04/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 04/12/2018 00:00 -02

Daniely Castilho, a fisiculturista que luta para sobreviver do esporte no Brasil

Ela recebeu títulos nacionais e internacionais que poucos atletas tiveram até hoje. “Venci olhares julgadores por ter músculos sem apelar para a sexualidade”, diz em entrevista ao HuffPost Brasil.

Daniely Castilho é a 273ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Daniely Castilho é a 273ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Ela tem uma rotina pesada. E a organização do dia seguinte sempre começa na noite do dia anterior. A prioridade é alimentação: marmitas com filé de frango, ovos cozidos e legumes. O despertar é sempre às 6h da manhã e, em seguida, vai até a academia. O primeiro treino é em jejum e dura 40 minutos na bicicleta ergométrica. Depois, uma corrida na rua do condomínio onde mora. Na volta, toma seu café da manhã. E só aí a rotina atual de trabalho começa. O café é rápido para chegar a tempo na Assembleia Legislativa do Amazonas (ALEAM), onde trabalha como cerimonialista há 15 anos. O expediente vai até 14h e de lá, ela segue para a academia novamente. "Ainda não consigo sobreviver do esporte. Chega ser frustrante. Preciso conciliar a vida de atleta com um emprego formal para ter como me sustentar", conta a fisiculturista amazonense Daniely Castilho em entrevista ao HuffPost Brasil.

É desafiante equilibrar a rotina de atleta com as obrigações de cerimonialista, mas não desisto.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
"Minha família, amigos me apoiam. Sou o que sou e ninguém pode tirar isso de mim."

O início de carreira da manauara no fisiculturismo - modalidade que utiliza exercícios para desenvolver os músculos - foi meteórica. Ela se preparou um ano antes para a primeira competição regional em 2015 e já começou ganhando títulos inéditos para uma atleta mulher. Foi Campeã Amazonense, Brasileira e Campeã Absoluta na categoria overall -- a melhor de todas as subcategorias -- em um mundial de fisiculturismo na Hungria. Em apenas um ano no esporte virou atleta profissional e a primeira no Amazonas a se destacar na área. "Para mulher se destacar nesse esporte é diferente. Ainda é uma modalidade segmentada para homens. Mas conseguir vencer as barreiras, me destaquei e alcancei títulos que poucos atletas homens conquistaram até hoje", diz orgulhosa da trajetória que vem seguindo.

A fisiculturista frequenta a academia desde os 15 anos. Mas só despertou para a modalidade há 4. "O personal que me acompanhava disse que tinha jeito para o esporte e eu meio que entrei sem saber direito o que estava por vir. Arrisquei e não me arrependo", diz. A estreia de sucesso na modalidade inspirou outras atletas que querem conquistar espaço, vez e voz na modalidade, assim como Daniely. "O preconceito ainda existe e vem em comentários maldosos em redes sociais. É preciso levar na esportiva, mas quando me pegam na TPM, sai de baixo", conta aos risos.

Trabalhe duro, não espere por ninguém, comece hoje, comece agora.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Os altos e baixos não desmotivam a atleta que se mantém firme nos seus valores e convicções no esporte.

Apesar disso, ela tem procurado ser mais ponderada com os comentários preconceituosos. Hoje prefere "calar a boca dos haters" com os prêmios que coleciona fora do País. Em 2017, ela foi a única brasileira campeã no Arnold Classic Ohio e recebeu o troféu das mãos do próprio Arnold Schwarzenegger. "No começo tinha vergonha, acredita? Cobria mais o meu corpo. Parei quando me enxerguei como referência no País, conhecida internacionalmente. Minha família, amigos me apoiam. Sou o que sou e ninguém pode tirar isso de mim."

Para ela, o preconceito já foi vencido com as conquistas e a coleção de títulos. Mas pontua outras barreiras que precisam ser superadas. A maioria dos empresários hoje, por exemplo, segundo ela, procuram patrocinar atletas que apelam para a sexualidade. "Sou uma das únicas que não se expõe desse jeito e sofro uma retaliação silenciosa. Já perdi vários patrocínios. Mas não me submeto. Sempre abre outra porta", garante.

Tenho muito mais músculos que muito homem. As pessoas acham estranho, mas não ligo.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Em 2017, ela foi a única brasileira campeã no Arnold Classic Ohio e recebeu o troféu das mãos do astro Arnold Schwarzenegger.

Os altos e baixos não desmotivam a atleta que se mantém firme nos seus valores e convicções no esporte. Com quase 50 mil seguidores nas redes sociais, Daniely compartilha sua rotina de atleta e acima de tudo, procura incentivar outras mulheres não só no fisiculturismo, como em outras áreas de atuação. "Sempre falo que nada se constrói da noite para o dia. É preciso paciência, respeitar limites, seu físico e principalmente a saúde."

E é claro que ela quer chegar mais longe. Ainda tem muito pela frente. Mesmo com poucos patrocinadores, o grande sonho de Daniely ainda está por vir. Ser campeã do Mister Olimpya, a maior de todas as competições profissionais do mundo. No primeiro ano, em 2017, ela ficou em décimo lugar. Neste ano, 2018, em terceiro. "Quero ocupar o primeiro lugar e ser a primeira mulher amazonense brasileira a ocupar essa vaga tão almejada por todos os fisiculturistas do mundo. Estou focada e não vou desistir."

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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