ENTRETENIMENTO
01/12/2018 13:00 -02 | Atualizado 01/12/2018 15:29 -02

Paulo Betti: 'Vamos ficar atentos a todos os atos do governo'

Ao HuffPost Brasil, ator fala sobre polarização na política, a participação na novela das 9 e sobre como a tecnologia tem afetado a interpretação na TV.

"Essa não é uma profissão que você diz 'vou fazer meu pé de meia e vou sair fora'. Acredite nos valores mais universais e menos na grana."
Fabiano Battaglin/Gshow
"Essa não é uma profissão que você diz 'vou fazer meu pé de meia e vou sair fora'. Acredite nos valores mais universais e menos na grana."

Paulo Betti foi um dos vários artistas da TV Globo que saíram pelas ruas do Rio às vésperas das eleições de 2018 para pedir votos para o então candidato à Presidência Fernando Haddad, do PT.

A vitória de Jair Bolsonaro nas urnas não era a almejada pelo ator e colegas de ofício como Leandra Leal, Patrícia Pilar e Letícia Sabatella, mas também não é vista por ele com ressentimento."Foi feita uma escolha. Agora nós vamos ficar atentos a todos os atos e decisões do governo para continuarmos fazendo política".

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o ator conta que aprendeu muito com a experiência e pretende "continuar conversando". Para ele, problemas agudos na área da segurança e da saúde justificam a adesão da maioria da população brasileira ao discurso do capitão reformado do Exército.

Ele também cita o "fator imponderável", que é como chama o atentado sofrido pelo então candidato do PSL. "Jamais um candidato que toma uma facada no meio da multidão vestindo uma camisa verde e amarela com os dizeres "meu partido é o Brasil" vai perder uma eleição. Ou ele morre ou ganha a eleição. Ele ganhou", diz.

Aos 66 anos, Paulo Betti vive uma experiência inédita na carreira. A convite do autor Aguinaldo Silva, ele interpreta na novela das 9, O Sétimo Guardião, um personagem conhecido do noveleiros de plantão: Ypiranga Pitiguary, o prefeito de Greenville, cidade fictícia de A Indomada (1997), folhetim escrito pelo mesmo autor. Reviver o personagem trouxe também outras memórias ao ator.

"O Ypiranga Pitiguary também já é Timóteo e Téo Pereira, outros personagens que eu fiz também." E faz uma revelação sobre o personagem: "O que eu criei de sotaque nordestino é tudo mentiroso. É tudo cópia do Chico Anísio".

Contabilizando quase 50 anos anos de carreira no teatro, na televisão e no cinema, o ator também reflete sobre como as novas tecnologias de som e imagem nas gravações têm influenciado o trabalho dos atores. "Existe uma repetição e uma disciplina por causa da presença de câmeras com mais sensores de movimento, que são muito mais fortes. Elas exigem em cena quase um comportamento de cinema", conta o veterano.

Leia a íntegra da entrevista.

HuffPost Brasil: Assim como outros artistas da Globo, o senhor esteve nas ruas às vésperas das eleições para pedir voto para o candidato à Presidência Fernando Haddad, do PT. Qual é a expectativa do senhor em relação ao Brasil após a vitória de Jair Bolsonaro?

Paulo Betti: Política é uma coisa interminável. A ação política é contínua. As pessoas agora têm que ficar ligadas, conectadas, observando e pressionando. Foi feita uma escolha. Agora nós vamos ficar atentos a todos os atos e decisões do governo para continuarmos fazendo política. Eu, particularmente, me sinto tranquilo com o trabalho que fiz. Eu gosto de me envolver, discutir e participar. E aprendi muito. Porque a gente vai para a rua com a pretensão de esclarecer as pessoas, mas volta muitas vezes esclarecido. As pessoas sabiam o que estavam fazendo. Havia pessoas concordando e discordando de mim. Os dois lados sabiam exatamente o que estavam querendo fazer. Isso é interessante. Eu estava de um lado, mas ouvi muita coisa interessante do outro lado também. Gostei da experiência e pretendo continuar conversando.

Levando em consideração essas coisas boas que o senhor ouviu, por que acha que a maioria dos brasileiros abraçou nessas eleições o discurso da direita?

A gente realmente não tem muita noção do que acontece no mundo real. A segurança, por exemplo. A gente não tem noção de como é pesada essa questão para grande parcela da população. Como é forte também a questão da falta de hospitais, por exemplo. Quando eu falava sobre a defesa que um candidato fazia da tortura, eu ouvia: "tortura é você morrer na porta do hospital". Houve uma identificação muito forte do discurso. Acredito que também houve nessa eleição o fator imponderável, que é o "Sobrenatural de Almeida", como dizia Nelson Rodrigues. A facada foi o grande momento da eleição. A facada mudou toda a configuração eleitoral. Jamais um candidato que toma uma facada no meio da multidão vestindo uma camisa verde e amarela com os dizeres "meu partido é o Brasil" vai perder uma eleição. Ou ele morre ou ganha a eleição. Ele ganhou.

