ENTRETENIMENTO
06/12/2018 06:00 -02

'As Viúvas', um filme estiloso sobre assalto que na verdade fala dos EUA pós-2016

É mais do que um mero filme de assalto, é um retrato rematado das disparidades de raça e poder nos Estados Unidos.

'As Viúvas' está em cartaz nos cinemas brasilerios.
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'As Viúvas' está em cartaz nos cinemas brasilerios.

Aviso: spoilers leves pela frente.

Alguns dos melhores filmes sobre raça na América – na realidade, sobre a própria América – não são filmes que tratam especificamente da América ou da questão racial. Como, por exemplo, A Noite dos Mortos-Vivos ou, mais recentemente, Se a Rua Beale Falasse, de Barry Jenkins. Esses filmes relatam histórias universais, com temas profundos que trazem o significado de ser americano como parte de sua própria tessitura, mas ele raramente é declarado explicitamente. Não são filmes pedantes ou moralistas, e em muitos casos revelam algo sobre a cultura americana atual de modo muito mais profundo do que Crash – No Limite ou A Outra História Americana.

É esse o caso de As Viúvas.

Sendo o primeiro trabalho de Steve McQueen depois de 12 Anos de Escravidão, As Viúvas pode parecer algo que difere completamente dos três filmes anteriores do diretor (os trabalhos abertamente sociopolíticosShame e Hunger completam sua obra). As Viúvas é um filme de ação sobre um assalto e foi promovido como tal. No entanto, vários elementos intencionais o ligam às mensagens de 12 Anos de Escravidão, muito mais que às de Oito Mulheres e Um Segredo, por exemplo.

Escrito por McQueen e Gillian Flynn, esta a autora do romance Garota Exemplar, o filme é mais ou menos baseado numa série britânica que ficou no ar por duas temporadas na década de 1980. Longe do clima de telenovela da série de 1983, esta versão da história é mais violenta e intransigente. Quatro mulheres lideradas por Veronica, a personagem de Viola Davis, perdem seus maridos após um crime que deu errado. Para acertar contas e poder começar bem sua vida nova, elas procuram realizar um último assalto, elas próprias. Os trailers do filme trazem explosões, perseguições de carros em alta velocidade, vilões sinistros e Viola Davis vomitando falas tipo "ninguém pensa que temos os colhões para dar conta disso!"

Em meio às frases de efeito e aos efeitos pirotécnicos, As Viúvas é uma fusão fascinante de gêneros, um misto de filme sobre um assalto e drama político. Veronica recruta as outras viúvas para darem um golpe de US$5 milhões, em parte porque está quebrada e em parte porque um gânster e político de Chicago está procurando os US$2 milhões que seu marido, Harry Rawlins (Liam Neeson) roubou antes de morrer. As viúvas têm um mês para realizar o assalto e devolver o dinheiro –ou encarar as consequências.

Mas essa é apenas a superfície de As Viúvas. Um resumo conciso e sem spoilers passa por cima da corrente subjacente de tensão política e racial que borbulha sob esse retrato cinematográfico da América pós-2016.

Se a maior consequência da eleição foi uma amplificação tenebrosa das disparidades de poder (antes mais evidentes para alguns que para outros), As Viúvas pode ser visto como uma alegoria dessas disparidades. A história fala de quem optamos por empoderar e o que acontece quando o fazemos. É uma história sobre a inevitável alteração de paradigmas e de quem enxergamos como heróis. É sobre a tensão de poder entre pessoas reais – entre mulheres negras e homens brancos apaixonados, entre mulheres brancas que parecem não ter consciência de sua situação privilegiada e mulheres negras que têm plena consciência, entre homens negros em busca de poder e homens brancos que sempre o tiveram.

A identidade e o desejo formam duas pontas de cada cabo de guerra, uma dinâmica que se evidencia em várias cenas ao longo do filme. Como quando Veronica busca abrigo na casa da também viúva Alice (Elizabeth Debicki), que critica Alice por sair com outro homem rico tão pouco tempo após a morte de seu marido. A discussão esquenta e Veronica dá um tapa na mulher mais jovem. Alice reage com outro tapa. Em 2018, uma cena em que uma mulher negra dá um tapa numa garota branca por desrespeitá-la e a garota branca a estapeia de volta, dizendo "não quero mais saber de mandarem em mim", é carregada de ironia. A ironia não foi engano.

Tampouco o foi uma cena anterior em que Jamal Manning (Brian Tyree Henry), um bandido que também é candidato a vereador, visita Veronica para perguntar por que seu marido roubou 2 milhões de dólares dele e onde está o dinheiro. Ele anda pelo apartamento elegante de Veronica (que nem pertence a ela) e a zomba cruelmente dos anos que ela passou como esposa de um criminoso branco rico. Agora que seu marido morreu, ele diz, "você não é mais nada. Bem-vinda de volta."

Apesar de sua violência e de seus gestos agressivos, os vilões técnicos acabam não passando de engrenagens de uma máquina.

Muita coisa no filme está ligado a esse "bem-vinda de volta" – a ideia de que, na América a proximidade com a grandeza quer dizer proximidade com pessoas brancas e o poder que isso confere; essa ideia de que o poder da brancura é uma porta pela qual alguém pode entrar e que essa porta está eternamente aberta ou fechada para certas pessoas. É o que o próprio Jamal dá a entender quando seu irmão lhe pergunta por que ele quer entrar para a política, afastando-se da vida do crime, que até agora foi lucrativa para ele.

"Quero o que eles têm", é a explicação de Jamal. "Poder."

