COMPORTAMENTO
22/11/2018 07:41 -02 | Atualizado 22/11/2018 07:41 -02

Se você acha paquerar online é difícil, experimente com cadeira de rodas

Três pessoas com diferentes formas de distrofia muscular falam como é a sua busca pelo amor.

Pessoas com diferentes formas de distrofia muscular falam como é a sua busca pelo amor.
Ji Sub Jeong/HuffPost
Pessoas com diferentes formas de distrofia muscular falam como é a sua busca pelo amor.

It's Not You, It's Meé uma série que analisa a procura de relacionamentos nos Estados Unidos, vista desde o ponto de vista de diferentes etnias, identidades sexuais, experiências de vida e circunstâncias.

Receber mensagens toscas ou indesejadas faz parte do que é normal quando se usam aplicativos de namoro. Mas as mensagens são muito piores quando a pessoa é deficiente física.

Na dúvida, pergunte a Lolo, 31 anos, influencer de comportamento que vive em Los Angeles. Quando ela entra em um aplicativo de namoro, não é incomum encontrar mensagens dizendo algo tipo "Eu sei como fazer você voltar a andar".

"É como se o cara achasse que o pênis dele seria uma cura mágica", disse Lolo, que tem uma forma de distrofia muscular e se movimenta numa cadeira de rodas. "Fico espantada."

Infelizmente para Lolo e outras pessoas com deficiências que usam aplicativos de relacionamento, as perguntas inapropriadas sobre sua deficiência e sua vida sexual são comuns e corriqueiras. Mas existem alguns aspectos positivos. Abaixo, Lolo, Amin Lakhani (que tem 29 anos, vive em Seattle e é coach de relacionamentos) e Erin Hawley (35 anos, redatora, vive em Nova Jersey) revelam como é procurar relacionamentos quando você tem uma deficiência física.

Em poucas palavras, como é sua vida na procura de relacionamentos?

Amin Lakhani: Está menos ativa do que já foi no passado, porque hoje tenho uma visão mais clara de quem sou e do que procuro. Eu filtro mais. Estou saindo com algumas pessoas no momento.

Lolo: Neste momento, não estou procurando ninguém. Estou simplesmente confiando que Deus me ajudará a atrair seja quem for que a vida queira que fique comigo. Acho que saio para um encontro uma vez a cada três ou quatro meses. Passo a maior parte do tempo como solteira, depois passo um período saindo regularmente, depois ou a pessoa com quem estou saindo diz que só quer amizade comigo ou então me diz que sou "intimidadora demais" para ser sua namorada.

Erin Hawley: Saí com várias pessoas no passado e estive em dois relacionamentos sérios até encontrar meu companheiro atual, com quem estou há três anos. Hoje meu companheiro e eu geralmente percebemos que, em vez de sair para comer fora, preferimos ficar em casa e assistir a "Cutthroat Kitchen".

Como é para você procurar um relacionamento online?

Erin: Para quem tem deficiência, é um pesadelo. Acho que todo o mundo odeia procurar alguém online, até certo ponto. Mas no meu caso, eu recebia um monte de mensagens desagradáveis de homens perguntando se eu conseguia fazer sexo (antes mesmo de dizer "oi"!), perguntando se eu sabia como transar, fazendo todo tipo de perguntas muito pessoais e altamente inapropriadas. E então fiquei sabendo dos chamados "devotos" – pessoas cujo fetiche é transar com deficientes físicos. É uma coisa que nos desumaniza.

Lolo: Para mim, a coisa mais perturbadora aconteceu pessoalmente, cara a cara, no terceiro encontro que tive com uma pessoa. O encontro terminou mal porque a gente se desentendeu, e por conta disso ele saiu do restaurante sem dar tchau, não me ajudou a entrar no Uber e não mandou um torpedo para saber se eu tinha chegado em casa em segurança. Aquilo me deixou perturbada, porque até então ele parecia ser o sujeito mais doce do mundo. Mesmo que a pessoa esteja chateada, ela devia ter a decência de me ajudar.

Amin: Para mim, honestamente, a procura de relacionamentos online sempre foi uma coisa um pouco sem graça. A pior parte é não encontrar muitas pessoas com quem eu tenho algo em comum, e, quando aparece alguém, acho difícil acreditar que seja por qualquer outro motivo que não seja minha deficiência.

Amin Lakhani
After an uncomfortable experience, dating coach Amin Lakhani makes a point to mention his disability on his online dating profiles.

Você fala de sua deficiência em seu perfil de namoro online? Você inclui fotos que mostrem que você tem uma deficiência física?

Amin: Sim, sou muito explícito em relação a isso. Uma vez uma garota não sabia que eu tinha uma deficiência até eu comparecer ao encontro, e ela ficou quase em silêncio a noite toda. Acabei perguntando a ela sobre isso, e ela me disse que estava surpresa, porque meu perfil só dava indicações indiretas sobre minha condição. Então a partir desse dia eu sempre incluí informações explícitas. Hoje isso faz parte de minha foto principal, e eu falo sobre a deficiência, geralmente em tom de brincadeira, mas quando há espaço para isso, falo seriamente, como no OkCupid.

