COMPORTAMENTO
04/12/2018 06:55 -02 | Atualizado 04/12/2018 06:55 -02

Por que o uso de ansiolíticos regularmente pode causar dependência

Conheça alguns sinais de que você pode estar usando ansiolíticos de modo perigoso.

Ansiolíticos podem causar dependência química.
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Ansiolíticos podem causar dependência química.

Recentemente Lena Dunham falou publicamente em um podcast sobre o fato de estar sóbria, seis meses depois de parar de tomar ansiolíticos. Ela começou a tomar Klonopin (clonazepam) depois de receber o diagnóstico de transtorno de estresse e ansiedade pós-traumática, mas em pouco tempo ficou dependente do medicamento e passou a usá-lo diariamente.

"Em vez de ser o comprimido 'que eu tomo quando viajo de avião', passou a ser aquele que 'tomo quando estou acordada'", ela disse ao ator Dax Shepard no podcast dele, "Armchair Expert".

Dunham está longe de constituir um caso à parte. Cada vez mais americanos vêm tomando benzodiazepinas, que incluem medicamentos comuns como o Ativan (lorazepam), Valium (diazepam), Xanax (alprazolam) e Klonopin (clonazepam), entre outros. Segundo o Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, o número de americanos que compraram benzodiazepinas com receita médica aumentou 67% entre 1996 e 2013, passando de 8,1 milhões para 13,5 milhões de pessoas.

As benzodiazepinas são, de fato, eficazes para combater a ansiedade no curto prazo, mas são os medicamentos ansiolíticos mais frequentemente usados em excesso, disse David Hu, diretor médico da Behavioral Health of the Palm Beaches, na Flórida. De fato, segundo estudos, até 44% dos usuários crônicos de benzodiazepinas podem desenvolver dependência.

Como os ansiolíticos afetam seu cérebro – e como seu uso pode dar errado

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Tomar benzodiazepinas é comparável a beber álcool, segundo Stephen Taylor, diretor médico da Pathway Healthcare, de Birmingham, Alabama, e do Programa de Assistência Antidrogas dos Jogadores da NBA, a Associação Nacional de Basquete. Elas atuam de maneira semelhante ao álcool, proporcionando um alívio rápido e importante da ansiedade – mas o alívio é apenas temporário.

As benzodiazepinas afetam o receptor de GABA (ácido gama-aminobutírico) do cérebro, um neurotransmissor que suprime a atividade neural, ou "desacelera as coisas", gerando um efeito calmante. A informação é de Neeraj Gandotra, diretor médico do Delphi Behavioral Health Group, na Flórida.

Os efeitos principais desses medicamentos podem ser positivos, especialmente para quem enfrenta ataques de ansiedade ou de pânico frequentes. Mas, segundo Hu, as benzodiazepinas também podem ter uma desvantagem grande.

"O efeito desses remédios tem duração limitada, e depois que termina as pessoas muitas vezes sentem ansiedade ainda maior", explicou Hu. "Isso pode levar as pessoas a tomarem o medicamento continuamente, para evitar a sensação de ansiedade."

Como o que aconteceu com Lena Dunham, isso pode levar muitas pessoas a tomarem ansiolíticos simplesmente para encarar os desafios do dia a dia.

"O paciente pode ter começado a usar o comprimido para prevenir sintomas de pânico, mas passa a tomá-lo mesmo para sintomas muito leves", comentou Gandotra. "Ele começa a tomar o medicamento de forma profilática – quando se levanta, antes de uma reunião, quando vai ao supermercado."

Sinais de que você pode estar usando ansiolíticos de modo perigoso

IÉ possível desenvolver dependência ou adição de benzodiazepinas, segundo especialistas. E, embora adição e dependência não sejam a mesma coisa, em qualquer um desses casos os efeitos da abstinência encerram riscos e são muito difíceis de se enfrentar.

O sinal mais evidente de que você está desenvolvendo dependência de um medicamento receitado por médico é a quantidade que você consome, disse Taylor. As pessoas podem sentir esse efeito com o uso contínuo e de longo prazo de benzodiazepinas, explicou Hu, passando a precisar de doses cada vez maiores para sentirem o mesmo efeito. Os sinais de dependência também incluem a fala enrolada, movimentos desajeitados ou vagarosos, mudanças de humor e sonhos vívidos.

