POLÍTICA
25/11/2018 06:00 -02 | Atualizado 25/11/2018 08:11 -02

Carlos, Flávio e Eduardo: O conselho informal de Jair Bolsonaro

Como a relação entre Bolsonaro e os filhos determinou os caminhos da campanha eleitoral e aponta para o futuro do governo.

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Carlos, Flávio e Eduardo Bolsonaro: O conselho familiar e informal que guiou a campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro.

"Falarei com meu pai antes de tomar qualquer decisão importante."

Foi assim que o segundo filho do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), Carlos, na época com 17 anos, se apresentou ao se tornar o vereador mais jovem eleito no Brasil. Lá se foram 18 anos. Neste período, a ordem de alguns fatores se inverteu. Hoje, muitas vezes, é Bolsonaro quem escuta os filhos antes de tomar qualquer decisão importante.

Além de Carlos, que segue vereador, nos últimos anos, os outros 2 filhos gerados no primeiro casamento do capitão reformado do Exército passaram a compor a tropa da família Bolsonaro na política brasileira. Em 2002, Flávio Bolsonaro — atual senador eleito — se tornou deputado estadual e, em 2014, o caçula Eduardo, foi eleito deputado federal — reeleito em outubro para a próxima legislatura.

Hoje, são os filhos os principais pilares da figura do futuro mandatário do Brasil. Os 3, segundo aliados de Bolsonaro, formam um a espécie de conselho do pai. No período eleitoral ficou mais claro o papel que cada um desempenha.

Se a campanha foi marcada por episódios de desavenças no grupo político que cercou o então candidato do PSL, vale deixar claro que os 3 são unânimes em um ponto: não gostam de quem se aproxima para querer aparecer ou manipular o pai. E nunca esconderam isso.

Embora não cite nome, o recado de Carlos, o mais bélico dos 3, foi direcionado ao futuro ministro da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno. Na vida da família Bolsonaro desde o ano passado, o advogado que se aproximou do capitão do Exército com oferta de defesa de graça em processos no STF causa estranhamento.

O tweet veio na esteira de declarações de Bebianno sobre a possível nomeação de Carlos para a Secretaria de Comunicação do governo, subordinada à pasta que o advogado chefiará. O advogado disse, na última semana, que Carlos havia desenvolvido um "trabalho brilhante" na comunicação da campanha e que poderia assumir a Secom.

Bebianno presidiu o PSL no período da campanha, se tornou o principal responsável pela agenda do Bolsonaro, o blindou sempre que pôde e protagonizou rixas com os filhos. Para Carlos, a fala da última semana foi sinal de falsidade e motivo suficiente para que ele deixasse o papel que vinha exercendo na transição do governo.

Carlos e comunicação

Até então, era Carlos quem comandava a campanha digital de Bolsonaro. Não é sem razão que boa parte dos retweets do perfil de Bolsonaro era de publicações do filho. O trabalho feito há mais de 4 anos é reconhecido pelo pai, que o considera "extremamente competente", e por aliados de Bolsonaro, que elogiam o tino do rapaz para as redes sociais.

Nos cálculos de um dos aliados da família, o vereador tinha a eleição para deputado federal garantida. "Sem sair de casa, ele teria cerca de 700 mil votos, mas não concorreu pela função que emprega nas redes sociais. Bolsonaro precisava dele 'no computador'. Ele não teria como tocar a campanha do pai se fosse candidato. Abriu mão por um bem maior", analisa o apoiador ao HuffPost.

Quem tenta levar os créditos pelo trabalho que Carlos faz costuma sofrer consequências. Foi o que aconteceu com o sócio da agência AM4, Marcos Aurélio Carvalho, que foi forçado a deixar o seleto grupo de transição após se apresentar como marqueteiro digital da campanha.

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Os 3 irmãos: Carlos, Flávio e Eduardo Bolsonaro.

Embora Carlos esteja oficialmente fora da equipe, ele segue em defesa do trabalho do pai e com a mira apontada contra a imprensa. Também é o vereador uma das pessoas que alimentam a desconfiança da família em relação à mídia tradicional. E é quem costuma apresentar ao pai mídias e perfis de comunicadores alternativos.

Por ter ficado responsável pela comunicação, Carlos teve um protagonismo mais nítido na campanha, o que não significa que Flávio e Eduardo não atuaram. Embora os 2 também estivessem em campanha, diferentemente do irmão do meio, eles tiveram papel fundamental na estratégia e tomada de decisões.

Eduardo e economia

De 2015 para cá, enquanto ensinava a Eduardo, que acabava de assumir o primeiro mandato de deputado federal, os meandros da atuação parlamentar na Câmara, Jair também aprendia com o filho. Gabinetes lado a lado, que praticamente se confundiam, aliado ao fato de os servidores atenderem aos 2 políticos, evidenciavam que, em certos momentos, os dois pareciam a mesma pessoa.