Muitos atores e outros profissionais da Globo se posicionaram a favor de candidatos ou siglas nessas eleições. Essa discussão também é presente no dia a dia de trabalho de vocês dentro da emissora?

Não, mas existe uma conversa. Aqui é um local de trabalho. Você acha que as pessoas não estão conversando nas fábricas? Em todos os lugares isso está sendo discutido. A política veio para o primeiro plano. Acredito que agora haverá uma "amainadinha", vai ser um período de reflexão. Dá um certo cansaço do tema também. As pessoas começam a olhar para o lado. Mas começam a olhar para o lado e veem que há políticos apoiando que crianças filmem seus professores para dedurá-los. Isso também acaba virando um tema. Nós vamos ficar atentos e mobilizados. Eu acho que a mobilização não pode parar, tem que continuar o tempo todo. A política não acaba nunca.

O que achou das eleições no Rio de Janeiro?

Pra mim foi devastador. Os três candidatos - à presidência da República, ao governo do Estado do Rio e da prefeitura do Rio -, todos ligados à direita e uma direita que usa religião como escudo. Essa direita fundamentalista religiosa é muita estranha.

Foto: TV Globo
Paulo Betti na pele de Ypiranga em 'O Sétimo Guardião', novela das 9 da TV Globo.

Mas vamos falar sobre a novela. O senhor já tem quase 50 anos de carreira. Ainda se sente desafiado a cada novo trabalho ou acredita que já tem todas as ferramentas para entregar a interpretação certa?

A gente nunca sabe direito como vai ser um personagem. São muitas circunstâncias. Esse é um personagem que eu já fiz. Então, provavelmente, ele já está em algum lugar da minha cabeça. Mas tem outros personagens que eu fiz que vão se misturar a ele. O Ypiranga Pitiguary também já é Timóteo e Téo Pereira, outros personagens que eu fiz também. Por exemplo, teve uma hora que eu falei "visse" e fiz um gesto que eu já tinha feito com outro personagem em outra novela. Acho que o resultado é uma mistura. Se está certo, se é bom ou se não é, eu não sei. Outro exemplo, tinha uma coisa que eu falava no personagem Carlão Batista, "tronquilo", que acabei incorporando ao Ypiranga. Porque eles todos eram de um nordeste ficcional. Um nordeste que eu não conheço direito. Conheço pouco o nordeste. O que eu criei de sotaque nordestino é tudo mentiroso. É tudo cópia do Chico Anísio [risos].

Como o senhor lida com as críticas? Ainda é atingido por elas?

Eu sou atingido e luto com as armas que eu posso para tentar defender meus trabalhos. Por exemplo, eu tomei um zero com o personagem Téo Pereira três dias depois que a novela [Império] estreou. No texto, dissecavam meu trabalho e diziam que estava tudo errado. Mas eu já tinha gravado dois meses. O que eu faço? Mudo todo o meu trabalho porque alguém achou que estava errado ou confio nos dois meses do trabalho que já fiz? Eu resolvi aceitar entrevistas de todo mundo que me procurava para falar sobre o meu personagem e com isso eu combatia aquele zero. "Mas estão dizendo que você é caricato demais." Gente, mas vocês esqueceram como eram as bichas caricatas? Como é que faz o papel de um gay? Do jeito que você quiser. Tem o cara mais retraído. Tem o gay que é mais desbundado. Eu fiz o meu gay. Se eu fosse gay e escrevesse em um blog, eu seria aquele gay. Eu tive que defender aquele estilo de interpretação.

Agora, mudando de assunto, hoje vendo a novela A Indomada [que está sendo reprisada no canal Viva], percebo como era exagerada a nossa interpretação. A interpretação mudou muito. Você faz tudo de forma mais contida atualmente.

Ao que o senhor atribui essa mudança?

Não sei. Aquele novela tinha realmente um pé na comédia. Era realmente um estilo que a gente fazia de representação. Acho que a gente foi se apurando com o tempo. Hoje também a iluminação é quase de cinema. Então você se contém pra colaborar com a [equipe] técnica. Antigamente você fazia uma cena e já valia, não havia tanta preocupação com a técnica. Agora você faz a mesma cena 20 vezes. Existe uma repetição e uma disciplina por causa da presença de câmeras com mais sensores de movimento, que são muito mais fortes. Elas exigem em cena quase um comportamento de cinema.

Qual era a grande diferença da encenação no cinema e na televisão? Na televisão, a gente ficava mais solto. Hoje em dia estamos ficando mais presos. A gente grava também com [microfone] lapela. Isso já muda a sua interpretação. Enfim, acho que a tecnologia influencia nessa interpretação e acaba nos deixando mais próximos de um realismo.

Pensando em tudo isso, que mensagem o senhor deixaria para atores em início de carreira?

O dinheiro não está acima de tudo. Essa não é uma profissão que você diz "vou fazer meu pé de meia e vou sair fora". Acredite nos valores mais universais e menos na grana. Acredite que vale a pena você fazer uma carreira consequente, baseado naquilo que você acredita. E não adianta procurar facilidade, é difícil mesmo.