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26/11/2018 17:12 -02 | Atualizado 26/11/2018 17:24 -02

Desigualdade de renda de mulheres aumenta pela 1ª vez em 23 anos no Brasil

Relatório da Oxfam analisa dados do IBGE; proporção entre rendimentos de mulheres e homens foi de 72% para 70%.

Entre os mais ricos, os homens tiveram quase 19% de aumento em seus rendimentos entre 2016 e 2017, enquanto para elas o aumento foi de 3,4%.
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Entre os mais ricos, os homens tiveram quase 19% de aumento em seus rendimentos entre 2016 e 2017, enquanto para elas o aumento foi de 3,4%.

A desigualdadede renda entre homens e mulheres no Brasil aumentou pela primeira vez em 23 anos, segundo o relatório "País Estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras 2018", divulgado nesta segunda-feira (26) pela organização não governamental Oxfam.

As brasileiras ganhavam, em 2016, cerca de 72% do que os brasileiros recebiam. A proporção caiu para 70% em 2017, de acordo com dados das PNADs contínuas (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), realizadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que constam no relatório.

Em 2017, a renda média de mulheres era de R$ 1.798,72, enquanto a de homens era de R$ 2.578,15. Em relação ao ano anterior, o incremento médio de renda masculino foi de 5,2%, percentual que representa mais do que o dobro do índice feminino, de 2,2%.

Entre os mais ricos, os homens tiveram quase 19% de aumento em seus rendimentos entre 2016 e 2017, enquanto, para elas, o aumento foi de 3,4%.

Se o aumento para eles foi maior, a perda para elas também foi. Na metade mais pobre, as mulheres tiveram queda de 3,7% nos rendimentos, enquanto o recuo para os homens foi de 2%.

A lacuna de rendimentos entre gêneros refletiu-se na última atualização do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) para o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) brasileiro, que aponta um coeficiente de 0,761 para homens e de 0,755 para mulheres.

Redução da desigualdade parou no Brasil

De modo geral, a redução da desigualdade no Brasil parou em 2017. Desde 2002, o índice de Gini da renda familiar per capita, medido pelas PNADs, tem sistematicamente caído de um ano para outro - o que não foi observado entre 2016 e 2017.

"A roda da redução de desigualdades parou no Brasil. Entre 2017 e 2018, houve uma conjunção de indicadores negativos que contam a triste história de um grave recuo do progresso social no País. São retratos recentes de um processo que teve início há mais tempo e que não mostra sinais de reversão", diz o relatório da Oxfam.

ASSOCIATED PRESS
No último ano, o número de pobres cresceu 11% em um ano, atingindo 15 milhões de brasileiros (7,2% da população).

De acordo com o documento, nos últimos cinco anos houve um aumento da proporção da população em condição de pobreza , do nível de desigualdade de renda do trabalho e dos índices de mortalidade infantil.

Há quatro anos, a desigualdade na renda habitual do trabalho, que considera apenas o salário principal, vem aumentando, e a proporção de pobres voltou aos mesmos níveis de 2012.

Em 2016 e 2017, o Brasil se manteve no mesmo patamar do IDH (0,743), permanecendo na 79ª posição do ranking do Pnud, de um total de 189 países. Apenas em matéria de desigualdade de renda, o Brasil foi de 10ª para 9ª País mais desigual do planeta.

O número de pobres cresceu 11% em um ano, atingindo 15 milhões de brasileiros (7,2% da população). Os rendimentos do trabalho dos 10% mais ricos cresceram 6% de 2016 para 2017; já entre os 50% mais pobres, a renda caiu 3,5%. Entre os extremos, o rendimento médio do 1% mais rico é 36,3 vezes maior que a média do que ganham os 50% mais pobres.

Revogação do teto de gastos

O relatório também destaca a necessidade de melhora nos gastos sociais. "Melhorias podem ser alcançadas com um aumento da qualidade do gasto em geral (transparência, progressividade e efetividade)", diz o texto.

Considerando os principais gastos sociais – previdência, assistência, saúde e educação – o Brasil destinou a eles, em 2016, 22,8% de seu PIB. Mais da metade desse valor - o que equivale a 12,25% do total do PIB - foi para benefícios previdenciários, enquanto 1,55% foi para assistência.

Segundo a Oxfam, é urgente a revogação do teto de gastos, que considera um "limitador para a retomada da redução de desigualdades estruturais no Brasil".

Na questão fiscal, o sistema tributário "retroalimenta desigualdades de renda, raça e sexo", diz o relatório. Por outro lado, a ONG destaca que algumas medidas legislativas referentes à reforma tributária poderiam ter impacto expressivo e de curto prazo na redução de desigualdades.

Nacho Doce / Reuters
Houve uma redução de cerca de 2,5% de renda para negros mais pobres, enquanto brancos seguiram direção oposta, com incremento de quase 3% de renda.

Desigualdade de renda aumenta entre brancos e negros

As desigualdades de renda também aumentaram nos últimos 2 anos entre grupos raciais no Brasil. Em 2016, negros ganhavam R$ 1.458,16 em média, o que corresponde a 57% dos rendimentos médios de brancos, equivalentes naquele ano a R$ 2.567,8166.

No ano seguinte, os rendimentos médios de negros foram de R$ 1.545,30 enquanto os dos brancos alcançaram R$ 2.924,31, diminuindo a razão de rendimentos para 53%. A proporção não passava de 57% havia 7 anos, numa longa estagnação de equiparação iniciada em 2011.

O relatório aponta que as desigualdades raciais são visíveis dentro de estratos específicos de renda. A média geral da renda da metade mais pobre da população era de R$ 749,31 em 2016. Nesse grupo, os brancos ganhavam em média R$ 882,23 e negros pobres R$ 634,66.

Em 2017, a média geral para esse grupo era de R$ 804,35, sendo que os brancos nesse estrato ganhavam R$ 965,19 e os negros, R$ 658,14.

Nesse período, a divisão se aprofundou. Houve uma redução de cerca de 2,5% de renda para negros mais pobres, enquanto brancos seguiram direção oposta, com incremento de quase 3% de renda.

Do outro lado, entre 2016 e 2017, negros entre os 10% mais ricos incrementaram suas rendas em 8,10%, enquanto o crescimento dos ganhos da população branca neste grupo foram de 17,35%.

Nessa parcela, brancos ganhavam, em média, R$ 11.026,36 mensais em 2016 enquanto negros ganhavam R$ 5.384,00, o equivalente a menos da metade (49%). Em 2017, essa proporção passou para 45%, como brancos ganhando R$ 13.753,63 frente a R$ 6.186,01 por mês em média, no caso dos negros.