05/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 05/12/2018 00:00 -02

Taísa Machado e o desejo de apresentar ao mundo a ciência do rebolado

Atriz e dançarina criou há quatro anos o movimento Afrofunk, para exaltação da cultura do ritmo carioca e análise da associação com danças afro.

Taísa Machado é a 273ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Taísa Machado é a 273ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Trinta, quarenta, cinquenta mulheres reunidas, de 12 a 50 anos de idade. Quadris mexendo, funk no som, algumas letras que podem chocar os mais conservadores e uma só certeza: a dança é mesmo a linguagem universal. Este é um cenário de uma das muitas aulas que Taísa Machado, de 29 anos, lecionou nos últimos quatro anos. Idealizadora do Afrofunk Rio, a atriz e dançarina bebeu da fonte do teatro e das danças originais do continente africano para criar uma metodologia única. Da zona sul à zona norte, o Rio de Janeiro conhece Taisa, e muitas mulheres vêm aprendendo a rebolar com ela. E se o funk é rechaçado, se a funkeira é "puta burra" para o imaginário social, é Taisa um dos expoentes que faz questão de deixar claro que estudou e estuda muito a "ciência do rebolado": "Quando você mexe seu corpo e percebe que gosta daquilo, você libera ocitocina. Isso é ciência".

A relação de Taísa com as artes começou ainda como integrante do grupo de teatro Tá na Rua, e foi ali o primeiro contato dela com o corpo como expressão artística. Ela explica que no grupo, também, começou a ter contato com danças africanas, mas sentia falta de ver o funk na mesma categoria. "Comecei a fazer pesquisa pra saber onde essas danças se encontravam", relembra Taísa. Funkeira desde sempre, nascida em um berço que adorava o ritmo, ela sempre teve uma conexão forte com o batidão. Do teatro, começou a ter aulas com Eliete Miranda, uma das principais professoras de dança afro do país. Taísa analisa que foi a professora quem deu o pontapé inicial para o Afrofunk como conhecemos hoje: "Era a única pessoa que chegava mais perto de dialogar com o funk".

Quando você mexe seu corpo e percebe que gosta daquilo, você libera ocitocina. Isso é ciência.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"O rebolado é uma ciência porque é preparação para gerar uma vida e também para pari-la."

Taísa ficou sem dinheiro nenhum quando saiu do grupo de teatro. Com muita bagagem de pesquisa acumulada, feita despretensiosamente, ela teve a ideia de mostrar para as amigas que aquelas horas em frente ao computador, traduzindo do francês sem domínio do idioma, podiam dar resultado. Por estudar danças mais antigas, o material é escasso, mas valeu a pena: sozinha, Taísa fez um flyer, cobrou R$ 10 de cada amiga e divulgou na sua rede social. De primeira, apareceram 35 alunas. Ali, ela explica, foi quando percebeu que havia uma lacuna. "Foi nesse dia que eu entendi que era mais específico, era sobre o corpo feminino. A partir daí, deixou de ser despretensioso e comecei a pesquisar nossos corpos", afirma. E partilha alguns resultados iniciais que viu na sua pesquisa: "Antes na história, mulheres rebolavam para preparar o corpo para a gravidez e para o parto, e também tinham a prática para se preparar para a sexualidade. Ou seja, o rebolado é uma ciência porque é preparação para gerar uma vida e também para pari-la".

O processo de tornar-se professora não foi simples. Toda a bagagem cultural que tinha foi posta em xeque, sem nenhum motivo aparente se não o temor de não dar certo. Era ainda difícil compreender que aquilo que ela sabia não era "informações soltas", mas sim conhecimento, ciência mesmo. "Eu era bem insegura para dar aula, pensava se estava falando alguma loucura. Quando chegavam meninas sem conexão com o ritmo, eu temia não ajudar a pessoa, mas cinco aulas depois elas estavam dançando horrores, então a dança é real, o estudo é real", avalia.

A metodologia do Afrofunk não consiste em aulas coreografadas, mas sim em ajudar meninas a dançarem de forma mais confortáveis e se sentirem mais seguras nas noites cariocas. "Geralmente as aulas de dança têm coreografia, mas as aulas de dança afro já não são muito assim. As professoras dão vários passos e coreografia só para uma apresentação. O Tá na Rua também era um pouco disso: você treina muito para improvisar. Então, eu bebi dessas duas fontes: não tem coreografia, a gente estuda passos", explica a atriz.

Antes na história, mulheres rebolavam para preparar o corpo para a gravidez e para o parto.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A tatuagem que leva no braço esquerdo é reflexo do amor antigo que sente pela cantora.

