ENTRETENIMENTO
30/11/2018 04:21 -02 | Atualizado 30/11/2018 09:16 -02

A adaptação da HBO de 'A Amiga Genial' vai te transformar em socialista

Existem várias maneiras de se conscientizar, inclusive assinando um serviço de TV paga premium.

Chegou a hora da TV socialista de prestígio. Sim, existem várias maneiras de se conscientizar, inclusive assinando um serviço de TV paga premium. Aos poucos, o sentimento anticapitalista vem se insinuando nos principais produtos culturais de nosso tempo, do programa de culinária da Netflix Sal, Gordura, Acidez e Calor, de Samin Nosrat, à adaptação de A Amiga Genial, de Elena Ferrante, na HBO.

A série, como o primeiro dos quatro romances de Ferrante, é narrada por Elena "Lenù" Greco, uma mulher de idade lembrando da infância em um bairro operário da Nápoles dos anos 1950. Segundo o relato, a pequena Lenù faz amizade com Raffaela "Lila" Cerullo, filha de um sapateiro e menina mais inteligente da classe. Lenù, que também é uma ótima aluna, fica impressionada com a mente da rival e também com seu espírito rebelde e corajoso. As duas viram amigas inseparáveis na infância e desenvolvem uma relação profunda – e às vezes turbulenta – mesmo quando na adolescência e na vida adulta seus caminhos se separam: Lenù continua estudando, distante da violência mundana do seu antigo bairro. Lila tem de abandonar a educação formal e se entrega a uma busca por melhores condições de vida, por meio da ideologia socialista e esquemas para desenhar e vender sapatos de melhor qualidade.

Se os romances napolitanos de Ferrante tivessem sido publicados sob o nome de um homem, retratando a amizade entre dois jovens inteligentes, mas pobres, a conversa sobre a série de livros teria desde o começo tratado do exame detalhado da política italiana – especificamente do movimento socialista. É um tema central e inescapável dos livros. Em um artigo publicado em abril na revista Jacobin, Dawn Tefft chama Ferrante de "a líder dos líderes". Os livros que se passam nos anos 1970 mostram a confusão política da Itália e detalham a logística da organização dos trabalhadores, o papel dos privilegiados e dos oprimidos no âmbito do ativismo e a urgência e a impossibilidade de uma revolução.

Mas a série blockbuster de Ferrante chegou aos Estados Unidos em meio a uma onda feminista pop envolvendo grupos de mulheres – squads, BFFs e até mesmo a amizade/inimizade na narradora Lenù e sua "amiga genial" Lila. O feminismo estava em alta no mainstream e de certa forma enrolado com o capitalismo, na forma de um movimento que defendia o "faça acontecer", glamourizava as "girl bosses" e os produtos com slogans pró-mulheres. A questão socialista dos livros, para muitas, era meramente um detalhe histórico, não um tema relevante para os dias de hoje.

Mas o contexto mudou. O socialismo, como disse recentemente meu colega Zach Carter, agora é "bom", e isso significa que a política econômica dos livros não parece só pano de fundo histórico, mas sim como questão importante. A série A Amiga Genial chega à HBO num momento em que os Estados Unidos estão prontos para os temas socialistas -- e a adaptação de Saverio Costanzo, coproduzida pela HBO e pela rede italiana RAI, não os esconde.

Traduzir um romance para a tela, especialmente um livro tão meditativo quanto A Amiga Genial, é um processo atormentado pelos momentos interiores e exteriores. Percepção, ansiedade e contemplação podem preencher várias páginas do livro, mas na tela o que aparece é apenas um olhar distante. De fato, várias vezes vemos Lenù, interpretada por Elisa Del Genio e depois por Margherita Mazzucco, perdida em pensamentos silenciosos, com um olhar triste ou mesmo sem expressão nenhuma. Sua narração ocasional preenche algumas lacunas, esclarece sua adoração complicada por Lila (Ludovica Nasti e Gaia Girace) e suas inseguranças intelectuais. Mas, inevitavelmente, o clamor da longa obsessão pela amiga desaparece diante das câmeras. O que se ouve com mais facilidade nesse relativo silêncio são as conversas políticas de Ferrante.

Considere, por exemplo, o fascínio violento que o bairro tem por Don Achille Caracci e, depois, pela família Solara. A ameaça representada por esses homens ricos é parte integral dos livros, mas nas telas os gritos de terror que acompanham as brigas e espancamentos são mais chocantes que as descrições consideradas dos livros. Esses homens controlam o capital e, portanto, continuam acumulando mais riquezas e operando praticamente impunes em um bairro essencialmente pobre. Na abertura da série, o carpinteiro Alfredo Peluso perdeu seu negócio porque não conseguiu pagar os empréstimos com juros altíssimos cobrados por Don Achille; Peluso fica arruinado, amargo, e não tem para onde fugir. Os Solara, donos do único bar local, oferecem um emprego e uma maneira de diminuir a influência de Don Achille no bairro. Mas nada muda quando o poder troca de mãos – a única diferença é que agora sente-se medo de outras pessoas.

