06/12/2018 04:00 -02 | Atualizado 06/12/2018 04:00 -02

A cozinha política e com afeto de Madu Melo

Pernambucana é dona do Mandioca, em São Paulo, e coloca em seu restaurante todos os seus ideais: “A gente precisa se preocupar de onde vem e como são produzidos os alimentos."

Madu Melo é a 274ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Madu Melo é a 274ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Um ensopado de carne bovina e suína – músculo, linguiça e costelinha – com batata doce, cenoura, mandioca, couve e repolho. Para acompanhar, pirão e arroz branco. Ela entrega que o segredo é ir colocando os legumes aos poucos, cada um no seu tempo de cozimento e nunca cozinhar tudo separado. Essa é a receita de sua avó, dona Nenzinha. Mais ou menos, na verdade. A original tem mais ingredientes e toda a experiência de uma senhora de 85 anos que faz questão de fazer ela mesma o prato preferido da neta quando recebe essa visita em Recife. "É o meu prato predileto da vida", conta Maria Eduarda Melo, a Madu, 32 anos, proprietária do recém-inaugurado Mandioca, em São Paulo. O ensopado não poderia ficar de fora de seu cardápio, todo focado no Brasil e nesse ingrediente tão presente na mesa de todos: a mandioca.

Tomei algumas atitudes no projeto e tinha gente que falava que era posição política.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Madu cultiva uma cozinha com afeto, sim, e política, com muito orgulho.

Mas não se engane. O restaurante pode até ter o toque delicado do tempero de vó, mas junto disso tem toda a vibração, sangue quente e inquietude de Madu. "Queria uma pegada mais urbana para quebrar esse paradigma que comida brasileira tem que ter cara de vó. não tem. Comida brasileira é o que a gente come todos os dias, pode ter a cara que você quiser". Assim é o Mandioca: um restaurante brasileiro que valoriza o pequeno produtor e quer dar oportunidade e emprego para quem, por vezes, está à margem da sociedade. Uma cozinha com afeto, sim, e política, com muito orgulho. "Tomei algumas atitudes no projeto e tinha gente que falava que era posição política. E sim, por que não? Eu posso me posicionar politicamente e, para mim, comida também é política. Não tinha outro caminho a seguir, tinha que ser assim. A percepção que eu tenho é que quem vem aqui e não é dessa sintonia não volta. E tudo bem. Procure o espaço em que você se sente confortável".

A sintonia é clara: produtos orgânicos de pequenos produtores – de locais que Madu pode, na medida do possível, conhecer pessoalmente e ver como é feito o trabalho; fornecedores também pequenos – não espere encontrar refrigerantes ou produtos de grandes marcas; funcionários trans, pessoas refugiadas, homossexuais e profissionais mais velhos. Tudo muito pensado e planejado por Madu. Foi assim que ela quis. "A gente precisa se preocupar de onde vem e como são produzidos os produto, os alimentos. As pessoas falam em ser sustentável e acredito nisso de forma mais ampla, penso desde o início da cadeia até o consumo, é importante entender como o produto é feito, quem faz, como é remunerado".

Odeio chamar a gente de minoria, porque não somos minoria. Minoria é homem branco e rico.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Sempre gostei de cozinhar (...) comida tem essa função de te juntar, te fazer presente de uma forma amigável."

Sobre a escolha dos funcionários, também seguiu a linha do que acredita. Nascida em Recife, mudou-se para São Paulo há cerca de 10 anos e sofreu muito preconceito no mundo corporativo em que atuou antes de criar seu próprio negócio. Como empresária, quis fazer diferente. "Odeio chamar a gente [mulher, negro, nordestino] de minoria, porque não somos minoria. Minoria é homem branco e rico. Vamos parar de se chamar de minoria. Mas queria dar espaço para essas ditas 'minorias' por causa do preconceito que sofri. Contratamos 4 refugiados, fiz uma parceria com o trans emprego e queria dar oportunidade para um pessoal mais velho e contratamos a mãe do nosso vizinho e isso foi um posicionamento de dar oportunidade para quem geralmente não tem. E não porque sou boazinha, mas porque é no que eu acredito. Me sinto na obrigação de fazer diferente, senão vamos sempre reproduzir modelos".