Se no começo a ideia de Taísa era dar aula para mulheres como ela e suas amigas, hoje o Afrofunk cresceu sozinho e atingiu outro público. Há mulheres de classe alta até as classes baixas, brancas e negras, moradoras da zona sul e também da Baixada Fluminense, região em que Taísa nasceu e foi criada.

"Por um lado tenho um pouco de medo da apropriação cultural, mas ao mesmo tempo vejo um racismo que trava as pessoas para não quererem dançar uma música que é de preto e da favela. E também tem o racismo que coloca você como funkeiro automaticamente porque nasceu na favela. A dança nasce de um lugar mas não tem CEP, qualquer pessoa pode dançar. Não é porque você nasceu num lugar e tem uma cor que você vai ser passista de escola de samba, ou funkeira. Não é porque você não nasceu em um outro determinado lugar que não pode rebolar com funk, porque eu também posso dançar balé clássico. A dança é uma linguagem universal, você respeita a cultura de onde ela nasceu, mas pode dançar em qualquer lugar", afirma a pesquisadora.

Por não ter restrições com o público alvo, Taísa recebe desde mulheres que já dominam bem a técnica da dança e do rebolado como aquelas que ainda não tem conexão com o ritmo ou, em bom português, chegam dizendo que não sabem nada de funk. Mas nada disso é impeditivo. "Eu falo muito para galera se conectar com o ritmo, não ter muito um padrão visual. Você vê a Rihanna dançando e você quer fazer aquilo, mas não vai rolar: sua perna, sua boca, seu corpo, sua posição social... nada é igual ao da Rihanna. Nossos corpos são diferentes, temos que pensar em cada uma de nós dançando. Isso libera a galera para dançar", explica.

Vejo um racismo que trava as pessoas para não quererem dançar uma música que é de preto e da favela.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Taísa duvidava se era certo ela ser tanta coisa ao mesmo, mas descobriu que o mundo é pequeno para seus sonhos.

Taísa se preparou para lidar com críticas quando decidiu levar o seu projeto para o mundo. Por dois anos, fez apresentações com duas amigas além de também lecionar as aulas. Mas ela diz que o ponto principal de críticas aconteceu recentemente, quando divulgou um vídeo em que ela e um grupo formado majoritariamente foi alvo de críticas bem específicas.

"Percebi que as ofensas são diferentes: mulheres negras dançando funk sempre vão ser sujas e burras, e mulheres brancas serão vulgares e indecentes. Foi curioso porque especificamente nesse dia tinham várias intelectuais negras, diretoras de empresas, acadêmicas. Então não se aplica. O vídeo foi um viral ao contrário, com muitas críticas negativas, mas passou também", relembra ela que, em resposta, publicou um texto que viralizou igualmente em que depositava todo o conhecimento acumulado sobre os ritmos e rebolados.

Fã de Elza Soares, a atriz se surpreende ao ser alertada que a história profissional e pessoal das duas têm pontos em comum, e os olhos brilham ao explicar que a tatuagem que leva no braço esquerdo é reflexo do amor antigo que sente pela cantora. Ainda para falar sobre referências, cita Lázaro Ramos e a possibilidade ser uma "multiartista". O ator também é escritor, apresentador e militante da causa racial.

Mulheres negras dançando funk sempre vão ser sujas e burras, e mulheres brancas serão vulgares e indecentes.

Até pouco tempo, Taísa duvidava se era certo ela ser tanta coisa ao mesmo, mas descobriu que o mundo é pequeno para seus sonhos. Hoje, Taísa prepara um novo espetáculo solo para o ano que vem e conta que a Universidade da Ousadia, como é chamado o projeto das aulas de ritmo, vai crescer: a ideia é que todo o conhecimento de Taísa seja apresentado em aulas teóricas, com outros professores. E mais vídeos serão produzidos para a internet.

"A ideia é produzir mais conteúdo para a internet e ampliar para além do foco nas mulheres. É entender melhor o universo do funk e como dialoga com as outras culturas. Eu já estudo, mas com foco no corpo feminino, agora quero ampliar. Quero que o Afrofunk seja um lugar que se pensa funk, sem gourmetizar o funk", define.

Para finalizar, Taísa compara certeiramente a dança com uma espécie de terapia, e com certeza como uma ferramenta para auto-cuidado: "Eu acredito que você pode atingir coisas boas dançando, curtindo, brincando com sua sexualidade, vivendo ela de uma maneira mais urbana. A maioria de nós não medita, mas é possível entrar num transe dançando, se sentindo gostosa e maravilhosa", afirma ela, que resume que a dança pode ser só uma dança, mas também é muito mais.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.