Erin: Sim, sempre mencionei minha deficiência e incluí uma foto minha de corpo inteira, na cadeira de rodas. Não adianta esconder, porque qualquer parceiro acabaria por descobrir que sou deficiente física. Sem falar que me mostrar como realmente sou também elimina os interessados que sejam bitolados. Por que eu ia querer sair com alguém assim?

Lolo: Eu sempre menciono e incentivo meus seguidores no YouTube a fazerem o mesmo. Acho melhor deixar isso claro desde o começo, para que não precise haver conversas incômodas mais para frente.

Qual foi a melhor reação à sua deficiência da parte de alguém com quem você saiu?

Erin: A melhor reação sempre é me tratar como você trataria alguém que não tem deficiência e entender minha autonomia. Se você nunca saiu com uma pessoa com deficiência, pergunte a si mesmo por que não. Examine suas ideias preconcebidas, seus preconceitos. Leia ou ouça as vozes da comunidade de pessoas com deficiências. Meu namorado nunca antes tinha saído com uma pessoa com deficiência, mas se mostrou aberto a aprender como lidar com minhas necessidades físicas e me tratou imediatamente de igual para igual.

Lolo: A melhor reação que já tive de alguém foi de um homem que simplesmente me tratou como uma mulher em quem ele estava interessado. Nunca pareceu que minha deficiência ou minha cadeira de rodas o incomodassem. Ele era prestativo sem exagerar, e não passamos a noite toda falando de minha deficiência. A gente realmente se divertiu batendo papo. O conselho que eu daria a alguém que nunca saiu com um deficiente físico é não deixar que a deficiência do outro jogue uma sombra sobre quem é essa pessoa. Somos pessoas em primeiro lugar.

Amin: A melhor reação é quando a pessoa entra no espírito das mesmas brincadeiras que eu. Uma ex-namorada minha certa vez falou alto, na frente de um grupo de pessoas, "se você não parar com isso vou lhe empurrar escada abaixo de novo!". As pessoas ficaram chocadas, e minha namorada e eu passamos dias gargalhando. O conselho que eu daria é este: siga as deixas da pessoa com deficiência. Se ela for super aberta em relação à sua condição, entre no espírito das piadas e brincadeiras dela. Se não for, procure conhecê-la um pouco melhor e compartilhar com ela algumas de suas próprias vulnerabilidades antes de falar da deficiência. Em vez de deixar a pessoa deficiente em situação complicada, seria bom dizer algo como "eu gostaria de saber um pouco mais sobre essa parte de você, quando você estiver com vontade de compartilhar".

Como é o sexo?

Amin: Uma ex-namorada minha falou "eu queria que você pudesse me encostar na parede". Foi duro ouvir isso, porque é claro que isso é algo que eu também gostaria de fazer. Ela não estava muito aberta a tentar maneiras diferentes de "simular" essa experiência, e no fim tive que terminar o relacionamento porque eu percebi que ela não estava feliz. Eu só queria que ela tivesse sido mais franca em relação a isso, em vez de ter ficado indo e vindo, já que isso causou muita frustração, a gente terminando e depois voltando a namorar. Mas de modo geral eu gostei de namorar com ela e senti que pude curtir um pouco do "drama" dos namoros de adolescente que não pude viver na minha juventude. Não é algo que eu queira repetir, mas foi um bom aprendizado.

Lolo: As pessoas devem abordar o sexo começando com uma conversa franca sobre o que é confortável para elas. As coisas esquentam muito rápido, mas leve o tempo necessário para mudar de posições, para ajudar a outra pessoa e curtir o momento sem ser irritante.

Não perca a esperança. Pode levar algum tempo, mas tudo bem. Continue a sair com pessoas, continue a procurar e a arriscar-se e afaste-se quando for preciso para voltar a focar sua atenção sobre você mesma.Erin Hawley

Que conselhos você daria a outras pessoas com deficiências que receiam usar aplicativos da namoro ou simplesmente têm medo de sair com outras pessoas, de modo geral?

Amin: Meu conselho principal é fazer uma brincadeira sobre sua deficiência física, logo de cara. As pessoas vão reagir à sua deficiência baseadas no modo como você a apresenta. Se você tentar esconder ou ignorar a deficiência, isso apenas deixará as pessoas incomodadas, porque o ser humano é naturalmente curioso sobre qualquer coisa que fuja à regra.

Erin: Será difícil de qualquer maneira. Realmente é preciso entrar nessa arena usando armadura de aço, porque as pessoas serão cruéis. Encontre a outra pessoa cara a cara assim que possível, porque algumas pessoas podem dizer que não têm problema com sua deficiência, mas então mudar de ideia quando a conhecem cara a cara. E, para concluir, não perca a esperança. Continue a sair com pessoas, continue a procurar e se arriscar, e afaste-se quando for preciso para voltar a focar sua atenção sobre você mesma.

Lolo: Meu conselho seria simplesmente ir lá e tentar, sem medo. Divirta-se e não se aferre à esperança de encontrar seu "par perfeito". Desse modo você terá experiências mais positivas em encontros do que decepções quando as coisas não dão certo. E hoje em dia todo o mundo tem dificuldade em encontrar a pessoa certa para se relacionar. A dificuldade nem sempre se deve à sua deficiência.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.