POLÍTICA
04/12/2018 15:09 -02 | Atualizado 04/12/2018 15:22 -02

Bolsonaro inicia articulação com lideranças de partidos no Congresso

Siglas simpáticas à pauta bolsonarista minimizam prioridade do presidente eleito às negociações com frentes parlamentares.

Bolsonaro se reúne esta semana com as bancadas do MDB, PSDB, PR e PRB.
SERGIO LIMA via Getty Images
Bolsonaro se reúne esta semana com as bancadas do MDB, PSDB, PR e PRB.

Depois de deixar as lideranças partidárias alienadas do processo de formação de seu governo, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), com seu gabinete quase completo, inicia, nesta terça-feira (4), uma rodada de conversas com líderes do MDB, PRB, PR e PSDB.

Do lado dos convidados, o discurso é de disposição em colaborar com o próximo governo. Representantes ouvidos pelo HuffPost Brasil também disseram reconhecer que o eleitor expôs, nas urnas, que não estava satisfeito com o modelo de relação entre Executivo e Congresso até então alimentado.

A estratégia do governo Bolsonaro tem sido conversar com bancadas temáticas, como a ruralista e a evangélica, e também articular diretamente com cada parlamentar. Para um integrante do MDB, que esteve com o ministro da transição e futuro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, na semana passada e estará nesta tarde com o presidente eleito, o novo modelo causa estranhamento.

O emedebista, entretanto, disse esperar que a estratégia de Bolsonaro funcione. "A sociedade quer uma relação diferente do governo com o parlamento. Tenho esperança de que dê certo, seria salutar. Ele teve 58 milhões de votos, o povo está aprovando as escolhas dele."

Para o deputado, Bolsonaro quebra paradigmas, mas vai ter que ser claro com a população sobre as mudanças. "Ele não está montando o governo no regime de coalizão, que tem sido feito desde o governo Itamar. Nós fizemos e deu certo, mesmo com dificuldades, mas ele vai ter que dizer porque está fazendo diferente."

O discurso do emedebista é semelhante ao de integrantes de partidos como PR e PSDB e está alinhado com o de Onyx Lorenzoni. "Vocês são testemunhas, e a sociedade brasileira ainda mais, de onde nos levou o tal presidencialismo de coalizão, o famoso 'toma lá dá cá', que destruiu a relação política do Parlamento brasileiro com a sociedade brasileira, por conta de atender apenas a interesses individuais ou muito localizados. A sociedade brasileira entendeu isso", disse Lorenzoni a jornalistas na segunda-feira (3).

O famoso 'toma lá dá cá' destruiu a relação política do Parlamento brasileiro com a sociedade brasileira.Onyx Lorenzoni, ministro da transição e futuro chefe da Casa Civil

Líder do PSDB na Câmara, o deputado Nilson Leitão (MT) reforça que "o Brasil clamava por um relacionamento diferente". "Acho que isso pode dar resultado, mas claro que o presidente eleito vai precisar sentar com as bancadas como está fazendo agora."

O tucano diz que o encontro não é para negociação. Segundo ele, Bolsonaro quer conhecer os parlamentares novos e o partido tem interesse em apresentar as pautas que gostaria de colaborar a partir do próximo ano.

"A bancada do PSDB, que é uma bancada reformista, espera de fato que as reformas possam sair do papel a partir desse mandato. São as reformas da Previdência, a tributária, são propostas para redução da máquina pública, da quantidade de deputados e senadores, é a lei que aumenta a pena para invasão de terras, o licenciamento ambiental. Muitas propostas coincidem com o que a gente defende, mas a forma ainda não nos foi apresentada."

Vice-líder do PR, o deputado Capitão Augusto (SP) endossa o alinhamento de partidos que podem compor a base do capitão reformado do Exército. Segundo ele, ninguém pode reclamar da aproximação de Bolsonaro diretamente com parlamentares, sem passar pelas lideranças. "Na hora do voto, muitos são secretos, é o parlamentar quem vai votar. É importante essa relação com todos."

Para o deputado, é precoce dizer que pode haver alguma represália dos partidos. "Independentemente de Bolsonaro ou não, já tínhamos várias votações em que o partido fechava questão e não vai ser diferente com Bolsonaro. Acredito que, na maioria, [os partidos] vão deixar o deputado votar de acordo com a sua consciência. No caso do PR, não acredito que haverá oposição. Muito pelo contrário, [a sigla] deve ajudar o máximo possível."

"Estranhamento"

As críticas em relação a possíveis dificuldades de negociar com as frentes, já que elas não são homogêneas e apenas os partidos têm condições de cobrar fidelidade e mecanismos para punir, são rebatidas pelos líderes simpáticos ao novo modelo sob o argumento de que, diferentemente da ex-presidente Dilma Rousseff, Bolsonaro tem experiência no Congresso.

"Ele entende como funciona o Legislativo, sabe o papel de cada partido. Não dá para esquecer a experiência de 28 anos que o presidente eleito tem como parlamentar", alerta o emedebista ouvido pelo HuffPost.

O deputado ressaltou, por exemplo, que Bolsonaro foi quem chamou os partidos agora. "Ele foi primeiro nas frentes, mas está conversando com todos. Pior é não chamar."

Segundo Lorezoni, na articulação que ele propõe "os parlamentares serão atendidos através das suas bancadas, respeitado seus líderes, através das frentes parlamentares e também através dos seus estados". A expectativa dele é que, na Câmara, a base seja composta por cerca de 350 deputados. No Senado, a estimativa é de 40 parlamentares, incluindo integrantes do PSDB.