POLÍTICA
26/11/2018 07:51 -02 | Atualizado 26/11/2018 08:16 -02

A história de Onyx Lorenzoni, de 'baixo clero' ao número 2 na Esplanada

"Ele mostrou-se visionário ao perceber essa onda quando ela bateu na praia e conseguiu entender”, diz correligionário sobre aliança com Jair Bolsonaro.

Antonio Cruz/Agência Brasil
A imagem de paladino da moralidade garantiu a Onyx Lorenzoni reeleição com a segunda maior votação para deputado federal pelo RS.

No primeiro semestre de 2018, enquanto parte do DEM apostava na candidatura do presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a Presidência da República, o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS) não depositou suas fichas na política tradicional; ele já trabalhava pela eleição de Jair Bolsonaro. Em seu quarto mandato na Câmara dos Deputados, o gaúcho passou este ano de integrante do baixo clero a superministro no governo do PSL.

Nomeado como ministro extraordinário, responsável pela equipe de transição, Onyx tem acumulado semanas de agendas exaustivas em Brasília. Além das conversas para escolher quadros e elaborar políticas para o novo governo, o braço direito de Bolsonaro também tem se esforçado para avançar no diálogo com o Congresso.

A partir de 2019, quando assumirá o posto de ministro da Casa Civil, a relação com os parlamentares será justamente sua principal função. "Disse individualmente aos congressistas que, ao final de 2019, eles irão reconhecer que é o governo onde os congressistas brasileiros serão mais bem tratados, significando respeito e valorização", prometeu na segunda semana do governo de transição, após sair de uma visita a Rodrigo Maia.

Para cumprir a promessa, Onyx enfrenta algumas barreiras. Parlamentares simpáticos ao capitão da reserva têm reclamado da falta de diálogo e clareza do novo governo. Muitos citam como exemplo o fato de não haver uma proposta concreta de reforma da Previdência e o "bate cabeça" entre membros da equipe.

A própria forma de relação com o Congresso escolhida por Bolsonaro, de negociar com bancadas temáticas (ruralista, da bala e evangélica) e não com partidos, também é uma novidade — e uma dificuldade. Com a bandeira de Bolsonaro de que quer acabar com o "toma lá dá cá", as indicações a cargos têm sido alinhadas com esses grupos e não com legendas.

A futura ministra da Agricultura, deputada Tereza Cristina (DEM-MS) foi indicada pela Frente Parlamentar Agropecuária. Já a bancada evangélica conseguiu barrar para o Ministério da Educação a nomeação do diretor do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, por não considerá-lo defensor das bandeiras do segmento, como a Escola sem Partido.

Na prática, a estratégia tem limitações no dia a dia do Congresso porque o funcionamento é todo baseado em partidos. É a bancada partidária que orienta o voto e pode aplicar punições a parlamentares que contrariarem o entendimento da sigla. Bancadas temáticas não têm o mesmo poder formal.

EVARISTO SA via Getty Images
Ministro da Casa Civil do governo Temer, Eliseu Padilha se reúne com sucessor, Onyx Lorenzoni.

Escanteio de Onyx no DEM

A trajetória de Onyx Lorenzoni ao longo dos 4 mandatos na Câmara também não é exemplo de desenvoltura entre colegas. Em 2015, perdeu para Mendonça Filho (DEM-PE) a liderança da bancada do DEM. A articulação para eleger o pernambucano foi entendida pelo gaúcho como uma traição na época porque havia uma regra informal de revezamento.

Influente na cúpula do Democratas, Mendonça minimiza o conflito. "Temos uma ótima relação de solidariedade", afirmou ao HuffPost Brasil. Ele disse ter recebido Onyx diversas vezes enquanto estava à frente do Ministério da Educação (MEC) no governo de Michel Temer, para tratar de demandas do Rio Grande do Sul.

A disputa, no entanto, marcou um distanciamento entre o gaúcho e caciques do DEM. No início do ano, o próprio apoio de democratas a Bolsonaro foi mal visto por parte das lideranças, diante da possibilidade de Maia disputar o Planalto. "Não tem sentido membros do partido apoiarem outros candidatos, até pela história de coerência e de tradição do Democratas", disse ao HuffPost Brasil em março o senador Agripino Maia (DEM-RN), então presidente da legenda.

Hoje, correligionários defendem a postura de Onyx. "Ele tem sua convicções. Mostrou-se visionário ao perceber essa onda quando ela bateu na praia e conseguiu entender comparando os anseios da sociedade. Ele tem legitimidade para ocupar esse espaço", afirmou ao HuffPost Brasil o deputado Efraim Filho (DEM-PB).

Atualmente, o DEM é aliado do presidente eleito, mas não anunciou uma aliança formal. Presidente da legenda, ACM Neto nega que os 3 democratas nomeados ministros sejam indicação partidária e atribui a escolha a critérios pessoais de Bolsonaro. A movimentação visa evitar críticas de que o DEM teria poder demais e garantir a reeleição de Maia no comando da Câmara, em fevereiro.

Atual prefeito de Salvador, ACM Neto foi derrotado por Onyx na disputa pela liderança da bancada do DEM em 2007. O baiano assumiu o posto no ano seguinte. Quando estava à frente da bancada, o gaúcho foi colega de Bolsonaro, filiado ao Democratas por 2 anos.

EVARISTO SA via Getty Images
Futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, perdoou caixa dois de Onyx Lorenzoni.

10 Medidas contra Corrupção

O futuro chefe da Casa Civil também provocou desconforto entre colegas ao relatar o projeto de lei conhecido como 10 Medidas Contra a Corrupção. Na época, houve uma articulação de diversos parlamentares investigados para incluir uma anistia ao caixa 2, mas a manobra não chegou a ser aprovada. A proposta, contudo, foi desfigurada na votação da Câmara, em dezembro de 2016.

