29/11/2018 00:00 -02 | Atualizado 29/11/2018 00:00 -02

Elba Boa Morte, a confeiteira que viu na arte de fazer doces uma boa vida

Ela já foi desacreditada por ser uma nutricionista obesa, mas jamais foi questionada por ser uma confeiteira magra. "O mundo é cruel demais com pessoas gordas."

Elba Boa Morte é a 267ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Elba Boa Morte é a 267ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Elba Boa Morte, aos 32 anos, tem, provavelmente, a autoestima que você sonhou. E e não é pra menos. Ela enfrentou de perto a obesidade e a hostilidade que vem junto com ela, e aprendeu na prática a valorizar a própria beleza. Nascida na periferia soteropolitana, ela fez seu primeiro bolo aos 9 anos. "Cozinhar sempre foi um evento lá em casa. Todo ano a gente fazia caruru de Cosme e Damião e todo mundo ajudava em alguma coisa. Com nove anos eu fiz meu primeiro bolo e ficou uma delícia, ainda me lembro dessa emoção", conta à reportagem do HuffPost Brasil.

Desde então, é ela quem faz todos os bolos das festas de família e dos amigos mais chegados. A atividade de cozinhar para os outros – sobretudo pratos doces – é terapêutica para ela. "Quando eu cozinho, parece que minha mente desacelera, eu consigo fazer tudo com calma e em paz", explica. Foi cozinhando ao lado da família – sobretudo da mãe, cozinheira de mão cheia – em sua infância e adolescência, que Elba descobriu o gosto pela confeitaria.

Minha mãe é minha referência na cozinha e na vida.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Foi cozinhando ao lado da mãe que Elba descobriu o gosto pela confeitaria.

Ela é nutricionista, mestranda em Ciência de Alimentos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e dona da confeitaria "Flor de Chocolate", em Salvador. O caminho até aqui foi árduo: aos 23 anos, concluiu sua graduação em Comunicação Social. Decepcionada com o mercado, embarcou em uma segunda graduação. Desta vez, em nutrição, e enfrentou muitos preconceitos na profissão por sua estética. "Ninguém confia em nutricionista gorda", desabafa.

Durante uma consulta de rotina no endocrinologista, Elba foi então apresentada à possibilidade de cirurgia bariátrica, que mudou completamente a sua vida. "Uma obesa não imagina que é obesa a ponto de precisar de uma intervenção cirúrgica, mas quando me convenci disso, meu mundo mudou. Depois da cirurgia, além de mais magra, fiquei mais amável: eu costumava ser muito grossa pra me defender de possíveis ataques gordofóbicos", recorda.

Ninguém confia em nutricionista gorda.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Ela é nutricionista, mestranda em Ciência de Alimentos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e dona da confeitaria "Flor de Chocolate", em Salvador.

A estética não foi a única razão pela qual Elba optou por se submeter à cirurgia. Além da obesidade, ela apresentava pré-diabetes e hipertensão eminente: era urgente cuidar da própria saúde e dos próprios hábitos. "Eu era uma bomba relógio", brinca. Ela conta que sua relação com a comida e com o próprio corpo mudou completamente após a cirurgia. "Não é só estética, você precisa emagrecer de dentro pra fora, mudar seus hábitos, se não, não adianta."

Além de cuidar da própria dieta – façanha que aprendeu muito bem na faculdade de nutrição e no pós-operatório – ela mantém uma vida ativa e hábitos saudáveis, mas não nega que mudanças estéticas foram importantes para a sua autoestima. "Tudo melhorou, inclusive minha relação com a comida, que hoje é uma relação de prazer, mas também de respeito, sem excessos", ressalta.

Muitas vezes, você precisa mudar sua aparência para que as pessoas te deixem ser feliz.

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil

A principal mudança na vida de Elba, entretanto, não foi estética. "Antes eu tinha vergonha de dizer que era nutricionista, porque era gorda. Julgava as pessoas, era grossa, me defendia muito. Aprendi a me importar menos e a ser mais amável", recorda.

Elba Boa Morte é dessas mulheres que aprendem com os baques da vida: com a bariátrica, aprendeu que ninguém é só um corpo, mas que é importante gostar do que se vê diante do espelho. Com a confeitaria, aprendeu a ter cuidado com as expectativas. "Às vezes o bolo não sai como eu esperava, e tudo bem. Eu vou lá e pacientemente faço tudo de novo, até sair como eu quero", afirma.

Apesar do amor pela confeitaria, ela sonha em seguir os passos das mulheres de sua família e tornar-se professora. "Aqui em casa as mulheres não são criadas para arranjarem marido, são criadas para serem independentes e livres. E só estudando a gente consegue isso", finaliza.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.