COMIDA
03/12/2018 07:34 -02 | Atualizado 03/12/2018 07:34 -02

Como a indústria alimentícia usa a ciência para nos fazer comer mais junk food

Em livro, pesquisadora dos EUA defende que gigantes como Coca-Cola e Mars distorcem pesquisas científicas para iludir consumidor.

Com pesquisa, indústria de refrigerantes tentou se livrar de associação com obesidade.
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Com pesquisa, indústria de refrigerantes tentou se livrar de associação com obesidade.

Quem se preocupa em levar um estilo de vida saudável sabe muito bem como as comidas ou dietas "da moda" mudam de tempos em tempos. Se você passou a comprar mais abacates por considerá-los um "superalimento" ou se você vive mordiscando chocolate meio amargo por causa de suas propriedades antioxidantes, saiba que provavelmente você foi enganado pela indústria global de alimentos.

Em seu novo livro chamado Unsavory Truth: How Food Companies Skew the Science of What We Eat (ou "A verdade desagradável: Como as empresas alimentícias distorcem a ciência sobre o que comemos", em tradução livre), a professora de nutrição da Universidade de Nova York Marion Nestle detalha sua teoria inquietante: uma enorme quantidade de pesquisas na área da ciência é financiada e influenciada por companhias gigantes de alimentos, que utilizam "fatos científicos" como ferramenta de marketing para manipular o que comemos e, principalmente, fazer que alimentos não saudáveis pareçam boas opções.

Até alimentos saudáveis não ficaram de fora. Segundo Marion Nestle, frutas, nozes e legumes foram transformados em "incríveis curas", mas escondem um interesse financeiro por parte da indústria, que transforma esses alimentos "mágicos" em produtos industrializados.

Algumas pesquisas foram contra recomendações dos órgãos de saúde pública dos Estados Unidos e desafiaram até o bom senso, como um estudo feito em 2014 que dizia que achocolatados poderiam proteger jogadores de futebol americano de contusões.

"Sempre que vejo um estudo sugerindo que um único alimentos (como aveia, pêra, carne suína), padrão alimentar (como tomar café da manhã) ou produto (refrigerante diet, chocolate) melhora a saúde, já busco saber quem pagou por ele", escreveu Nestle no livro, segundo o jornal americano New York Post. "Se um estudo financiado pela indústria indica benefícios milagrosos dos produtos de seu patrocinador, já sei: 'é publicidade'".

Em seu livro, Nestle dá diversos exemplos de pesquisas que foram financiadas por companhias alimentícias nos Estados Unidos. Uma das maiores patrocinadoras do mundo acadêmico da nutrição é, curiosamente, a Coca-Cola, que investiu nada menos do que US$ 6 milhões em um relatório chamado International Study of Childhood Obesity, Lifestyle and the Environment ("Estudo Internacional sobre a obesidade infantil, estilo de vida e o meio ambiente"). O estudo de 2010, que contou com o acompanhamento de mais de 6 mil crianças, verificou atividade física, sono hábitos de assistir TV e dieta.

Os pesquisadores não observaram uma correlação entre refrigerante e obesidade, então eles não tiveram nenhuma descoberta nesse tópico. Em vez disso, eles descobriram que a obesidade estava associada a falta de sono, baixa atividade física e ficar muito tempo assistindo à televisão. "A Coca-Cola não poderia ter pedido um resultado melhor", disse Nestle.

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Exemplos não faltam

A Coca-Cola, aliás, já financiou diversas iniciativas voltadas ao estilo de vida saudável. Ela financiou um grupo chamado Global Energy Balance Network (GEBN), que supostamente era uma consultoria especializada em estudar a epidemia da obesidade. Porém, seus esforços eram enfatizar a importância da atividade física em vez de evitar bebidas açucaradas — exatamente o produto fabricado pela patrocinadora.

Em 2015, o jornal americano The New York Times noticiou que a empresa doou milhões de dólares ao grupo. Nestle, na época, chamou a iniciativa de "grupo de fachada de Coca-Cola", que tinha uma agenda "muito clara": "faça com que esses pesquisadores confundam o mundo científico e desviem a atenção da dieta."

A Coca-Cola, contudo, não é a única marca de industrializados que faz isso. Em 2009, americanos encontravam nas prateleiras dos supermercados as famosas caixas dos cereais Froot Loops (que é, basicamente, açúcar, corante e conservante) com o selo "Smart Choices" (ou "Escolhas inteligentes").

