LGBT
02/12/2018 09:33 -02 | Atualizado 02/12/2018 09:33 -02

Lorelay Fox: Da vida de drag queen no interior aos 500 mil seguidores no Youtube

Em entrevista ao HuffPost Brasil, artista fala sobre começo da carreira em SP, cena drag e fama nas redes.

Foi há mais de 13 anos, em uma cidade do interior de São Paulo, que Lorelay "nasceu".
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Foi há mais de 13 anos, em uma cidade do interior de São Paulo, que Lorelay "nasceu".

Um tutorial de maquiagem, um desabafo sobre a crise de idade, a vontade de fazer uma cirurgia plástica, a situação da política brasileira e a representação de gays na televisão. Esse repertório variado de assuntos pode ser encontrado na lista dos últimos vídeos publicados pela drag queen Lorelay Fox em seu canal no Youtube, o "Para Tudo". A voz inconfundível e o jeito calmo e didático para falar dos assuntos mais simples aos mais polêmicos são suas marcas. Conversando com seus mais de 500 mil seguidores, ela se tornou referência em comportamento e maquiagem, rompeu a barreira da internet e foi parar na televisão, como jurada do programa Superbonita, do canal GNT.

Por trás da make, peruca e look poderosos, está o publicitário Danilo Dabague, de 31 anos. Foi no interior de São Paulo, na cidade de Sorocaba, que ele começou a se montar, há mais de 13 anos. "No começo eu achava drag uma coisa muito estranha, não entendia muito essa arte da drag. Só que muitas drags da minha cidade já falavam que eu ia ficar bem montado", contou Danilo em conversa por telefone com o HuffPost Brasil.

No começo eu achava drag uma coisa muito estranha, não entendia muito essa arte da drag.

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Lorelay entre Renner Souza, Karol Conká e Giovanna Ewbank.

Quase 10 anos depois, em 2015, quando pensava em encerrar a carreira de drag queen, Danilo resolveu criar o canal no Youtube para Lorelay Fox. "Depois disso, tudo mudou", disse o publicitário. Ele conta que, com o canal, conseguiu fortalecer o nome de sua drag e desde então vem ganhando novos horizontes. Teve um conto publicado no livro Over The Raibow: Um livro de contos de fadxs (Planeta, 2016), foi consultor do programa Amor & Sexo, da Globo, e passou a atuar como palestrante em faculdades e empresas, falando sobre diversidade e a comunidade LGBT.

Neste ano, Danilo deixou o emprego na agência de publicidade em que trabalhava e passou a se dedicar exclusivamente ao canal. Com a agenda cheia, Lorelay estreou como jurada de maquiagens artísticas do novo formato do programa especializado em maquiagem no GNT, e atualmente é jurada do reality Corrida das Blogueiras, do canal "Diva Depressão", no Youtube. Para o ano que vem, o plano é ampliar o alcance do seu canal e escrever um livro.

Em um papo bem-humorado com o HuffPost Brasil, Danilo contou como criou a drag queen Lorelay Fox e como decidiu usar o canal como forma de falar sobre outros assuntos, além da maquiagem. "Com isso que eu descobri a verdadeira potência de tudo o que faço, de todo meu repertório como LGBT, como drag, como publicitário", explicou.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Como começou a fazer drag?

Lorelay Fox: Eu comecei com uns 16, 17 anos, de brincadeira. Eu tinha um amigo no colegial que ele queria muito se montar, só que não tinha coragem de fazer sozinho. Foi ele que me arrastou. Quando eu fiz 18, entrei num concurso em Sorocaba. Começo a contar a minha carreira a partir daí. Antes disso, era mais de zoeira. No concurso, eu fiquei em segundo lugar — esse meu amigo ficou em primeiro — e eu já fui contratado pela boate e comecei a trabalhar.

E como foi ser drag queen no interior de São Paulo? Sofreu muito preconceito?

