realiza cirurgia espiritual em sua "Casa", em Abadiânia (GO).

João Teixeira de Faria, conhecido como "João de Deus", é um médium brasileiro conhecido internacionalmente. Desde 1976, ele realiza atendimentos espirituais na casa que batizou de "Dom Inácio Loyola", localizada em Abadiânia, no interior de Goiás. A cidade, de menos de 19 mil habitantes, chega a receber até 10 mil pessoas por mês em busca de cura para doenças e orientação espiritual.

O documentário João de Deus - O silêncio é uma prece, sobre sua vida e a rotina de atendimento espirituais foi lançado em maio deste ano. Com fama internacional, em 2012, João de Deus recebeu a apresentadora Oprah Winfrey para uma entrevista em Abadiânia.

"Foi uma experiência muito forte. Eu ainda estou processando o que aconteceu. Eu estou maravilhada", disse a apresentadora em uma rápida conversa com o G1 à época.

Ao programa Conversa com Bial, a assessoria de João de Deus afirmou, por meio de uma nota, que as acusações contra ele são "falsas e fantasiosas" e que "apesar de não ter sido informado dos detalhes da reportagem, ele rechaça veementemente qualquer prática imprópria em seus atendimentos".

O texto também questiona o motivo pelo qual as vítimas não procuraram as autoridades antes e afirma também que "a sala em questão é pública, qualquer um tem acesso a ela e jamais fica trancada".

A assessoria ainda afirma que a situação "é lamentável, uma vez que o Médium João é uma pessoa de índole ilibada".

Ao programa de televisão e ao jornal, vítimas relataram que não procuraram a polícia logo após os abusos por medo de serem perseguidas. Pelo mesmo motivo pediram para não serem identificadas pelas reportagens tanto impressa quanto televisiva.

Segundo o Globo, esta não é a primeira vez que ele é acusado de crimes sexuais. Ele já foi acusado de sedução de menor, atentado ao pudor, contrabando de minério e por assassinato, mas não foi considerado culpado em nenhum deles.