A economia da Itália no pós-guerra era muito diferente do que temos hoje nos Estados Unidos. Mas o funcionamento do capital nos mercados locais parecem muito familiares. Quem tem dinheiro consegue investir para ganhar um pouco mais; quem não tem precisa se virar para não acumular mais dívidas. Quem tem dinheiro comete crimes e não paga por eles; para quem não tem, a única saída é ficar em silêncio.

Eduardo Castaldo / HBO
Ludovica Nasti as young Lila and Elisa Del Genio as young Elena.

A educação é uma saída para Lenù e Lila, que são (especialmente Lila) meninas brilhantes. A professora da dupla, Maestra Oliviero, observa o potencial das duas e pressiona os pais de ambas para que elas continuem estudando, enquanto a maioria das crianças do bairro vai trabalhar numa fábrica ou em casa. Mas a série deixa claro que, se a educação é uma oportunidade de sair da pobreza, ela também significa um mecanismo de manutenção da estratificação social. Oliviero quer tirar Lenù e Lila da pobreza opressiva do bairro, mas, quando Lila tem de parar de estudar, a professora a humilha.

"Elena, você sabe o que é a plebe?", pergunta ela. "A plebe é uma coisa terrível. E, se alguém quiser continuar sendo plebeu, ele, seus filhos e os filhos dos seus filhos não merecem nada. Preste atenção no que vou dizer: esqueça Cerullo, pense em você."

O cuidado que ela tem com as meninas, percebe-se com a força de um tapa, vem com a crença que ela tem no valor de mercado de uma mente afiada. Aqueles que não mostram promessa para o trabalho qualificado não merecem atenção. Até mesmo a curiosidade ilimitada de Lila, seus hábitos de autodidata e sua criatividade não merecem consideração por parte da professora, a menos que se enquadrem no funil da educação tradicional. A humilhação imposta pela professora, na verdade, é uma resposta a Lenù, que lhe entregara um lindo livro, A Fada Azul, escrito e ilustrado por Lila.

O desdém para com as classes menos privilegiadas, e uma ligação profunda com a ordem social corrente, não é universal no bairro. O carpinteiro falido Peluso e seu filho Pasquale, amigo das meninas, são suspeitos de ser comunistas – e, portanto, perigosos. Quando Pasquale dá mostras de atenção possivelmente romântica para Lenù, os pais dela e a professora insistem que ela deve manter distância do rapaz. Lila, que se recusa a se resignar com o poder de Don Achille ou os Solara, fica intrigada com as escolhas políticas de Pasquale. Depois de um baile em que os Solara causam confusão e roubam uma dança com Lila, Pasquale diz para os amigos que a família operava um mercado negro no bar e "conquistava votos para monarquistas e fascistas".

"As pessoas falam, mas não sabem de nada. Você sabe muita coisa", diz Lila para ele. "Explica uma coisa: quem são os monarquistas? E os fascistas? O que é o mercado negro?"

"Algumas pessoas lucraram com a fome dos outros durante a guerra", responde ele. "Vendiam macarrão, pão, café a preços exorbitantes. As pessoas eram obrigadas a comprar para sobreviver. Tudo o que você está vendo, as casas, os carros, os edifícios, tudo foi comprado à base da extorsão."

É um momento excepcionalmente didático para uma série de TV – um mini seminário sobre o mal da exploração, primeiro passo para a radicalização. Embora seja uma versão relativamente fiel ao que se passa no livro, não se trata das camadas de lembranças obscuras e da interpretação de Lenù.

No livro, por exemplo, a cena termina com as perguntas de Lila. Quando Lenù continua sua narração, ela está cheia de dúvidas e preocupada com as emoções que sentiu e que está sentindo em relação ao que ocorreu: "Sobre mim, na época", lembra ela, "as palavras de Pasquale não tiveram efeito concreto. Mas [Lila], como sempre, ficou tão comovida e alterada, que o resto do verão inteiro ela ficou me atormentando com um único conceito, que eu achava insuportável". O leitor vive esse momento como um retrato impressionista de um despertar político.

Na série, o espectador vê o discurso de Pasquale da mesma maneira que Lila: como uma transferência de conhecimento e um chamado às armas. Em momentos como esse, a adaptação peca por ser muito direta, deixando poucas dúvidas dos interesses socialistas. Isso só deveria ficar mais evidente em possíveis temporadas futuras, quando os livros entram em detalhes do movimento trabalhista e do ativismo de esquerda, além dos traumas da opressão de classe e de gênero.

Os americanos que assinam TV paga premium começam a entender as possibilidades do socialismo, e A Amiga Genial pode ser a série que eles precisam assistir: uma história de despertar político acompanhada por trabalho duro, de partir o coração.

Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.