POLÍTICA
22/11/2018 04:06 -02 | Atualizado 22/11/2018 08:56 -02

Capitão Augusto, João Campos e Alceu Moreira: Bancada BBB quer a Presidência da Câmara

Integrantes das bancadas de segurança, evangélica e do agronegócio buscam sair dos nichos para conquistar presidência da Casa.

Montagem/Câmara dos Deputados

O estilo do presidente eleito, Jair Bolsonaro, de articular apoios com bancadas temáticas em vez de partidos, também é marca da disputa pela Presidência da Câmara dos Deputados.

Entre os 7 candidatos à eleição em fevereiro, 3 são conhecidos pela atuação expressiva nas bancadas da segurança, evangélica e do agronegócio e contam com a simpatia do capitão da reserva.

Autor de uma das propostas da 'cura gay', João Campos (PRB-GO), recebeu nesta quarta-feira (20) o aval do atual líder do partido na Câmara, Celso Russomano (SP), para concorrer ao cargo. Um dos principais apoiadores da campanha de Bolsonaro, Capitão Augusto (PR-SP) se fortalecerá ao assumir, na próxima legislatura, o controle da bancada da segurança, também conhecida como bancada da bala. Alceu Moreira (MDB-RS), por sua vez, é o representante dos ruralistas na disputa.

Apesar de negarem um apoio formal do presidente eleito, todos facilitariam a vida do Executivo nos próximos 2 anos, se eleitos. Cabe ao presidente da Casa, junto com os líderes partidários, decidir o que entra na pauta de votação. O cargo também influencia na distribuição de postos-chave na atividade parlamentar.

A estratégia de Bolsonaro até o momento tem sido de evitar entrar na discussão. Na avaliação de parlamentares, pode ser um tiro no pé ter um candidato oficial. Se o escolhido perder, o vencedor pode dificultar a relação. Caso ganhe, os perdedores também podem ficar ressentidos.

Em 2015, o então deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ) venceu o candidato da então presidente Dilma Rousseff, Arlindo Chinaglia (PT-SP), causando um desgaste entre Executivo e Legislativo.

Além do trio, outros nomes na disputa são Giacobo (PR-PR), Fábio Ramalho (MDB-MG), JHC (PSL-AL), Delegado Waldir (PSL-GO) e o atual presidente, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de olho na reeleição.

Capitão Augusto: Bancada da bala

Em 5 de outubro de 2014, o deputado federal Tiririca (PR-SP) ajudou, puxando votos, o policial militar José Augusto Rosa a conquistar o cargo que tentava pela quarta vez. O Capitão Augusto foi eleito deputado federal com 46.905 votos.

No primeiro mandato, ele se destacou pela defesa de pautas de segurança, como a redução da maioridade penal. Também chamava atenção por usar no Congresso o traje com condecorações e insígnias da PM paulista. Ao longo dos anos, passou a alternar o uniforme com o tradicional terno e gravata.

Reprodução/Facebook
"Como sou católico, estou pedindo o voto dos católicos", diz Capitão Augusto.

Se, no início da carreira política, Capitão Augusto precisou de um empurrãozinho, em 2018, o policial foi o candidato a deputado federal com o 9º melhor desempenho em São Paulo, onde conquistou 242 mil votos. Logo após o resultado das urnas, começou a trilhar o caminho em busca da Presidência da Câmara em 2019.

O parlamentar diz ter cerca de 70 votos e acredita chegar a um patamar entre 100 e 110, a fim de garantir uma vaga no segundo turno. Ele acredita que Maia já está garantido na disputa final.

A votação é secreta e só pode ser iniciada se houver quórum de 257 parlamentares (metade mais um do total de deputados). Para ganhar em primeiro turno, é necessária maioria absoluta dos votos.

Capitão Augusto disse contar com o apoio de 25 deputados vindos da carreira policial, outros 20 nomes da bancada da bala e 25 de São Paulo. Criada em 2015, a Frente Parlamentar da Segurança tem 272 deputados, mas nem todos defendem as mesmas propostas. Há hoje 38 deputados atuantes no grupo e 20 desses foram reeleitos.

Fora de seu nicho, o deputado tem procurado integrantes da bancada da Bíblia. "Na Frente Parlamentar Cristã, a maioria é católica, e o João Campos está com os evangélicos. Como sou católico, estou pedindo o voto dos católicos", afirmou ao HuffPost Brasil.

De olho na demanda por renovação na política, o parlamentar diz que quer, se eleito, convocar uma comissão para mudar o regimento da Câmara. O objetivo é alterar os critérios de distribuição das vagas nas comissões e relatorias, hoje com base nas formações de blocos e acordos de bastidores.

O policial militar também quer limitar os recursos da oposição em plenário para travar votações. "Hoje a minoria consegue se sobrepor à maioria", criticou. "O parlamento não pode ficar paralisado e improdutivo devido aos inúmeros expedientes que obstruem as deliberações", diz o documento em que apresenta suas propostas.

Outra mudança defendida é estabelecer um horário fixo de início e término das atividades nas comissões e no plenário e definir a pauta com antecedência. "É uma mudança atrás da outra", afirmou. Atualmente, alguns projetos são incluídos na pauta do plenário em cima da hora, após acordo de lideranças. Apesar de haver certa previsão de horários, algumas sessões são convocadas às vésperas.

