MULHERES
05/12/2018 14:34 -02 | Atualizado 05/12/2018 16:56 -02

Documentário mostra por que Itamaraty ainda é espaço difícil para mulheres

Com direção de Ivana Diniz, "Exteriores - Mulheres Brasileiras na Diplomacia" expõe baixa representatividade e preconceito no ministério.

Produção tem estreia prevista para o dia 6 de dezembro e foi financiada por campanha de crowdfunding e pela Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB Sindical).
Reuters
Produção tem estreia prevista para o dia 6 de dezembro e foi financiada por campanha de crowdfunding e pela Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB Sindical).
Eu não sei se as mulheres desempenhariam com proveito a diplomacia, onde tantos atributos, discrição e de capacidade são exigidos (...) Melhor seria, certamente, para o seu prestígio, que continuassem à direção do lar tais são os desenganos da vida pública. Ministro Nilo Peçanha, em agosto de 1918

Há 100 anos, o então ministro das Relações Exteriores, Nilo Peçanha, escreveu a frase acima em um despacho que, mesmo utilizando-se de tom machista, autorizou que a baiana Maria José de Castro Rebello Mendes, ingressasse no Itamaraty. Ela foi a primeira diplomata brasileira, tendo passado em primeiro lugar no concurso exigido para os candidatos à vaga, contrariando mais de uma vez o que seria esperado para uma mulher à época.

Motivado pelo centenário e pelo resgate histórico do pioneirismo de Rebello e outras colegas, o Grupo de Mulheres Diplomatas, em parceria com a Associação de Diplomatas Brasileiros (ADB), produziu o documentário Exteriores - Mulheres na diplomacia brasileira, que será lançado no próximo dia 6, em Brasília.

Dirigido por Ivana Diniz e roteirizado por Ana Beatriz Nogueira, o filme de 53 minutos resgata a história das mulheres na carreira e conta com depoimentos de outras diplomatas para responder a pergunta: o Itamaraty é um lugar para as mulheres?

Eu acho que é uma luta que está longe do seu fim.Vitoria Cleaver, embaixadora

"Na medida em que ele [o documentário] começou a ser preparado, percebeu-se que ele também é uma ferramenta importante para mostrar como a situação da mulher nesses 100 anos evoluiu e como existem, ainda, problemas a serem superados. Eu acho que é uma luta que está longe do seu fim", afirmou a embaixadora Vitória Cleaver, presidente da Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB), em entrevista ao HuffPost Brasil.

Para a presidente da ADB, que está há 50 anos no Itamaraty, houve avanços no ministério na questão da mulher, como a criação do Comitê Gestor de Gênero e Raça (CGGR), em 2014. Um órgão de caráter permanente e consultivo do MRE, o comitê tem a função de coordenar, no âmbito da pasta, programas e política voltadas à promoção da efetiva igualdade de gênero e raça.

José Cruz/Agência Brasil
Em 27 de setembro de 1918, a baiana Maria José de Castro Rebello Mendes, foi aprovada em primeiro lugar na então Secretaria de Estado das Relações Exteriores.

"O comitê é um canal para a construção de uma agenda de interesses comuns que busca manter esses temas [gênero e raça] em pauta e atua como uma forma de pressão junto ao ministério", conta. "Essa militância em direção à igualdade é um caminho sem volta. É uma luta cujo fim eu ainda não visualizo para o ano que vem, por exemplo. É uma luta paulatina que busca igualdade permanente."

Produzido em parceria com a Argonautas Filmes, o documentário faz parte dessa busca e nasceu também da inspiração do francês Por uma porta entreaberta: mulheres e diplomatas, produzido pelo Quai D'Orsay em 2017. De forma independente, entre junho e julho de 2018, o grupo arrecadou cerca de R$ 45 mil por meio de doações voluntárias em um crowdfunding para viabilizar a produção.

O Grupo de Mulheres Diplomatas, que organizou o documentário, foi criado em 2013 e hoje reúne mais de um terço das diplomatas brasileiras. O grupo faz questão de ressaltar que o filme não tem qualquer vinculação institucional com o Ministério das Relações Exteriores e não representa o posicionamento ou opinião do órgão.

O que mudou de 1918 para 2018

Reprodução
Mônica de Menezes Campos foi a primeira diplomata negra do Brasil.

Mesmo um século após o ingresso da primeira mulher na carreira, o número de mulheres na área continua baixa. Segundo levantamento recente do Ministério das Relações Exteriores, o atual quadro conta com 360 mulheres, que representam apenas 23% de todos os diplomatas a serviço do Brasil. Nos últimos 10 anos, dos 628 alunos do Instituto Rio Branco (que passam no concurso), apenas 160 eram mulheres (26,85%).

Eu vejo que ser mulher exige de mim uma atuação muito definida em favor das outras.Irene Vida Gala

A embaixadora Irene Vida Gala, que serviu nas Embaixadas do Brasil em Lisboa, Luanda, Pretória e mais recentemente em Gana, é uma defensoras de uma política de cotas para mulheres no Itamaraty.

"Na medida em que você não tem mulheres, você passa a dizer que não há talentos femininos. E isso não é verdade. É preciso cotas porque existem muitas mulheres competentes que não conseguem chegar lá", diz.

Segundo a diplomata, ser mulher exige dela "uma atuação muito definida em favor das outras". "Existem tetos de vidro que a gente precisa quebrar. E esses tetos de vidro você só reconhece quando você observa que não é natural que você não tenha mulheres chegando nos altos cargos do Itamaraty."

Além de mostrar como é ser mulher na carreira de diplomata, os desafios e os preconceitos, uma prioridade para o documentário foi resgatar a memória das outras profissionais que já passaram por ali.

"Toda diplomata negra que entra no Itamaraty é a primeira", diz a conselheira Marise Ribeiro Nogueira, no vídeo. Nogueira ressalta que, atualmente, não há dados precisos sobre o número de profissionais negros na instituição - e que esse recorte é ainda mais deficiente quando se diz respeito às mulheres negras.

Huffpost BR test
Cartaz do documentário "Exteriores".

Segundo fontes ouvidas pelo HuffPost Brasil, até pouco tempo, muitas diplomatas não sabiam da existência de Mônica de Menezes Campos, a primeira diplomata negra do Brasil. A tese "Mulheres Diplomatas no Itamaraty", de Guilherme José Roeder Friaça, publicada pela Fundação Alexandre de Gusmão, entidade vinculada ao MRE, afirma que Campos ingressou no IRBr (Instituto Rio Branco) em 1979 e, ao se casar, passou a se chamar Mônica de Veyrac.

"Não há, contudo, informações oficiais sobre o número de mulheres negras na carreira diplomática, o que aponta para o que especialistas denominam 'dupla invisibilidade', resultante da dupla discriminação. Sabe-se que primeira diplomata negra foi Mônica de Menezes Campos, que ingressou no IRBr em 1979. Casada, adotou o nome Mônica de Veyrac. Teve a carreira interrompida prematuramente por sua morte no ano de 1985, aos 27 anos. A questão da dupla discriminação merece aprofundamento em estudo que venha a ser desenvolvido", diz o texto escrito em 2011.

Exteriores será lançado primeiro em Brasília (DF), em 6 de dezembro, às 19h30, no espaço cultural Renato Russo da 508 sul. Em seguida, no dia 11 de dezembro, será lançado em São Paulo, no CineSesc, na Rua Augusta, na Cerqueira César. Em seguida, no dia 12, o documentário ficará disponível no Vimeo.