POLÍTICA
07/12/2018 00:30 -02 | Atualizado 07/12/2018 14:46 -02

Damares Alves: O que pensa a futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos

Advogada, educadora e pastora evangélica é contra legalização do aborto e a favor da proteção e visibilidade de mulheres ribeirinhas e ciganos.

Damares Alves assumirá ministério do governo Jair Bolsonaro com a missão de defender a infância e o "direito à vida".
SERGIO LIMA/AFP/Getty Images
Damares Alves assumirá ministério do governo Jair Bolsonaro com a missão de defender a infância e o "direito à vida".

Anunciada nesta quinta-feira (6) como chefe do recém-criado Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo Jair Bolsonaro (PSL), Damares Alves se autodefine, antes de tudo, como mulher e mãe.

"Sou educadora, advogada, mas, antes de tudo, sou mulher e sou mãe. Sou também pastora evangélica."

Damares Alves também acumula experiência de mais de 20 anos como assessora jurídica no Congresso Nacional. Seu último cargo foi no gabinete do senador Magno Malta (PR-ES), aliado de Bolsonaro que acabou ficando de fora do novo governo.

Sou educadora, advogada, mas, antes de tudo, sou mulher e sou mãe. Sou também pastora evangélica.

A futura ministra diz ter sido escolhida pelo presidente eleito para dar atenção especial à infância.

"Nunca a infância foi tão atingida como nos dias de hoje. Vamos propor um pacto pela infância. A infância vai ser prioridade neste governo", disse em sua primeira entrevista coletiva após ser anunciada ministra, em Brasília.

Damares Alves conta que sua trajetória na educação infantil começou nos anos 1980, quando foi professora e trabalhou com menores em situação de rua e usuários de drogas. Ela afirma ter sido estuprada aos 6 anos de idade e diz que o abuso lhe motivou a lutar pela defesa dos direitos das crianças.

Contra o aborto

Outra prioridade da gestão será a defesa do "direito à vida". A futura ministra é contra a legalização do aborto e afirma admitir a interrupção da gravidez apenas nos 3 casos previstos em lei: quando a gravidez é resultado de estupro; quando há risco de morte para a mãe; e em casos de feto anencéfalo.

"Nós queremos um Brasil sem aborto. Um Brasil que priorize políticas púbicas de planejamento familiar. Que o aborto nunca seja considerado e visto nesta nação como um método contraceptivo", afirmou nesta quinta-feira.

Nós queremos um Brasil sem aborto. Um Brasil que priorize políticas púbicas de planejamento familiar.

Damares afirma, contudo, que não se pronunciará sobre aborto na condição de ministra. A pauta, diz ela, deve ser discutida pelo Congresso Nacional. "Esta pasta não vai lidar com o tema do aborto. Vai lidar com proteção de vida, e não com morte", afirmou.

Ao UOL, a futura ministra disse que não encara o aborto como questão de saúde pública. "Existem mulheres que buscam aborto e morrem, mas esse número não é tão grande. Primeiro, vou levantar os dados exatos, ver quem está morrendo. Mas não considero tema de saúde pública."

Em um dos vídeos no YouTube com suas falas, ela afirma que é "o momento de a igreja ocupar a nação". "É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar."

Mulheres ribeirinhas

Damares conta que já trabalhou com camponesas e pescadoras e afirma que a pasta da Mulher dará visibilidade a essas brasileiras "anônimas e invisíveis".

"Será prioridade a mulher ribeirinha, pescadora, catadora de siri, quebradora de coco. Essas mulheres que estão anônimas e invisíveis virão para o protagonismo nesta pasta", disse a jornalistas. Ela afirma, ainda, que há mais de 1 milhão de ciganas e ciganos no Brasil e que dará visibilidade a essa população.

A futura ministra já deu declarações controversas a respeito do que compreende ser o papel da mulher na sociedade. Em entrevista publicada em março pelo site conservador Expresso Nacional, Damares Alves disse que "a mulher nasceu para ser mãe".

"A mulher nasceu para ser mãe. Também, mas ser mãe é o papel mais especial da mulher. A gente precisa entender que a relação dela com o filho é uma relação muito especial. E a mulher tem que estar presente."

A mulher nasceu para ser mãe. Ser mãe é o papel mais especial da mulher.

Para ela, o modelo ideal de sociedade seria um em que a mulher pudesse cuidar da casa e dos filhos, enquanto ao homem caberia o sustento da família.

"Costumo brincar de como eu gostaria de estar em casa a tarde toda, em uma rede, e meu marido ralando muito para me sustentar e me encher de joias. Esse seria o padrão ideal da sociedade. Mas não é possível. Temos que ir para o mercado de trabalho", disse, na mesma entrevista.

Damares é mãe adotiva de uma indígena atualmente com 20 anos de idade.

Funai e questão indígena

O novo ministério também será responsável pela gestão da Funai (Fundação Nacional do Índio), cujo papel é promover políticas para as populações indígenas. Hoje, a entidade está abrigada no Ministério da Justiça. Grupos indígenas fizeram nesta quinta um protesto em frente à sede do governo de transição para pedir que a Funai permanecesse na Justiça, mas não foram atendidos.

A futura ministra é uma das fundadoras da ONG Atini - Uma Voz Pela Vida, que atua para "erradicar o infanticídio nas comunidades indígenas", segundo descrição no site da entidade.

Alegando que só soube na quarta-feira (5) que sua pasta ficaria com a Funai, Damares disse que ainda não conversou com o presidente eleito sobre demarcação de terras indígenas, a demanda mais importante dos povos tradicionais, mas adiantou que não concorda com algumas demarcações.

Sobre demarcação [de terras indígenas], vamos ter que conversar sobre isso. Eu questiono algumas áreas indígenas, mas é um assunto que vamos discutir.

Bolsonaro já se manifestou diversas vezes contra o que considera uma "indústria da demarcação de terras". O presidente eleito costuma dizer que o índio quer ser "gente como a gente" e chegou a comparar indígenas em reservas a "animais em zoológicos".

"Sobre demarcação [de terras indígenas], vamos ter que conversar sobre isso. Eu acredito que o presidente tinha informações muito importantes e embasamento para falar isso. Eu, particularmente, questiono algumas áreas indígenas, mas isso é um assunto que vamos discutir", disse Damares.

Para ela, "índio não é só terra". "Índio não é só terra; índio também é gente."

Direitos LGBT

Questionada na coletiva sobre direitos da população LGBT, a futura ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos disse que esta é uma pauta "delicada".

"A pauta LGBT é muito delicada, mas minha relação com os movimentos LGBT é muito boa. Eu tenho entendido que dá para ter um governo de paz entre o movimento conservador, o movimento LGBT e os demais movimentos."

Damares disse ao Globo que o direito ao casamento homoafetivo não está em risco. Com medo de que o governo Bolsonaro tome alguma decisão no sentido de acabar com o direito à união, garantido pela Justiça desde 2011, casais homoafetivos têm antecipado o casamento.

"É uma questão que já está praticamente definida no Brasil. É uma conquista deles. Direitos conquistados não se discute mais. Então, pra mim, é uma questão vencida, tanto é que o movimento gay nem tem mais isso como pauta, é uma questão superada, um direito civil garantido", disse a futura ministra.