Sorocaba é uma cidade bem grande, na época acho que tinha uns 600 mil habitantes. E, naquela época, a cena drag já era muito forte. Tinha muito show de drag, tinha balada de quinta a domingo com drags. Dentro do meio LGBT, era muito bem aceito. Todo mundo conhecia as drags, elas eram o centro da atenção da noite mesmo. Então nunca tive problema quanto a isso. Claro que, como em toda cidade, a principal balada ficava numa das principais avenidas, e aí o povo que passava de carro zoava a gente, jogava ovo. Quando você é novinho, você não tem noção do perigo que você está correndo, é tudo fervo e diversão.

E a ideia de criar um canal no Youtube surgiu como?

Sorocaba, como eu disse, tinha muita coisa para drag, mas isso quando eu tinha 18 anos. Com o passar do tempo, as baladas foram fechando e não surgia mais oportunidade. Eu passei muitos anos fazendo só festa, uma vez por mês, uma vez a cada 3 meses. Começou a não ter mais o que fazer. Aí depois de 10 anos, eu pensei: ou eu paro de me montar ou eu faço alguma coisa completamente diferente. Foi aí que eu pensei no YouTube. A minha última cartada foi o meu canal. E foi aí que tudo mudou.

Onde começa a Lorelay e termina Danilo? A Lorelay é uma personagem?

Essa é uma pergunta frequente. As pessoas têm uma dificuldade de entender que a Lorelay é só um uniforme que eu uso para trabalhar. É como se você perguntasse para um advogado se ele está o tempo inteiro de terno. Claro que o tempo inteiro ele é advogado, ele pensa nas questões do trabalho dele. Eu sendo influencer, passo o dia inteiro pensando, fazendo stories, falando com o seu público. Só que eu não estou dentro da personagem, sabe? Eu não me sinto dentro daquilo o tempo inteiro. Só que o que eu expresso enquanto Lorelay é o que eu já vivo como Danilo. São meus ideais, são meus conceitos de vida, são minhas visões. Então as pessoas vão entender que quando a Lorelay fala, sou eu falando, só que com outra roupa. É só isso. Mas essa é a minha vivência. Eu sei que tem outras drags que preferem passar mais tempo montadas do que desmontadas.

Hoje em dia as pessoas voltaram a querer ser drag, coisa que há 5 anos atrás não se via, tinha muito preconceito.

Divulgação
Para Lorely, "Ru Paul's Drag Race" conseguiu humanizar as drag queens, além de popularizar.

Quanto tempo leva para se montar?

Varia bastante. Para eu me montar para um vídeo no canal, que não precisa ser a "montação" completa, mas uma maquiagem básica e a peruca, levo uma hora e 20 minutos. Para eu me montar para um show, aí só a maquiagem leva uma hora meia ou mais, mais uns 45 minutos para a produção toda, então umas duas horas e meia ao todo.

E como surgiu a paixão pela maquiagem?

Não existe em mim uma paixão pela maquiagem. As pessoas acham que eu sou aquela 'bicha louca' da maquiagem, que compra horrores, igual a essas blogueiras maquiadoras, mas pra mim é completamente diferente. Desde muito novo, eu sempre desenhei. Para mim, a grande paixão sempre foi desenhar. Desde pequeno, minha mãe me colocou em curso de desenho. Dentro da publicidade eu trabalho como designer gráfico e ilustrador. Fazer maquiagem para mim é isso. Não é maquiar por causa da beleza. É fazer um desenho na cara. Por isso a maquiagem artística fala tão alto para mim, porque não é uma maquiagem social, é uma maquiagem onde você pode usar o rosto como uma tela em branco para viajar. Por isso a minha ligação é muito mais artística do que um vício pela maquiagem. Acho que ser drag é muito isso.

Você diz que o RuPaul é uma das suas maiores inspirações. Você acha que o reality show RuPaul's Drag Race teve peso nessa popularização da cultura drag para além do público LGBT?