Os discursos de Eduardo na tribuna do plenário repetiam a agenda do pai: segurança pública, com ênfase na flexibilização das políticas de desarmamento, ataques ao PT e críticas ao sistema educacional brasileiro, com foco na Escola sem Partido. Eduardo é um dos parlamentares mais assíduos às reuniões da comissão especial que apreciam o texto, apelidado pelos críticos de "lei da mordaça" aos professores.

Jair apresentou o filho aos colegas. E Eduardo fez despertar no pai o interesse pela política econômica liberal. As aulas com o economista Ubiratan Iorio, diretor do Instituto Mises, ajudaram Eduardo a moldar a atual visão econômica do pai. Até então Bolsonaro tinha em seu currículo uma forte postura estatizante, plenamente alinhada com o pensamento militar, e um histórico de votações afinado com o de pares do Partido dos Trabalhadores.

A economia era uma espécie de calcanhar de Aquiles da estratégia de Boslonaro de concorrer à Presidência. Com o País mergulhado na crise econômica, os jornalistas queriam saber o que ele iria fazer. E ele sempre bateu na tecla de que não precisaria saber de economia, destacava que os militares que comandaram o Brasil em tempos de bonança não eram economistas, mas lhe faltava uma solução.

Chegou a falar em investir na exploração de minérios, mas as indicações do filho e posteriormente o nome de Paulo Guedes foram essenciais para o rumo que a campanha eleitoral seguiu. Iorio, professor-guru de Eduardo, é um grande entusiasta de Paulo Guedes, de quem é amigo desde 1984.

Paralelo à economia, Eduardo investiu em relacionamentos. Em março deste ano, procurou Steve Bannon, um dos estrategistas da campanha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para discutir a eleição do pai.

O interesse por assuntos internacionais e o trânsito no Congresso, especialmente com parlamentares da bancada da bala, lhe renderam um papel semelhante ao de relações institucionais. Oficialmente, assumirá a Secretaria de Assuntos Parlamentares do PSL, partido ao qual os políticos da família estão filiados.

Há especulações, no entanto, de que ele poderia exercer, informalmente, o papel de assessor da Presidência para assuntos internacionais. Nesta semana, Eduardo estará nos Estados Unidos - e se reúne, nesta segunda (26), com funcionários do Conselho de Segurança Nacional, da Casa Branca, em Washington. Na sequência, o chefe do Conselho, John Bolton, se encontrará com Jair Bolsonaro, no Brasil.

Flávio e a conciliação

Assim como em toda família, há divergências e há o conciliador. E este é o principal papel exercido pelo filho mais velho, Flávio, de 37 anos. Na campanha, segundo pessoas próximas a Bolsonaro, se decidiu quase que integralmente a conquista dos mais de 4 milhões de votos que Flávio recebeu para o Senado.

"O pai precisava dele no Senado. A missão foi dada e ele cumpriu o papel. Foi uma eleição difícil, em alguns momentos, ele aparecia nas pesquisas em terceiro lugar, com a vaga perdida", ressalta um aliado.

Flávio é descrito como uma pessoa mais realista e contemporizadora. O primogênito, por exemplo, conseguiu driblar as formalidades e se posicionar favorável à candidatura de Wilson Witzel. O apoio formal só veio às vésperas do segundo turno.

Reprodução/Facebook
Flávio Bolsonaro é considerado o menos bélico dos 3 filhos políticos do presidente eleito.

Flávio é o menos bélico dos irmãos, o que é possível perceber inclusive no tom de seus posts nas redes sociais. Mas isso não faz com que as bandeiras dele sejam diferentes. Um dos primeiros discursos de Eduardo Bolsonaro no Congresso, no início de 2015, foi para apresentar um projeto de Flávio, que se encontrava com o então presidente da Casa, Eduardo Cunha (MDB-RJ).

Flávio apresentou ao ex-deputado um projeto com mais de 160 mil assinaturas para aumentar as penas para quem comete assassinato de policiais e demais agentes de segurança pública. "E esse realmente é um crime mais do que hediondo", disse Eduardo, ao falar sobre a proposta do irmão.

A expectativa é que ele no Senado reforce seu papel nos bastidores das articulações para conseguir levar adiante as propostas do governo na Casa.

Nos últimos meses, a família consultou advogados e especialistas em direito constitucional para entender os limites da atuação dos filhos no Executivo. Caso fossem nomeados a algum cargo, poderia ser considerado nepotismo. Recentemente, Bolsonaro afirmou que a possível nomeação de Carlos para a Secretaria de Comunicação poderia ser tratada como nepotismo. "Nunca pratiquei isso, não interessa fazer isso."

Além dos 3, o presidente eleito tem outros 2 filhos, Renan, 19 anos, e Laura, 8, dos casamentos com Ana Cristina Valle e Michelle Bolsonaro, respectivamente.