O selo foi criado por empresas alimentícias, que incluíam de cereais como a Kellogg's e General Mills, em colaboração com a American Society for Nutrition (uma das maiores associações sobre nutrição nos EUA) para ajudar consumidores a fazerem "melhores escolhas" nos supermercados.

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No entanto, segundo Nestle, esse programa fazia parecer que alimentos ultraprocessados (que hoje são associados ao câncer) não são tão ruins assim. Após investigações da FDA (Food and Drug Administration), agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, o programa Smart Choices foi suspenso.

Nesta tentativa de tornar um produto não saudável em uma opção viável para o consumidor, algumas marcas pagaram estudos que chocaram a comunidade acadêmica. Em 2014, um estudo financiado pela Fifth Quarter Fresh, de produtos lácteos e achocolatados, afirmava que achocolatados poderiam proteger jogadores de futebol americano de contusões. Segundo Nestle, o estudo foi mal administrado, mas apresentou resultados surpreendentes. No ano seguinte, a University of Maryland, que realizou o estudo, soltou uma nota alegando que "o alto teor de proteína e o chocolate ajudavam os jogadores a melhorar sua cognição e funções motoras". O estudo nunca foi revisado.

Outro caso citado pela pesquisadora de NY é o do chocolate amargo, reconhecido atualmente como um alimento que faz bem à saúde. Na verdade, disse a professora, essa fama se deve, em partes, à Mars, gigante de chocolates, que vinha pesquisando como dar um "brilho saudável" no chocolate há décadas.

Em 1982, a empresa estabeleceu um centro de pesquisas em chocolates no Brasil com foco nos flavonóides (encontrado em plantas, frutas e cereais que combatem danos oxidativos) presentes no cacau e suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

A má notícia foi que a quantidade de flavonóides presente no chocolate era pequena demais para ter benefícios para a saúde — seria preciso comer mais de meio quilo de chocolate por dia, o que anularia qualquer efeito positivo. Mas a Mars não se abateu e começou a vender pílulas de suplemento de cacau com uma concentração maior de flavonóides.

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Ciência versus empresas

Ao contrário da indústria farmacêutica, a indústria de alimentos não segue nenhuma diretriz ou regras de divulgação quando se trata de patrocínio de pesquisas científicas. Enquanto muitos pesquisadores defendem o atual modelo de financiamento da ciência nutricional, Marion Nestle diz não ter certeza disso.

Para a professora, se você não sabe o que fazer, ou que moda seguir, o melhor é ser sempre "cético" e parar de acreditar em produtos "milagrosos". "A boa ciência raramente é tão excitante e tende a prosseguir de forma incremental", explicou.

Desconfie de qualquer modismo em torno de um ingrediente singular, produto ou rotina alimentar: nutrição é realmente muito simples, segundo a professora.

Coma uma grande variedade de alimentos não processados em quantidades razoáveis. Os princípios básicos da alimentação saudável permaneceram constantes ao longo dos anos.Marion Nestle

Outro lado

O HuffPost Brasil procurou a Coca-Cola Brasil para comentar sobre o assunto, já que a companhia com sede nos Estados Unidos foi a mais citada pela autora. Por e-mail, a assessoria informou que a empresa continua ouvindo e aprendendo pela comunidade de saúde pública e outras partes interessadas para entender melhor "o papel mais apropriado que podemos desempenhar para apoiar a luta contra a obesidade de forma transparente".

"Nos comprometemos a divulgar publicamente nosso apoio financeiro às pesquisas e parcerias científicas relacionadas à saúde e bem-estar. Mantivemos essa promessa e continuamos a publicar atualizações regulares em nosso banco de dados online e disponível a todos", diz o comunicado. "Além disso, a companhia decidiu não fornecer, diretamente ou através de terceiros, todo o financiamento de pesquisas científicas de bem-estar e saúde."

A nota também informa que a Coca-Cola Company não realiza pesquisas próprias e apoia estudos científicos de universidades e centros de pesquisas. "Segundo nossas diretrizes adotadas em março de 2017, fornecemos apoio financeiro para pesquisas somente se a entidade não pertencer à Coca-Cola e o financiamento cobrir apenas 50% do custo total da pesquisa", finalizou.