02/12/2018 00:00 -02 | Atualizado 02/12/2018 21:13 -02

A história de Ana Vitória Lago, a primeira modelo com microcefalia do Brasil

“Os médicos disseram que ela não andaria e hoje está aí desfilando", afirma Viviane Lima, mãe de Ana Vitória, em entrevista ao HuffPost Brasil.

A história de Ana Vitória Lago é a de número 270 do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil que celebra 365 mulheres.
Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
A história de Ana Vitória Lago é a de número 270 do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil que celebra 365 mulheres.

Ela é alta. Sua presença, imponente. De ombros largos, cultiva cabelos lisos, pretos e compridos. Não pode ver uma câmera. É talento. Com a mão da cintura, ela manda beijos, sorrisos, faz pose. "Adoro desfilar. Sou roraimense e modelo com microcefalia". Ana Victória Lago, aos 19 anos, se orgulha de fazer de sua deficiência apenas um detalhe de quem ela é.

"A Ana sempre gostou de maquiagem, roupas, acessórios. Todos esses trejeitos dela durante as sessões me surpreenderam", diz Viviane Lima, 38, funcionária pública e mãe da Ana Victória e da Maria Luiza, 17, que também nasceu com microcefalia, uma condição genética que afeta o desenvolvimento cerebral do feto na gestação.

A carreira de Ana Victória na moda começou depois de um convite para ela e a irmã participarem da campanha "Arte Sem Preconceitos" de uma agência em Manaus (AM) com 30 crianças e adolescentes com deficiência. Ana superou as expectativas. "O pessoal da agência ficou encantado com as poses, com a postura dela. A dona viu e disse logo que ela tinha jeito de modelo", relembra.

Os médicos disseram que ela não ia andar e nem falar e agora modelo? Um sonho.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
A história da Viviane e as duas filhas ganhou vez em Manaus e no restante do Paísem 2015, durante o surto de zika vírus.

Não demorou muito para aparecer a primeira oportunidade profissional, mas ainda sem ganhos. A agência queria Ana Victória no casting de modelos, mas para isso, ela tinha que fazer um "book" para compor o banco de dados. O segundo ensaio com iluminação, estúdio, cabelo e maquiagem foi ainda mais revelador. "Ela agiu com tanta naturalidade. Nasceu para aquilo. É um incentivo para ela e para toda família também", conta Viviane.

As primeiras fotos foram divulgadas nas redes sociais e junto com os cliques e comentários, uma repercussão sem precedentes. Um site americano entrou em contato com Viviane para contar a história da nova fase da filha como modelo. "Depois que publicaram a história dela, Ana Victória, passou a ser considerada a primeira modelo com microcefalia do Brasil e do mundo". Ela lembra que, depois disso, vieram outras publicações, além de aparições em programas de televisão em rede nacional.

Ela se sente linda e ama o que faz. Isso não tem preço.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Vitória é a primeira modelo com microcefalia do Brasil.

Apesar de toda a representatividade em torno da inclusão, até agora poucos trabalhos profissionais pagos apareceram. O mercado de moda é até aberto para a causa, mas para Viviane, falta uma olhar mais sensível e estratégico. "A dona da agência queria que ela desfilasse como outras modelos, mas isso fugia totalmente da proposta de inclusão. Não deu para continuar assim. Por isso, eu e meu marido resolvemos agenciar a nossa modelo."

A mãe explica que trabalhos com cunho publicitário para inclusão Ana não deixa de fazer. Agora, em campanhas que não abordam o assunto, é mais difícil. "O Brasil não abraçou ainda. A repercussão foi tanta. Sabemos do potencial dela. Ela amadureceu muito." A única campanha paga foi para uma fabricante de cintas modeladoras na capital amazonense.

É preciso um olhar sensível e estratégico para modelos com microcefalia.

Por trás da vivência da primeira modelo com microcefalia, existe uma história forte de sobrevivência, esperança e muita luta. Aos 18 anos, Viviane, grávida de 6 meses, descobriu que o bebê tinha microcefalia. À época, chegou a ouvir de especialistas que sua filha não seria capaz de andar. Os exames apontaram que uma parte do cérebro dela não funcionava. Um quadro considerado irreversível até então. Mesmo com muitas dúvidas e pouca informação sobre a condição na época, ela nunca deixou a esperança ir embora. Acreditou em um outro caminho.

O alívio veio logo. Com estímulos motores e sensoriais, além de sessões de fisioterapia, Ana conseguiu sentar aos 6 meses de vida e andar com 1 ano e 2 meses. "O desenvolvimento mental equivale a de uma criança de 8 anos. Se eu não tivesse acreditado ela não chegaria até aqui."

Sabia que ela ia superar tudo. Não duvidei em nenhum momento.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Sabe aquela história de não deixar de fazer pose sempre que vê uma câmera? Então.

Horários, exercícios, fisioterapia, tudo o que Viviane podia fazer, ela fez, para conseguir estimular o desenvolvimento da filha. Parecia que tudo, finalmente, estava se ajustando à rotina quando recebeu a notícia da chegada da Maria Luiza, hoje com 17 anos, que também viria com microcefalia. "Fiquei abalada! O prognóstico foi pior. Os médicos disseram que ela não conseguiria sobreviver 24 horas", lembra.

Mas Maria Luiza está aí para contar história. Ela, diferentemente da irmã, não gosta muito das câmeras. Prefere cantar, dançar e não larga a sua boneca de pano que carinhosamente apelidou de "Chiquinha". Além da microcefalia, Maria também adquiriu Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), um transtorno que causa repetição de ações e pensamentos. A boneca ajuda a acalmar. "Quis marcar na pele uma caricatura delas com suas características. A Chiquinha não podia faltar e nem minha terceira filha, Julia, de 9 anos. Meus amores, minha paixão, meu tudo", diz Viviane, ao lembrar que o tatuador nem cobrou pelo desenho. Ele também se emocionou.

Cresci como mulher, como mãe e como pessoa.

Iana Porto/Especial para o HuffPost Brasil
Maria Luiza não larga sua boneca de pano.

A história da Viviane e as duas filhas com microcefalia ganhou vez em Manaus e no restante do País na época do aumento da incidência da doença durante o surto de zika vírus no Brasil em 2015. A manauara resolveu criar um grupo em um aplicativo de conversa para compartilhar experiências e, acima de tudo, incentivar outras mães. "Senti que precisava falar para as mães que microcefalia não é o fim. Tem esperança", diz enfática.

As duas meninas já frequentaram escolas regulares, mas, por conta das dificuldades de ensino específico, Viviane preferiu que elas estudassem em uma escola mais inclusiva. "As redes particular e pública ainda precisam vencer muitas barreiras, principalmente com a socialização. Mas tenho esperança que tudo pode melhorar daqui para frente", acredita.

A inclusão está em mim, então, onde eu estiver, vou fazer com que as pessoas se conscientizem.

Depois de ver as filhas superarem todas as dificuldades, os sonhos foram renovados. Mesmo com o preconceito silencioso, ela tem o sonho de abrir uma instituição sem fins lucrativos para oferecer exames, consultas, fisioterapia, para pessoas com deficiência. "Se eu não usar isso para mudar a vida das pessoas, nada vai valer", acredita.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Samira Benoliel

Imagem: Iana Porto

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.