E para ela, só assim faria sentido abrir um negócio próprio. Além de querer colocar seus ideais e trabalhar com o que acredita, Madu quis também tentar criar um ambiente e uma postura diferente do que a que vivenciou em sua carreira corporativa por mais de dez anos. Após algum tempo de atuação na indústria da moda – ela conta que desistiu por causa de episódios de preconceito ocorridos em São Paulo, para onde se mudou para concluir a faculdade – migrou para a área de marketing e trabalhou em grandes empresas, com bons cargos.

Comida brasileira é o que a gente como todos os dias, pode ter a cara que você quiser.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Pernambucana é dona do Mandioca, em São Paulo, e coloca em seu restaurante todos os seus ideais.

No entanto, apesar da carreira bem sucedida, o dia a dia não era bem o que ela queria. "Eu sempre briguei pelo que eu acredito e isso foi um problema na minha vida social porque eu não me adaptava nesses lugares 'tradicionais'. O mundo corporativo não encaixava, eu não conseguia ficar calada, era conhecida pela treta e ao mesmo tempo que me odiavam, me amavam. Mas era uma vida de tensão que chegou no meu limite. Não queria mais ser a pessoa das tretas. Tomei a decisão de sair e procurar meu caminho".

Foi quando ela e o marido, que trabalhava na mesma empresa, pediram demissão e foram viajar. Durante os seis meses desse período sabático, muita coisa foi ganhando forma na cabeça de Madu que deixa bem claro que ter restaurante nunca foi o sonho de sua vida. O que ela sempre soube é que queria ter algo dela e foi após essa grande viagem, contato com desigualdades, pobreza, diferenças culturais, pratos típicos e muita reflexão que caiu essa ficha. "Conheço 32 países e em todos que eu vou e visito, a primeira coisa que paro para pesquisar é comida porque comida é cultura. Não tem como conhecer a cultura sem comer a comida do lugar e voltei pensando que a gente precisava ser mais brasileiro, olhar para dentro e cheguei nessa conclusão de que era um restaurante [o que queria abrir]".

Daí em diante, foi só aparar o conceito e tudo foi se encaixando de forma muito natural. Inclusive o nome, ingrediente fio condutor de um país inteiro. "Não queria algo regional, queria um restaurante brasileiro que representasse todas as regiões. Pesquisei, montei o cardápio e 90% dele já tinha mandioca e percebi. É isso! Entendi que a mandioca é a junção do Brasil, une todas as regiões e está na mesa de todos os brasileiros e para mim isso é lindo".

Eu sempre briguei pelo que eu acredito e isso foi um problema na minha vida social porque eu não me adaptava nesses lugares 'tradicionais'.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Eu sempre briguei pelo que eu acredito e isso foi um problema na minha vida social."

Aí foi só unir as referências que tinha com a vontade que também sempre esteve dentro dela para tornar o negócio realidade. Acostumada com todo o ritual que é cozinhar para grandes famílias no nordeste, já tinha um gosto natural por isso que se somou às suas experiências em outras cidades e países, valorizando a comida de cada lugar. "Sempre gostei de cozinhar, era um momento de juntar todo mundo na mesa, comida tem essa função de te juntar, te fazer presente de uma forma amigável. Quando comecei a viajar, a comida estava presente para conhecer a cultura daquele lugar. Respeito muito universidades e técnica, mas comida para mim são duas coisas: afeto e repertório".

Hoje, está feliz com sua nova criação. Continua tendo muitas tretas, mas são totalmente diferentes. Agora, são as tretas por tudo aquilo que ela é. Não é fácil defini-la por completo, é claro. Mas uma boa dica já está dada. Na mesa, aquele ensopado. Quente, feito com resto de comida, com a comida que tiver – porque cada ingrediente vale e conta muito. Uma receita que rende, que aquece, que serve mais um. Porque na mesa de Madu, é assim. Cabe todo mundo. É só chegar.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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