Se você desconfia que um amigo ou parente possa estar dependente de benzodiazepinas, fique atento para sinais de que a pessoa está se isolando de outras que lhe cobram sobre o consumo do medicamento. Para Gandotra, outro sinal é que a pessoa pode viver aborrecida ou tensa. Outros indícios de dependência para os quais vale ficar atento incluem aparência sonolenta ou sedada, movimentos vagarosos, memória prejudicada e mudanças de personalidade ao longo do tempo.

A dependência é uma doença do cérebro.

A dependência é mais grave que a dependência, sendo vista como uma condição médica muito válida e real, que merece tratamento próprio.

"A adição é uma doença do cérebro", disse Taylor. Ele explicou que as pessoas que desenvolvem uma adição podem manifestar perda de controle no uso da droga, consumo contínuo da droga apesar de seus efeitos negativos e uso impulsivo da substância, mostrando-se incapazes de se controlar.

Qualquer pessoa pode desenvolver tolerância, mas existem certos fatores de risco que elevam a probabilidade de determinadas pessoas abusarem de substâncias de qualquer tipo. "O maior fator de risco de adição é um histórico familiar de adição", falou Taylor, como, por exemplo, pai ou mãe alcoólatra. Além disso, pessoas que sofrem de doenças crônicas coexistentes, pessoas que começaram a usar substâncias em idade precoce e pessoas que vivem com outros problemas de saúde mental apresentam risco aumentado de desenvolver um transtorno de adição.

Isto dito, é importante notar que mesmo pessoas sem esses fatores de risco têm o potencial de tornar-se dependentes ou viciadas, disse Taylor. "Já tive pacientes com zero de fatores de risco que conseguiram identificar, mas que desenvolveram adição depois de tomar benzodiazepinas por tempo prolongado."

O que é a abstinência de benzodiazepina?

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Quer você seja dependente ou viciado no medicamento, a interrupção repentina da medicação vai provocar sintomas de abstinência, disse Gandrota. Os primeiros sinais de abstinência são tremores ou palpitações. Outros sintomas incluem falta de concentração, dificuldade em pegar no sono, ansiedade, rigidez muscular, dor muscular e alucinações visuais.

A abstinência também pode levar a convulsões, aceleração das batidas cardíacas, hipertensão e em alguns casos até a morte, se a pessoa estava consumindo mais que três ou quatro miligramas diárias de benzodizepinas.

Se uma pessoa é dependente da medicação, precisa reduzir seu consumo gradualmente, de preferência com acompanhamento médico.

"A interrupção do uso de benzodiazepinas pode ser arriscada. Ela sempre deve ser feita sob supervisão médica, pelo médico que receitou o medicamento ou outro", disse Hu. "Os centros de tratamento de adição e clínicas de desintoxicação muitas vezes contam com médicos especializados em desentoxicação de benzodiazepinas, além de outros aspectos da medicina de adição."

Taylor destacou que é especialmente importante tomar nota quando há outros medicamentos envolvidos, especialmente opiáceos. Tanto os opiáceos quanto as benzodiazepinas suprimem a parte do cérebro que controla funções corporais vitais, como a respiração e o ritmo cardíaco. Pesquisas apontam que 30% dos casos de overdose por opiáceos também envolvem benzodiazepina.

Conclusão sobre uso de ansiolíticos

O uso de benzodiazepina traz alguns benefícios, e não há nada de errado em usar medicamentos para problemas de saúde mental, de modo geral, mas especialistas recomendam como regra geral que médicos ajam com mais prudência ao receitar benzodiazepinas, já que o risco delas é tão alto quando são usadas por períodos prolongados.

Segundo Taylor, os médicos só deveriam receitar benzodiazepinas para tratamentos de curta duração, apenas em base muito temporária e apenas para pacientes que não tenham histórico pessoal ou familiar de transtornos de adição.

"Especialmente agora, no meio de nossa epidemia de opiáceos, precisamos estar atentos para os perigos da benzodiazepina. Precisamos começar a encarar esses medicamentos com mais cautela", ele concluiu.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.