03/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 03/12/2018 00:00 -02

NeneSurreal: Mulher preta, periférica, mãe, avó, sapatão e grafiteira

Primeiro contato com atividades artísticas foi com sua avó, que era rendeira: “Minha avó foi me ensinando a olhar para cada coisa", conta em entrevista ao HuffPost Brasil.

NeneSurreal é a 271ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
NeneSurreal é a 271ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

"Essa apresentação eu faço para mim, de afirmação", emenda logo após elencar parte do que é. Não que precise de um lembrete. Mas abraçar tudo isso de peito aberto e cabeça erguida é uma grande conquista. Um ato de força e de coragem. Um posicionamento. "Sou NeneSurreal. Sem acento e tudo junto, sem sobrenome. Mulher preta, periférica, mãe e avó, grafiteira e sapatão". Na sequência, fala com afeto da filha maravilhosa que tem e dos três netos lindos. Sente orgulho mesmo de tudo que conseguiu em sua vida. E é fácil entender o motivo.

Sou NeneSurreal. Sem acento e tudo junto, sem sobrenome. Mulher preta, periférica, mãe e avó, grafiteira e sapatão.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Neste ano foi a homenageada da 15ª edição do Dia do Grafiti e participou da 4ª Bienal Internacional do Grafiti.

Hoje, aos 51 anos, mora na mesma rua em que cresceu, em Diadema, mesmo lugar em que criou a filha. Além disso, pode dizer que enfim vive de sua arte. Não totalmente – ainda. Mas há mais de dez anos pode voltar a se dedicar ao seu talento e sua grande paixão. Antes disso, seguiu a carreira escolhida pela mãe, na área da saúde, criou a filha sozinha após a morte do marido e foi conquistando seu espaço. "Criei minha filha e quando ela estava encaminhada eu vejo que tenho que me jogar. Atuante, vivendo e ganhando as moedas com arte tem uns 12, 13 anos".

Nenê é referência na área e está presente na cena do grafite de São Paulo há muitos anos. Sempre com luta. Neste ano foi a homenageada da 15ª edição do Dia do Grafiti e participou da 4ª Bienal Internacional do Grafiti. Ela tem orgulho e sabe da importância de estar nesses lugares - principalmente para outras mulheres como ela - e justamente por isso reforça ainda mais sua posição. "Eu nunca tinha participado [da bienal], já tinha sido cogitada, mas por algum motivo não fizeram o convite. Quero pontuar que são mais de 80 artistas, menos de um terço de mulheres e uma mulher preta. E não é porque não tem. Ainda hoje tenho que escutar que 'não acho as mulheres', 'não acho as mulheres pretas'. Elas estão aqui".

Ainda hoje tenho que escutar que 'não acho as mulheres', 'não acho as mulheres pretas'. Elas estão aqui.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Nenê é referência na área e está presente na cena do grafite de São Paulo há muitos anos.

Isso ela faz questão de lembrar. Elas estão aqui. Nenê está aqui. E faz tempo. Começou a pintar cedo, mas acabou interrompendo os rolês quando engravidou, aos 16 anos. Casou-se, teve sua filha e ficou viúva. "Não tive escolha. Quando engravidei minha mãe chamou o pai da minha filha e perguntou se ele queria casar, mas não perguntou para mim. Casei com esse homem que foi o amor da minha adolescência, mas fazia parte do crime e ele foi assassinado quando minha filha tinha dois anos. Me vi sozinha para criar uma menina e eu precisava fazer isso muito bem e agradeço as deusas porque criei minha filha super bem, ela é incrível, professora de dança, linda, inteligente, guerreira, consegui. Mas ninguém me dava nada".

Mesmo tendo interrompido os estudos durante a gravidez, Nenê conseguiu voltar e por decisão da mãe foi estudar Enfermagem e começou a atuar nessa área. "Fui trabalhar no hospital. Não é que eu não gostasse, mas não era minha meta de vida. Mas foi importante porque consegui criar minha filha. Se eu não estivesse nessa área eu não teria conseguido. Depois fiz faculdade de arte, mas não pensava em viver da minha arte, mas achava que eu podia ensinar. No fim virei grafiteira. Eu tinha tudo para dar errado".