Questionado sobre a relação com Bolsonaro, Capitão Augusto disse que não tratou da eleição, "até para preservar o presidente", mas disse estar disposto a facilitar a tramitação de temas de interesse do Planalto. "Põe para votar, pô. Tudo que o governo mandar será votado e o plenário decide", afirmou.

Alceu Moreira: Bancada ruralista

A disposição com a agenda do capitão da reserva também é adotada por Alceu Moreira. O deputado tem focado no próprio partido, o MDB - com 34 eleitos -, e na bancada ruralista. Na próxima quarta-feira (28) ele almoça com a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA).

O emedebista evita quantificar o apoio. A FPA foi criada em 2015, com assinaturas de 198 deputados e 27 senadores. A renovação de metade da Câmara, contudo, muda a relação de forças.

Presidente do MDB no Rio de Janeiro, o parlamentar chegou à Câmara em 2011. No pleito deste ano, conquistou 100.341 votos, ficando em 16º lugar na disputa de deputado federal no Rio Grande do Sul.

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"Não têm parlamentar feliz de ter que tirar o botom para entrar em avião em Brasília e ir embora para o estado", diz Alceu Moreira.

Em oposição a Capitão Augusto, Moreira não planeja mudanças no funcionamento da Casa. "Não dá para tentar inventar a roda. Tem parlamentares novos e antigos e é preciso lidar com o choque de interesses nesse sentido", afirmou.

Em uma crítica indireta a Maia, o parlamentar defende uma independência maior em relação ao Planalto. "Não pode votar só medida provisória", afirmou. Uma das opções é reservar um dia apenas para votações de projetos de autoria dos deputados.

Moreira acredita que melhorar a produtividade do Parlamento pode impactar na imagem dos congressistas. "Não tem parlamentar feliz de ter que tirar o bóton para entrar em avião em Brasília e ir embora para o estado", afirmou, em referência à identificação dos deputados.

Favorável à agenda econômica de Bolsonaro, o candidato tem como prioridade a desburocratização tanto no setor empresarial quanto nas relações trabalhistas. "É fazer uma simplificação sem precarizar", afirmou.

Apesar da convergência com o capitão da reserva, Moreira diz que o presidente eleito não irá se envolver na disputa. "Tenho conversado com Bolsonaro, Onyx [Lorenzoni], Eduardo [Bolsonaro], mas não sobre isso", afirmou.

João Campos: Bancada evangélica

Expoente da bancada evangélica, João Campos tem sido mais discreto na busca por votos. "Ainda não era candidato. Agora vou cumprir o roteiro que cada candidato tem que cumprir", afirmou. Até esta quarta, ele esperava o aval de Russomanno, que havia manifestado intenção em entrar na disputa.

Além da busca por votos, o parlamentar diz que pretende alinhar as propostas. "Até então eu não era candidato. Estava esperando o Russomanno. Como ele declinou da candidatura dele e declarou apoio a mim, serei o candidato do partido", afirmou.

Campos nega ter conversado sobre as articulações no Congresso com Bolsonaro, mas brinca sobre um possível apoio, caso Russomanno seja escolhido ministro. Ele é cotado para assumir o Ministério das Cidades. "Se for e pedir voto para mim, ajuda muito", afirmou.

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"Se [Russomanno] for e pedir voto para mim, ajuda muito", diz o deputado João Campos.

Pastor nomeado pela Igreja Assembleia de Deus de Vila Nova, em Goiás, o deputado se elegeu como o 5º deputado federal mais votado do estado, com 106.014 votos. É seu sexto mandato na Casa. Filiou-se ao PRB na janela partidária de 2015. Antes, era parte do PSDB.

Formado em direito, antes de entrar para a política, Campos foi chefe de gabinete da Secretaria de Segurança Pública de Goiás, entre 1990 e 1991. Também foi delegado em Aparecida de Goiânia, entre 1991 e 1992.

Além de integrar a bancada da Bíblia, o parlamentar também é parte da Frente Parlamentar da Segurança.

Não há formalmente uma bancada evangélica, mas a Frente Parlamentar Evangélica (FPE), com 182 integrantes. Desse total, 105 pertencem a outras religiões, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo. Dos 82 evangélicos, 37 foram reeleitos.

Ao longo de seus mandatos, o pastor se destacou pela atuação em pautas conservadoras. É dele o Projeto de Decreto Legislativo 234/2011, apelidado de "cura gay", que pretendia retirar a restrição de psicólogos a tratamentos relacionados à homossexualidade.

O parlamentar também apoiou propostas de restrições a direitos das mulheres. Ele é um dos 18 que aprovaram o texto base da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 181, que inviabiliza o aborto legal ao estabelecer que a vida começa na concepção.

Aliado de Eduardo Cunha, em 2015, Campos também apresentou uma proposta de emenda constitucional para incluir entidades religiosas na lista de instituições que podem propor ação direta de inconstitucionalidade ou ação declaratória de constitucionalidade ao Supremo Tribunal Federal.

Hoje essa prerrogativa é reservada ao presidente da República, à Mesa do Senado e da Câmara ou das assembleias legislativas, aos governadores e ao procurador-geral da República. Esse tipo de ação também pode ser proposta pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, por partido político com representação no Congresso Nacional ou por confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional.