POLÍTICA
29/11/2018 08:15 -02 | Atualizado 29/11/2018 15:40 -02

A relação entre Bolsonaro e Paulo Guedes: ‘É a ordem conversando com o progresso’

Futuro superministro da Fazenda minimiza declarações politicamente incorretas do presidente eleito e diz também não estar disposto a agradar a audiência.

Paulo Guedes tem carta branca do presidente eleito para compor sua equipe e traçar estratégias para o próximo ano.  
Reuters
Paulo Guedes tem carta branca do presidente eleito para compor sua equipe e traçar estratégias para o próximo ano.  

"O empresário brasileiro tem uma bola de ferro na perna direita, que são os juros altos; uma na perna esquerda, que são os impostos; um piano nas costas, que são os encargos sociais trabalhistas. Aí você traz o chinês e fala: agora corre que o chinês vai te pegar."

A anedota é uma das várias que o economista Paulo Guedes, futuro superministro da Fazenda, usa para explicar a situação do Brasil. O jeito fácil e sucinto é um dos fatores que ajudam a explicar sua relação com o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

Se o interlocutor deixar, o futuro ministro segue de um jeito que chega a lembrar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As analogias também entram em campo, assim como fazia o petista. "A grande verdade é que se não existe fluminense, não existe flamengo", disse o economista à jovem militância do MBL, no 4º congresso do grupo, no último sábado (24). Os clubes servem para justificar seu ponto de que esquerda não existe sem direita e a vitória de Bolsonaro mostra que "estamos seguindo uma democracia virtuosa". "Virtuosa, apesar dessas paixões e emoções."

Sobre o futuro chefe, Guedes tenta amenizar o discurso muitas vezes politicamente incorreto e diz, que como Bolsonaro, ele também não está "disposto a agradar" a audiência.

"Olha, ele [Jair Bolsonaro] fala feio. O presidente tem bons princípios. Se ele tem bons princípios, qual problema de ele não se expressar de uma forma politicamente correta? Tem muita gente que se expressa de uma forma politicamente correta, mas está roubando, está com a mão no cofre", afirmou, no mesmo congresso.

Segundo Guedes, Bolsonaro pode "até se expressar de uma forma que não é a melhor", fazer gestos de armas com as mãos, "mas todo mundo sabe de que lado ele está".

"As lentes sociais estão cheias de gente de boas maneiras e péssimos princípios. Tem gente que até pode ser atrapalhada nas boas maneiras e ter excelentes princípios."

Ordem e progresso

Entre esses princípios, segundo Guedes, está a intenção em preservar vidas e propriedades. "Não é razoável se você não sabe se a sua família vai voltar para a casa por causa da violência."

Para ele, foi quando Bolsonaro começou a falar sobre esses temas que "o Brasil entendeu a mensagem da ordem".

E é também dentro desse tema que Guedes resume como é sua relação com Bolsonaro. Segundo ele, quando as pessoas perguntam como são suas conversas com o presidente eleito, ele responde que é "a ordem conversando com o progresso".

"A ordem no sentido do Estado de Direito, que é um estado que existe por causa da segurança da propriedade, segurança da vida. (...) E o progresso... A economia está parada, o desemprego alto, a economia que cresceu 3/4 do século passado acima de todo mundo, de repente atolou e não consegue sair do atoleiro."

Receita para o sucesso

Segundo o economista, ao deixar o estado crescer, sobram mais recursos para "fraternidade". A aposta dele é que a miséria passará a ser combatida pelo capitalismo. E para isso, uma receita "simples":

"Vamos fazer o caminho para a prosperidade. Houve muita estatização, nós vamos desestatizar. Os impostos subiram muito, nós vamos baixar. Os gastos públicos estão descontrolados, vamos controlar."

Sergio Moraes / Reuters
Paulo Guedes e Bolsonaro falam com empresários durante a campanha eleitoral

Como foi enfatizado nas eleições, "o governo que vem aí é um governo de centro-direita: conservador nos costumes e liberal na economia". Se ficasse 10 anos no poder, diz o economista, os impostos iam de 36% do PIB para 25%.

O ideal, segundo ele, é que o Brasil não passe do "quinto dos infernos". "Nosso herói nacional Tiradentes foi enforcado, depois esquartejado porque lutou contra o quinto dos infernos. 20% de imposto era considerado muito. Estamos com 30 e poucos e tem gente achando que está bom, mas é isso que sufoca o jovem empreendedor."

Guedes tem mantido uma agenda reservada. Mesmo na campanha, não foi muito de falar nem de aparecer. O sumiço se intensificou após desgate com a declaração de que poderia recriar um imposto semelhante à CPMF.

A aproximação entre o futuro ministro e Bolsonaro começou há um ano. Na época, o economista iniciava uma conversa com o apresentador Luciano Huck sobre a possibilidade de ajudá-lo na política. O namoro com Huck naufragou e iniciou-se um com Bolsonaro.

Fundador do Instituto Millenium e do BTG Pactual, Guedes é egresso da Universidade de Chicago, templo do pensamento econômico liberal. Na campanha, ele foi apelidado por Bolsonaro de 'posto Ipiranga" e se tornou uma espécie de "âncora econômica" do então candidato.

"Na questão política, ele me ouve. Assim como eu o ouço na economia. Essa conjunção está dando certo. Estamos namorando", resumiu Bolsonaro sobre o economista em agosto deste ano.

Em fase de construção do novo ministério, Guedes tem carta branca do presidente eleito para compor sua equipe e traçar estratégias para o próximo ano. Entre os que alimentaram o casamento dos 2 estão o filho de Bolsonaro, deputado federal reeleito Eduardo (PSL-SP), que mostrava mais interesse por economia liberal, a deputada eleita Bia Kicis (PRP-DF) e o pesquisador do Ipea Adolfo Sachsida, que hoje integra a equipe do governo de transição.