Vivo arte 24 horas por dia. A arte me salva todo dia.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Sofro lesbofobia na família. Minha mãe não fala comigo. A relação com ela nunca foi boa."

Voltou para a sala de aula já "velha", encarou estágios e voltou a se dedicar a essa grande paixão: a arte. E antes mesmo de começar a se arriscar nos muros, Nenê já tinha sido introduzida a esse mundo. Ela lembra que foi com a avó materna que aprendeu as primeiras lições nesse quesito.

Entre os 9 e os 12 anos ela foi morar com a avó, em Minas Gerais. "Eu era terrível e minha mãe me deixou com ela. Minha avó era renderia e uma forma dela me castigar era ensinando os pontos e fazia os contos. Eu aprendi o macramê. Já tinha algo de sensibilidade porque a família do meu pai é toda de olaria, isso já estava em mim, mas minha avó foi me ensinando a olhar as coisas. A gente acaba não olhando e ela mostrava coisas".

Mulher brava, mas incrível, como define Nenê, a avó foi essencial para tudo que ela se tornou. Lembra que na época não gostava nem um pouco. Queria mais era subir em árvore e entrar no rio São Francisco que ficava ao lado da casa da avó. Mas hoje enxerga de outra forma. "Vejo a importância dela até no meu posicionamento, porque era uma mulher que se posicionava muito. Morava do lado rio e quando passava o vapor ela falava: "ó... Escuta". Hoje eu entendo. Aprendi isso com ela... observar muito bem, respeitar muito os outros e me posicionar".

Eu aprendi o macramê, minha avó foi me ensinando a olhar as coisas.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Para Nenê, tão potente quanto saber de onde viemos é saber quem nos tornamos.

Fora as histórias que ouvia. Lembra bem da conversa sobre desatar os nós. Não tem certeza se era exatamente isso ou se é coisa da cabeça dela, mas está fresco em sua memória. "Ela falava muito de desatar os nós. E é muito louco porque às vezes a gente está na vida com vários problemas e ela contava que aí é hora de desatar os nós... que é o macramê, é uma trama que se faz com nós, cada forma que você dá um nó é uma coisa...ele vira uma coisa e também desvira uma coisa. Então ela falava desse momento: 'desate o nó'.

Lição que ficou para vida, certamente. E a ajudou a encontrar o seu caminho, mesmo que por vezes tenha sido muito difícil. E os desafios não chegaram ao fim, mesmo após tantas conquistas. Recentemente, ao se assumir lésbica, novos preconceitos chegaram. "Sofro lesbofobia na família. Minha mãe não fala comigo. A relação com ela nunca foi boa. Foram vários ensinamentos, mas ela nunca me ouviu. Diferente da minha avó que, ao mesmo tempo em que era dura, era muito amorosa. Mas a gente tem essa coisa de dar um norte para os filhos e às vezes a gente não tem o tempo de dar o amor. Acho que foi a forma que minha mãe teve [de dar amor], ela me formou. Devo a ela isso".

A gente tem essa coisa de dar um norte para os filhos e às vezes a gente não tem o tempo de dar o amor.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"É minha vida, não me vejo mais sem ele, é minha terapia, é o que faço quando eu estou desacreditando de tudo."

E é justamente por causa de tudo que passou e aprendeu na vida que aquela definição de quem se tornou é importante. Porque tão potente quanto saber de onde viemos é saber quem nos tornamos. Nenê sabe muito bem. E por meio de seu trabalho pode colocar isso em evidência todos os dias. "Vivo arte 24 horas por dia. A arte me salva todo dia, não consigo ficar uma semana sem fazer um rolê na rua porque o grafiti me deu a oportunidade de estar aqui. É minha vida, não me vejo mais sem ele, é minha terapia, é o que faço quando eu estou desacreditando de tudo".

Encontrou a sua forma de desatar os nós. Mesma receita: Dedos ativos e olhar atento. Não tem erro.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto "Todo Dia Delas" ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.