No caso das viúvas, o tipo de poder do qual Jamal fala sempre lhes foi acessível por associação – nunca foi seu direito natural nem algo do qual pudessem se apossar. Mesmo Veronica, com sua proximidade máximo à brancura, lamenta essa realidade diante da morte de seu filho, assassinado pela polícia quando dirigia o carro caro de seu pai – uma cena brutal e reveladora sobre o mundo que os personagens habitam, um mundo tão parecido com o nosso.

Como as outras viúvas, Veronica está encurralada numa situação que não foi ela quem criou. Ela está de luto, está sem dinheiro, e sua vida corre perigo. Como ela, todos os personagens sonham com mais do que é seu devido quinhão na vida, se bem que, como diz Jamal a Veronica, "nada que você possa fazer vai mudar sua situação".

Há uma cena na metade do filme onde, depois de um comício desastroso num bairro violento, o candidato Jack Mulligan (Colin Farrell) volta para casa no banco de trás de um carro preto elegante, acompanhado por sua diretora de campanha, que é também sua amante. Ao longo de cinco minutos, várias coisas acontecem ao mesmo tempo: vemos o carro se deslocar por um bairro negro decadente e ir chegando lentamente à parte da rica da cidade, onde Mulligan reside. A vista vai mudando diante de nossos olhos, devagar mas ao mesmo tempo tão repentinamente que é difícil lembrar onde acabou o bairro pobre e onde começou o rico.

Ouvimos Mulligan perguntar várias vezes à sua amante se ela já dormiu com um negro. Nós o ouvimos questionar se vale a pena fazer campanha política, considerando que "essa gente está se matando uns aos outros". Mas não vemos seu rosto em momento algum. Em vez disso a câmera foca o rosto impávido do motorista, um homem negro, enquanto Mulligan lamenta: "Estamos lutando para quê?"

Essa é a pergunta americana que paira no ar. Neste grande experimento, todo o mundo, de todos os estratos da sociedade, a coloca. E todo o mundo pensa que tem a resposta. Assim, As Viúvas é um filme americano porque formula a pergunta de modo retórico. O filme não oferece respostas reais, mesmo depois de ter nos mostrado o lado oculto, político e criminoso, de uma máquina maior movida pela tensão racial, pelo dinheiro e pelo egoísmo de homens (brancos).

Falando em homens brancos, há uma virada inesperada perto do final do filme que, se você pensar bem, só chega a ser chocante realmente por alguns poucos segundos terríveis. Depois disso, faz todo sentido. Quando Veronica vai ao apartamento de uma viúva que não chegou a participar do assalto, vê sua cadelinha branca arranhar loucamente a porta misteriosamente fechada de um quarto. E percebe o que está por trás da porta, sem precisar que ninguém lhe diga.

Sua reação, seu desespero e sua relutância em abrir a porta, tudo isso consolida a inevitabilidade da traição. Ecoa algo implícito: em 2018, existe alguém em quem possamos confiar menos que homens brancos e poderosos?

Os homens brancos não são os vilões declarados da trama de As Viúvas. Os irmãos Manning ocupam esse espaço pela maior parte do filme, uma dupla assustadora que merece ser objeto de sua própria análise. Em vez disso, os homens brancos são símbolos da natureza onipresente do poder masculino branco. Apesar de sua violência e de seus gestos agressivos, os vilões técnicos acabam sendo nada mais que engrenagens em uma máquina. Já os homens brancos são a própria máquina.

Esse é o momento que converte o filme – uma história de assalto muito bem feita, um thriller político – em algo completamente diferente: um espelho sujo dos tempos atuais.

No confronto final do filme, que não vou estragar por completo revelando tudo aqui, Veronica ouve uma confissão que, essencialmente, também é americana: "Não pude salvar nós dois. Então tive que cuidar de mim mesmo!"

A desculpa simboliza uma versão menos idílica da América, uma América na qual homens brancos e poderosos não hesitam em atirar outras pessoas aos leões se isso significa que poderão garantir seu próprio futuro. No passado, nos ensinaram a torcer por esses homens. Mas em As Viúvas, na América pós-2016, o paradigma mudou. Hoje torcemos por Veronica, que atira em seu agressor antes que ele possa atirar nela. Esse é o momento que converte o filme – uma história de assalto muito bem feita, um thriller político – em algo completamente diferente: um espelho sujo dos tempos atuais.

"Nunca antes vi tanta gente branca aplaudir a morte de alguém", escreveu uma amiga minha no Twitter, falando dessa cena. "Os aplausos foram tão altos que pensei que estivessem na minha cabeça."

Intencionalmente ou não, toda arte é um reflexo dos tempos em que foi criada. As Viúvas recebeu o sinal verde para ser feito um ano e meio antes da eleição presidencial americana, mas foi escrito e filmado depois de Trump chegar ao poder. O que o filme faz, mais que tudo, é demonstrar o potencial de um filme desse gênero de refletir a sociedade sem detalhar cuidadosamente todas as coisas terríveis que aconteceram nos últimos dois anos. Esse é o verdadeiro potencial dos filmes sobre assaltos: eles se prestam a simbolizar nossos tempos de modos ao mesmo tempo sutis e nada sutis, podendo servir tanto como entretenimento quanto como comentário social sem complicações.

O filme de McQueen não é um filme feito para transmitir uma mensagem, mas, se o diretor nos deixou alguma mensagem, é que em última análise o que nos salvará é a solidariedade de mulheres, e não de homens brancos. Talvez essa seja uma conclusão ingênua. Talvez ela se aproxime demais do conceito de esperança. Mas a esperança, especificamente a esperança ingênua, não é outro sonho profundamente americano?

Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.