09/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 30/01/2019 16:56 -02

Lais Bernardes e a preservação da dança folclórica brasileira

Professora criou há 12 anos Grupo Zanzar para difundir danças brasileiras pela cidade do Rio de Janeiro.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Lais Bernardes é a 277ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

A capoeira foi o primeiro amor, mas não o último. A partir dela Lais Bernardes, de 45 anos, se reconectou com outras expressões artísticas e adotou para a vida a missão de, coletivamente, difundir e ocupar espaços da cidade com ritmos e danças que não estão tão presentes no cotidiano da maioria dos brasileiros, mas são fundamentais para contar a nossa história. Amante das danças, ela amplia sua paixão entre as aulas que leciona para universitários e nos encontros semanais do grupo.

Filha de mãe baiana e pai cearense, Lais é carioca. Nasceu no Rio, onde a família - de sangue e de afeto - se reunia para celebrar as danças e a cultura nordestina. "Eram encontros de pessoas que encontraram no Rio de Janeiro um espaço de transgressão, mudança. Pessoas que tinham um desejo de um mundo melhor diante do que estava vindo, que eram os anos 1970", conta.

Entendi que as danças tradicionais brasileiras tinham um papel importantíssimo na formação da dança brasileira.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Foi a partir da capoeira que Lais se reconectou com outras expressões artísticas.

Este primeiro contato desabrochou em 1988, durante uma apresentação que viu em sua escola de uma mulher capoeirista. Ali, passou a frequentar encontros da arte que mistura esporte e música. "Nesses encontros eu entendi que as danças tradicionais brasileiras tinham um papel importantíssimo na formação da dança brasileira, da corporeidade brasileira", relembra ela, com a fala de quem tem a certeza de que defende a coisa certa.

Em 1993, na Faculdade de Educação Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), conheceu a Companhia Folclórica do Rio de Janeiro. O desejo de cursar dança na universidade não pode acontecer porque, nos anos 1990, a universidade não oferecia ainda o curso. Na companhia, Lais conta que descobriu qual seria sua área de atuação.

"Vi que há um campo de pesquisa que fazia sentido para mim: política, generosa, inclusiva, atuante e nossa. Ela mexe não só com o corpo, mas com os sentidos, com os afetos e tem uma pegada que me interessa. Então nesse paralelo fui buscando uma formação não só na educação física, mas também junto à dança contemporânea e às danças brasileiras", explica.

Ela mexe não só com o corpo, mas com os sentidos.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Vi que há um campo de pesquisa que fazia sentido para mim: política, generosa, inclusiva, atuante e nossa."

Hoje, ela forma futuros professores e leciona na disciplina Folclore e Técnica da Dança, no mesmo curso em que se formou, e enfrenta adversidade de desmistifcar o que é o folclore: "A maioria das pessoas chega com discurso que folclore é saci, boitatá, curupira... E aí quando começamos a abrir esse leque, com documentários, mestres e pede para sair da universidade, recomenda a casa do jongo, as rodas culturais, o mundo se abre".

Para a professora, é importante retomar a inclusão da prática de dança nas aulas de educação física no ensino básico.

"Nas escolas, a educação física quase não trabalha a linguagem da dança, apesar de ser um espaço possível. A dança não aparece sistematicamente ali. Quando ela aparece, aparece em pontos isolados, espaços festivos. A gente vê também que ela aparece em sistemas extra-classe e com uma força eurocêntrica muito grande, em expressões culturais que são até bárbaras, mas podemos dar espaço para outras, em outros contextos e territórios. Temos que buscar outros territórios", analisa Lais.

Os outros territórios, explica a professora, são aqueles que nos presenteiam com a cultura do coco, jongo, samba, frevo e outras expressões mais. Percebendo a necessidade de expandir o acesso para além dos muros da universidade, Lais criou o grupo Zanzar, em 2006: "Vi que tinha possibilidade de difundir esse conhecimento, criar essa acessibilidade cultural para quem não estava dentro da universidade. O grupo vem com a energia de colocar essa corporeidade e oralidade para o mundo".

O Zanzar não é só meu, somos muitos, no grupo e na parceria.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje, ela forma futuros professores e leciona no mesmo curso em que se formou.

E completa: "O Zanzar não é só meu, somos muitos, no grupo e na parceria. Tem que ser, não adianta. Porque a cultura do coco eu posso até dançar, mas preciso do outro pra cantar, pra tocar. Tem todo um campo simbólico que é importante".

O Zanzar tem oficinas semanais no Circo Voador, local escolhido por Lais para fazer as fotos que ilustram esta matéria e em toda última quinta-feira do mês, ocupam a praça dos Arcos da Lapa para dançar na rua. Mas o principal mote do grupo são os bailes, promovidos periodicamente com a potência de entrarem de vez no calendário carioca. O próximo acontece no Dia Nacional do Forró, e Lais lembra de "pedir licença", sempre com muito respeito, quando dedica-se a um ritmo.

Essa entrega à dança é extremamente potente e coloca seu corpo atento para outras funções.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"O Zanzar não é só meu, somos muitos, no grupo e na parceria."

"O próximo passo é fortalecer o baile, colocar o baile num lugar bacana, pra ter a alegria de se encontrar. E as oficinas são para fortalecer esse corpo movente, que dança. Essa entrega à dança é extremamente potente e coloca seu corpo atento para outras funções, empodera muito. Quando a gente se move, fica mais seguro para o que é capaz", define.

A dançarina que fala com o corpo, mesmo sem música, ressalta que o respeito é fundamental para lidar com profissões que exaltam a cultura de quem veio antes de nós. "A missão do Zanzar é difundir e respeitar o passado: africanos, ameríndios, os homens e mulheres que lutaram tanto, e que não têm, às vezes, espaço e reconhecimento. Nunca podemos desrespeitar", pontua.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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