Como eu me monto muito tempo antes disso, eu vi muito essa transformação. Eu tenho certeza absoluta que fez toda a diferença para todo o movimento drag que a gente está vendo agora, de Pabllo [Vittar], de Gloria Groove, foi o Rupaul que trouxe isso. É inegável. Porque mesmo dentro do meio LGBT a gente não tinha aceitação que tem hoje. Hoje em dia as pessoas voltaram a querer ser drag, coisa que 5 anos atrás não se via, tinha muito preconceito. E foi sem dúvida o seriado que abriu portas para as pessoas olharem pra drag com uma visão artística. O seriado conseguiu humanizar a gente, mostra como é a realidade, o dia a dia por trás das personagens. Isso trouxe uma visão de encantamento muito grande. Tanto é que eu viajo o Brasil inteiro fazendo palestras e shows e consigo ver a nova onda de drags que está surgindo por causa do seriado. Então, sem dúvida, foi um divisor de águas.

Além de fazer os vídeos de maquiagem, você faz algumas reflexões no seu canal. Fala sobre política, sobre a representação da comunidade LGBT no entretenimento, sobre "ideologia de gênero". Você acha que é importante, como influenciador, se posicionar sobre esses temas?

Eu acho que a gente tem que posicionar sobre todos os temas que acha relevante e que tem propriedade para falar. Não acho que a gente só possa falar sobre causas LGBT, podemos falar sobre tudo, de acordo com a nossa ótica e com o bom senso. Se para outros influenciadores, tipo PC Siqueira, Cauê Moura, Kéfera, já é importante se posicionar, para mim, que sou um dos maiores representantes da internet brasileira no que diz respeito aos LGBTs, é mais importante ainda. Porque a gente carece muito de pessoas para representar nossos ideais. É um papel muito importante, para nós, LGBTs, esse de levantar bandeiras. Mas não digo necessariamente trazer certezas. Acho que meu papel como influenciador é o de levantar questões para serem discutidas, tocar em assuntos que não são tocados na mídia tradicional. Eu acho que esse é o grande sentido do meu trabalho, sabe? Com isso que eu descobri a verdadeira potência de tudo o que eu faço, de todo meu repertório como LGBT, como drag, como publicitário. Falar sobre esses temas foi onde eu encontrei onde usar tudo o que eu sei.

A gente carece muito de pessoas para representar nossos ideais.

Reprodução/Arquivo Pessoal/Instagram/@LorelayFox
Por trás da make, peruca, e look poderosos de Lorelay, está o publicitário Danilo Dabague, de 31 anos.

Como foi a experiência em trabalhar em um programa de televisão?

A experiência mais louca da minha vida. Muito intenso. A gente gravou 13 dias praticamente seguidos, quase não teve intervalo. Passava muito tempo em set, muito tempo montado. Foi muito intenso, mas ao mesmo tempo uma experiência muito gratificante, não só por eu conhecer pessoas incríveis, que são as meninas [Karol Conká e Giovanna Ewbank] e o Renner [Souza], mas por tudo que eu pude aprender mesmo, fazendo um trabalho com TV tão importante. Fiquei muito feliz por eu estar na TV falando coisas que eu nunca falei. Porque toda vez que eu estive na televisão antes foi para falar sobre militância. E esse é apenas um dos meus lados, um dos meu potenciais. Com o Superbonita eu pude mostrar mais o meu lado como artista, como maquiador, como profissional desse meio. E o resultado está maravilhoso. Eu estou muito feliz.

E quais são os próximos planos?

No ano que vem, eu pretendo lançar um livro. Ainda está em projeto. Já tenho um livro publicado, em parceria com outros autores. Dessa vez quero lançar um projeto meu mesmo. Nada de ficção. Quero fazer um livro sobre a história das drags, sobre maquiagem, autoestima, aceitação. Quero tratar desse universo. E também vou investir no meu canal cada vez mais. O canal é o meu principal foco. Por mais que a TV seja incrível, e eu espero ter mais oportunidades na televisão, estou totalmente dedicado ao canal. E exige muito trabalho, porque eu faço tudo, desde o roteiro, a captação do vídeo e a edição. Eu faço tudo sozinho, então preciso me dedicar muito para isso e é o que eu mais gosto de fazer.