Entre as medidas derrubadas estava uma que dificultava a prescrição de penas para crimes de colarinho branco e outra que previa a responsabilização dos partidos políticos e a suspensão do registro da legenda por crime grave. Também foi incluída uma proposta de punição de juízes e membros do Ministério Público por abuso de autoridade, vista como uma retaliação a investigadores.

Após o resultado, Onyx disse que colegas agiram por vingança. "Trouxeram essa famigerada situação de ameaça, de cala-boca, de agressão ao trabalho dos investigadores brasileiros. Creio que a Câmara perdeu a chance de prestar um serviço ao Brasil. E, movidos por uma sede de vingança contra o MP e contra o Judiciário, acho que começaram uma crise institucional que deve se agravar nos próximos meses", afirmou à época.

O episódio hoje é tido como superado por colegas e visto como capital político entre eleitores. "Foi o lugar em que ele mostrou que estava certo. Foi essa agenda [contra corrupção] que ganhou a eleição. Se houve desgaste, foi superado até porque muitos acabaram ficando para trás", disse Efraim Filho, em referência à renovação recorde na Câmara.

A imagem de paladino da moralidade garantiu a reeleição com a segunda maior votação do Rio Grande do Sul. Foram 183.518 votos. Em 2014, Onyx tinha ficado em quinto, com 148.406 votos.

Com 16 anos de atuação parlamentar, o futuro ministro apresentou ao menos 107 projetos de lei, 2 projetos de lei complementar e 7 propostas de emenda constitucional, mas não conseguiu aprovar qualquer proposta de autoria própria. Ele é, contudo, coautor de duas medidas aprovadas pela Câmara e pelo Senado. Uma determina que os repasses do fundo partidário sejam proporcionais ao tamanho das bancadas eleitas. A outra cria o Vale Cultura.

CPMI dos Correios

A bandeira de luta contra corrupção é mais antiga do que o episódio das 10 medidas. O deputado ganhou relevância nacional em 2005 na CPI Mista dos Correios que resultou, 7 anos depois, na condenação de 25 réus pelo Supremo Tribunal Federal pelo escândalo do mensalão.

Com um chimarrão, o gaúcho fazia discursos enfáticos contra o PT, chamando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aliados de "quadrilha". A mesma expressão foi repetida diversas vezes por opositores às gestões petistas diante das revelações da Operação Lava Jato a partir de 2014 e ao longo do processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016. O antipetismo foi também crucial para a vitória de Bolsonaro nas urnas.

Após a divulgação do relatório final da CPI, Onyx aproveitou a onda e publicou um livro-denúncia, chamado A máfia da estrela, com diversos ataques ao PT.

Valter Campanato/Agência Brasil
Onyx Lorenzoni fazia discursos enfáticos contra o PT na CPI dos Correios, chamando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aliados de "quadrilha".

Caixa dois da JBS

Se a luta contra crimes de colarinho branco garantiu votos, a acusação de caixa 2 é o ponto fraco de Onyx. No último dia 14, ele afirmou que é um "combatente contra a corrupção" após acusação de receber caixa 2. Planilha de delatores da JBS mostra que o deputado do DEM teria recebido R$ 100 mil em 2012, segundo o jornal Folha de S. Paulo.

É a segunda acusação desse delito. Em 2017, o parlamentar confessou ter obtido da empresa R$ 100 mil não declarados à Justiça Eleitoral para a campanha de 2014. O episódio chegou a ser objeto de perdão do futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, defensor das 10 medidas contra corrupção. "Ele mesmo admitiu os seus erros e pediu desculpas, e tomou as providências pra reparar", respondeu o juiz em uma coletiva de imprensa após ser escolhido para compor o governo Bolsonaro.

O delito também está marcado na pele de Onyx. Ele tatuou no braço o versículo bíblico: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" e diz que a frase é um lembrete para "nunca mais errar". "Entre carregar uma mancha que me macularia pela vida toda, eu resolvi ter uma cicatriz", disse em entrevista a uma rede de TV de Cachoeira do Sul (RS).

A nova denúncia parece não ter abalado o ministro. Com 4 dos 12 integrantes da Esplanada dos Ministérios em 2019 investigados, Bolsonaro disse na última quarta-feira (21) que a "questão ideológica" é muito mais grave do que a corrupção.

Onyx e Bolsonaro

Se o assunto é ideologia, o alinhamento entre Onyx e Bolsonaro é visível. A dupla se aproximou nas discussões no Congresso sobre a legislação relativa às armas em 2003. O democrata critica o Estatuto de Desarmamento que, segundo ele, desarmou o "cidadão de bem", defende a redução da maioridade penal e um Estado enxuto.

Coordenador informal do programa de governo de Bolsonaro, Onyx chegou a acompanhar o então presidenciável em missão autorizada pela Câmara para a Ásia em março. A viagem ao Japão, Coreia do Sul e Taiwan foi em busca de iniciativas nas áreas de educação e ciência e tecnologia.

A relação conturbada com a imprensa também é outro ponto em comum. Logo após o resultado das urnas, o democrata sugeriu um pacto com jornalistas, dando a entender que a mídia deveria evitar críticas no início do governo. "Nos deixem organizar o governo, deixa a gente governar, e aí nos critique, mas não comecem já a minar o que nem começou ainda", afirmou.

A sintonia também está na frase tatuada por Onyx após a acusação de caixa 2. A passagem bíblica "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" é também repetida por Bolsonaro diversas vezes.